O futuro é Massa

Felipe Massa confirmou a chegada como piloto da Fórmula E a partir da próxima temporada. Com a Venturi, Massa será o capitão de um novo projeto e será o garoto-propaganda da categoria, que salivava por ele há algum tempo

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

Um dos segredos menos guardados do mundo do automobilismo nos últimos quase dois anos foi, enfim, confirmado no fim da manhã desta terça-feira (15): Felipe Massa será piloto da Fórmula E a partir da temporada 2018/19. A empreitada será tomada no volante da Venturi, equipe de fábrica voltada para carros elétricos desde sua criação há quase 20 anos. 

Massa flertava com a FE há tempos. Desde 2016, quando anunciou a aposentadoria, o vice-campeão mundial de 2008 na F1 falava com carinho sobre a possibilidade de ajustar seu futuro ao futuro do esporte. A ser o primeiro piloto ex-F1 de grande porte a dar o passo adiante para uma nova e adocicada opção que se abriu desde 2014 no automobilismo. 

Tudo parecia certo para Felipe ingressar na FE o mais rápido possível, provavelmente na terceira temporada da categoria - a última, que terminou em julho do ano passado. Sair da F1 com aquela despedida inflamada e emocionante e se virar para um novo desafio. Caso quisesse tirar um período sabático de, digamos, um ano, tinha a quarta temporada em dezembro de 2017. Mas não deu tempo de pensar muito nisso, porque Nico Rosberg resolveu se aposentar e, com isso, deu a popular bica no castelo de cartas da F1. A Mercedes recorreu a Valtteri Bottas e desfalcou a Williams, que precisava de alguém experiente e chamou Massa novamente. O retorno do que não foi, a história vocês conhecem. 

Mesmo assim, Massa testou o carro da Jaguar em fevereiro de 2017. Um teste privado na Itália, completamente secreto e avaliado pelo piloto como "uma experiência totalmente diferente". “A diferença de potência, dos freios, dos pneus e de downforce exige um estilo diferente de pilotagem. Estou feliz com a experiência e com o que eu aprendi. No geral, foi um dia divertido”, comentou à época.

E Massa tinha uma vida a seguir. Voltou para a F1, mas não foi esquecido. Alejandro Agag chegou a falar que a FE "era uma alternativa real" e que amaria ver Massa em um dos cockpits. Depois, em julho do ano passado, Felipe falou pelo Twitter que a FE estava "crescendo muito" - oportunista, a conta oficial da categoria questionou: "Quando você vem ficar com a gente?". Não havia dúvida de que Massa estava curioso com a FE e que a categoria babava para tê-lo.

Felipe Massa, Gildo Pastor e Alejandro Agag
Venturi

Massa é um sujeito inteligente. Muito inteligente mesmo, daqueles que entende bem o mundo a sua volta e por isso é respeitado de forma singular pelos pares. E ele quer guiar, quer de verdade, não perdeu a paixão e nem parece disposto a diminuir o ritmo tão logo. Desde a criação da FE, nomes como Jenson Button e Mark Webber ficaram disponíveis e decidiram não se aproximar dos bólidos elétricos. Nico Rosberg se aproximou, mas está claro que não deseja guiar carros de corrida competitivamente, ao menos por enquanto. Massa sabe que vai assumir uma lacuna que jamais foi fechada num campeonato que cresce loucamente: a do nome pesado.

É verdade que a FE quer, como Nelsinho Piquet avaliou certa vez, criar suas próprias estrelas. Mas ter um nome como o de Massa é mídia, é atenção, é a prova de que os grandes pilotos estão seguindo a trilha do prestígio deixada chocolate por chocolate ao longo do caminho pelas várias fábricas gigantes que entraram no páreo. 

Massa será um pioneiro e vai ter a chance de aprender. De certa forma, é o primeiro grande piloto da F1 chegando para a quinta temporada - exatamente o momento em que o campeonato deixa para trás sua fase beta, com as trocas de carro e as mudanças de regra anuais para se adaptar ao que via na pista. A Era Romântica fica para trás, a Era Profissional chega com novos e revolucionários carros, baterias duradouras, equipes consolidadas e mais fábricas fortes - além de Porsche e Mercedes que entrarão em 2019. E, além de tudo isso, Felipe Massa. O novo rosto da categoria. 

Antes de seguir, cabe uma explicação: Jacques Villeneuve, campeão da Indy, vencedor das 500 Milhas de Indianápolis e dono da F1 em 1997, participou de algumas provas, mas não pode ser considerado um grande nome de fato, apenas de direito. Com todo o respeito do mundo a Villeneuve, tratava-se da tentativa de retorno de alguém que há anos não participava regularmente de um campeonato.

Massa, na nova vida dele de não precisar seguir a F1 o ano inteiro para cada canto do globo, tem muito a fazer. É a maior autoridade civil do kart, vai participar de corridas pelo mundo quando apetecerem, como já fez na Corrida de Duplas da Stock Car e, claro, vai passar tempo com a família.

Até por esse último quesito a escolha da Venturi é confortável. A montadora é de Mônaco, onde vive Felipe. As viagens para fora da Europa são poucas - na atual temporada, apenas seis. E três destas são para as Américas e uma para o Marrocos, país africano mais próximo da Europa, separado da Espanha apenas por uma faixa do Mar Mediterrâneo. 

É viver a vida de piloto profissional sem os exageros da F1. É ser o novo rosto de uma categoria que triunfa como poucas vezes se viu um campeonato conseguir num espaço tão curto de tempo. Talvez nunca.

Felipe Massa é celebrado pela FE
Fórmula E

A Venturi pode até aparecer como uma escolha duvidosa, afinal a equipe ainda não venceu na FE, nunca terminou um campeonato acima do sexto lugar no Campeonato de Equipes e ocupa o sétimo lugar nesta temporada. Mas a Venturi completa 20 anos de criação neste 2018 e tem plano de crescer nas pistas e fora delas. Contratou Max Biaggi, a lenda do motociclismo, para ser o rosto do aniversário da marca e tem em Edoardo Mortara um piloto experiente e no qual pode se basear para evoluir o carro junto a Massa. Mortara faz uma temporada de altos e baixos, mas promissora para um novato num carro duvidoso. Faria sentido mantê-lo, embora não há indicação nesta direção ainda.

As equipes mais fortes contam com duplas estabelecidas de pilotos ou com um candidato confirmado ao título. Substituir Nicolas Prost na Renault - que será Nissan -, por exemplo, faria Massa ter que se deslocar muito mais, mesmo que a fábrica não seja no Japão, e colocaria o piloto numa disputa imediata com Sébastien Buemi, campeão da FE e extremamente acostumado a tudo que a tecnologia pode render. Mesmo sendo extremamente experiente, Massa ainda vai ser um novato. E o noviciado sempre pesa.

Na Venturi, ele terá a chance de desenvolver um carro, será o capitão de um projeto e terá tudo que precisar. A Venturi quer crescer, a FE precisava de um garoto-propaganda e Massa será tratado a pão de ló como nunca antes na carreira enquanto aproveita as outras situações de sua vida. 

Se o futuro é elétrico e é instigado e desenvolvido pela Fórmula E, então agora Massa tem três anos de contrato para conquistar o futuro. E salvar John Connor se der tempo.