O equilíbrio da F1 está no trio HRV

Com a vitória em Mônaco, Daniel Ricciardo se juntou a Lewis Hamilton e Sebastian Vettel em número de vitórias – cada um tem duas até aqui. Mais que isso, ao analisar esse início de temporada é possível dizer que a F1 poderia estar ainda mais equilibrada

Evelyn Guimarães, de Curitiba

 

 

Em um passado não muito distante, o mundo se rendia ao trio MSN do Barcelona. Lionel Messi, Neymar Jr. e Luis Alberto Suárez encantavam e levantavam a torcida no Camp Nou com jogadas rápidas e quase sempre letais, ampliando recordes e emprestando um toque de magia aos gramados da Europa. A formação, é bem verdade, não durou tanto, mas pode ser usada para um paralelo interessante daquilo que a F1 vê em sua tabela de classificação em 2018.

Assim como o clube da Catalunha, o grid da maior das categorias também tem seu trio de ouro que vem brilhante forte neste início de temporada. Com a dominante vitória em Mônaco, há pouco mais de uma semana, Daniel Ricciardo se juntou a Lewis Hamilton e a Sebastian Vettel no quesito número de vitórias: agora, cada um tem dois triunfos cada e estão separados por 38 pontos. A pontuação, no entanto, diz pouco sobre a atuação de cada um ao longo destas primeiras seis etapas do Mundial. Mais que isso, mascara um ano que está mais equilibrado do que a folha de pontuação mostra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Daniel Ricciardo assumiu a terceira colocação após Mônaco, alcançando 72 pontos. A temporada do australiano, na verdade, vem sendo de altos e baixos, mas não por sua culpa. Na Austrália, o #3 se viu punido no grid por conta de uma ação durante os treinos livres. Sem baixar demais a velocidade em uma bandeira vermelha - que era por conta de um defeito em um sensor da cronometragem -, Daniel acabou perdendo três posições no grid. Ainda assim, soube se recuperar na corrida, contou com a sorte no erro do companheiro Max Verstappen e também nos problemas da Haas para terminar na quarta posição, atrás de Vettel, Hamilton e Kimi Räikkönen.

Aí veio o GP do Bahrein. Ricciardo conseguiu a quarta posição no grid, mas uma falha elétrica do carro da Red Bull o fez deixar a corrida ainda nas primeiras voltas. A redenção viria uma semana depois. É bem verdade que a Ferrari vinha dominando a corrida, mas uma joga inteligente da Red Bull nos boxes, quando a prova entrou em ritmo de safety-car, colocou Daniel no rumo da vitória - o australiano ainda foi ajudado pelas trapalhadas de Max Verstappen para seguir superando os adversários até cruzar a linha de chegada em primeiro.

Duas semanas depois, Ricciardo viveu a maior controvérsia da temporada até aqui. A Red Bull se colocou no meio de Mercedes e Ferrari, e o australiano acabou saindo da quarta colocação no GP do Azerbaijão. Na corrida, o #3 se viu em uma disputa interna com Verstappen, que durou até pouco voltas antes do fim, quando os dois se envolveram em um acidente que tirou ambos da corrida. Até agora se discute de quem foi a culpa. 

Na Espanha, viveu uma corrida apagada para terminou em quinto – talvez a prova em que menos apareceu. Mas o grande momento foi mesmo em Mônaco. Ricciardo se impôs de forma assustadora nas ruas do Principado. Liderou todos os treinos livres e conseguiu sua segunda pole da carreira. Depois, comandou a corrida de ponta a ponta. Nem mesmo Verstappen – que ajudou de novo ao bater no TL3 – e uma perda de potência ao longo da prova conseguiram atrapalhar a performance do australiano. O triunfo o botou no top-3 da temporada, mas poderia estar ainda melhor.

 

 

 

 

 


 


Diante de tudo que ocorreu em Sakhir e em Baku, os dois abandonos até aqui tiraram de Daniel uma clara chance de ao menos ter conseguido dois quarto lugares – o que o colocaria em pé de igualdade com Vettel, por exemplo. Ainda assim, Ricciardo vem sendo o que de melhor tem a Red Bull no momento. O RB14 ainda não tem a velocidade e o equilíbrio do W09 da Mercedes e da SF71H da Ferrari, mas possui ótima aderência mecânica e pressão aerodinâmica -  performance em Mônaco está aí para provar. Melhor que isso, o #3 é quem vem aproveitando todas as oportunidades. Fez isso em Melbourne e repetiu a dose na China, quando exibiu uma tocada precisa e elegante foi passando cada um dos adversários até alcançar a vitória. E foi perspicaz em Monte Carlo, ao driblar os problemas de seu carro e conduzir com frieza até a bandeirada final. 

É difícil não colocar Daniel em uma briga mais próxima com Hamilton e Vettel, especialmente por conta desse senso de oportunidade aguçado – que parece ser o superpoder deste Ricciardo, que ainda segue sem contrato para 2019 e que pode selar seu destino com um desempenho seguro e maduro. Ainda - e talvez até mais importante -, o australiano ofusca Verstappen até aqui. Enquanto o holandês se vê em apuros por erros seguidos, o rapaz da Austrália mostra a cabeça no lugar e não se abala com nada. Em uma temporada marcada pela ação do acaso e equilibrado, Ricciardo é, sim, candidato ao títulos.
 

Sebastian Vettel, por outro lado, vive uma temporada esquisita, para se dizer o mínimo. A Ferrari novamente construiu um bom carro – veloz e que se adapta mais facilmente às mudanças de temperatura e aos compostos mais macios da Pirelli. Nas mãos do alemão, a SF71H demorou um pouco para se acostumar, é verdade, mas agora os dois parecem já falar a mesma língua. Depois dos dois abandonos e dos reveses experimentados no ano passado, o tetracampeão entrou em 2018 sabendo da importância de cada pontinho na tabela. Por isso, não dá mole.

E a etapa da Austrália foi um belo exemplo. Vettel não conseguiu acompanhar Hamilton em nenhum momento naquele fim de semana, mas, quando foi para valer mesmo, a Ferrari usou bem da estratégia e aproveitou os incidentes com os carros da Haas para jogar o alemão na frente, surpreendo a rival Mercedes. Que ficou ainda mais surpresa com a performance ferrarista no Bahrein. Depois da dobradinha no grid, Seb voltou a vencer, abrindo 2x0 para Hamilton.

Tudo mudou a partir da China. Apesar da pole, a equipe italiana errou na estratégia, e Vettel ainda sofreu com um acidente com Verstappen. De possível pódio caiu para apenas oitavo – o principal adversário, Hamilton, também não foi lá essas coisas, mas acabou terminando à frente. O tetracampeão sofreria ainda outro revés: no Azerbaijão, tudo parecia caminhar para um domínio do #5, mas o acidente entre os carros da Red Bull alterou o roteiro da história. A batida ocasionou um safety-car, que colocou todos nos boxes. No retorno, Vettel se viu atrás do então líder Valtteri Bottas. Arriscou e tentou passar o finlandês na relargada, errou e acabou caindo para quatro. Terminou por lá. 

Enquanto isso, lá na frente, Hamilton ainda teve o caminho facilitado por um furo de pneu de Bottas. E, assim, caminhou para a primeira vitória no ano. O triunfo do inglês ainda fez o ferrarista perder a liderança do campeonato, que vinha em suas mãos desde o início da temporada.

 

 

 

 

 


 


Duas semanas depois, Vettel e a Ferrari foram pegos de surpresa com os pneus da Pirelli em Barcelona. A dificuldade em aquecer os compostos foi notória, e isso se refletiu na corrida. Em nenhum momento, Seb se encontrou com chances de brigar com os pilotos da Mercedes. E um pit-stop extra ainda o colocou fora do pódio. E aí só restou se contentar com o quarto lugar. As coisas começaram a melhorar em Mônaco. Ainda que longe do desempenho da Red Bull, Vettel optou por uma corrida mais segura no Principado e chegou em segundo. O mais importante: à frente de Hamilton. O que fez a diferença que estava 17 pontos cair para 14. 

A verdade é que o tetracampeão perdeu enorme terreno nestas seis corridas. A Ferrari ainda tem um carro cujo conjunto é mais forte que o da Mercedes, mas o acaso jogou contra o alemão, que viu ao menos uma vitória escapar de seus dedos: em Baku. O erro naquela relargada abriu espaço para a vitória de Lewis – que, por sua vez, levou a melhor no revés do companheiro de equipe.

A lambança de Max na China também tirou pontos preciosos de Vettel, que poderia ainda ocupar a liderança atualmente, levando em consideração os acontecimentos em Xangai e em Baku.

 

Então, aparece Lewis Hamilton. O inglês lidera o Mundial com uma folga de 14 pontos para Sebastian Vettel e 38 para Daniel Ricciardo. Mas o recém-coroado tetracampeão não vive um ano dominante como pode parecer. A temporada de Hamilton é mais regular, na verdade. O #44, de fato, começou o campeonato de forma assombrosa. Fez uma pole espetacular em Melbourne, mas acabou surpreendido pela tática ferrarista.

No Bahrein, Lewis não se entendeu com os novos pneus da Pirelli e enfrentou problemas para conseguir a temperatura ideal. Ainda, precisou efetuar uma troca da caixa de câmbio e perdeu cinco posições no grid, largando apenas em nono. Foi para uma corrida de recuperação e salvou um pódio, na vitória de Vettel. Na China, também teve problemas com os pneus – desta vez, para aquecê-los. Não passou de um quarto lugar e seguia sem vencer. 

Aí veio o Azerbaijão, e a sorte finalmente sorriu para o britânico. Mas o fim de semana azeri não vinha sendo lá essas coisas. A Mercedes seguia com os problemas com a temperatura de pneus, e isso se refletiu na corrida. Só que o acidente entre a dupla da Red Bull, já no fim da prova, mudou tudo. E a vitória acabou caindo nas mãos de Lewis, depois do erro de Vettel na relargada, quando o ferrarista exagerou na freada na primeira curva enquanto tentava superar Valtteri Bottas, e do furo de pneu do finlandês. Ali, Hamilton virou líder do campeonato, graças à regularidade e aos tormentos que afligiam o rival alemão.

A F1, então, desembarcou na Espanha duas semanas depois. Em Barcelona, o campeonato viu uma Ferrari com dificuldades com os pneus mais duros da Pirelli e uma Mercedes nadando de braçada nessas condições de borracha. Resultado: vitória do inglês em uma dobradinha. Vettel, por sua vez, brigou com os pneus, precisou de uma parada extra e acabou perdendo o pódio. 15 dias mais tarde, em Mônaco, o #44 voltou a enfrentar os fantasmas dos pneus mais macios da Pirelli, mas, ainda assim, conseguiu sair do Principado com o pódio da terceira colocação. Por isso, ainda segue na liderança, tendo uma vantagem interessante de 14 pontos.


 


Na tabela, a diferença entre os três principais pilotos do ano é relativamente grande, mas não reflete o maior equilíbrio que a temporada 2018 vem apresentando até aqui. A F1 não tem mais um único carro dominante, mas, sim, três modelos com diferentes pontos fortes e fraquezas muito nítidas, mas com um trio de pilotos habilidosos. Os pneus também vêm desempenhando um papel mais decisivo do que o imaginado e cada um dos protagonistas se mostra sensível de maneiras distintas. Sem dúvida, é um campeonato que será decidido nos detalhes, mas não há mais hegemonia.