Tradição em conflito com os dias atuais

F1 alegou que grid girls são questionáveis ‘quanto às normais sociais modernas’, mas modelos garantem que eventual assédio não é diferente do que acontece no dia a dia; feminista alerta para caráter de ‘objetificação’ em ambiente em que não são protagonistas

André Avelar, São Paulo

‘Troféu para os pilotos’, ‘mulher-objeto’, ‘pedaço de carne’, ‘ficha rosa’, ‘puta’. Essas são só algumas expressões que as grid girls ouvem com mais raiva desde a última quinta-feira (31) de pessoas favoráveis à decisão do Liberty Media de banir as modelos da F1. Nem assim, elas concordam com a atitude dos novos donos da categoria em escancarar o conflito da tradição com os dias atuais. 

Em comunicado, o grupo que do ano passado pra cá vem tirando o pó da F1 com o olhar para as redes sociais, por exemplo, explicou que a “prática de adotar grid girls não faz parte dos valores da marca, além de ser questionável quanto às normas sociais modernas”. Mulheres do esporte ouvidas pelo GRANDE PREMIUM confirmam a polêmica e se dividem sobre o banimento.  

Entre as grid girls, o principal argumento é de que ninguém as obriga a nada. Mais do que isso, recebem uma boa quantia em dinheiro pelo trabalho que gostam e, no caso da F1, são bem tratadas. Pode parecer pouco, ou deveria ser natural, mas as roupas não marcam o corpo e elas recebem orientação para cuidarem da alimentação e da hidratação durante todo o domingo da corrida, além de segurança. O assédio? Segundo elas, vem apenas por parte do público e não é diferente do que acontece diariamente.

 
Liberty Media alegou 'valores da marca' e decidiu pela retirada das grid girls da F1
AFP

“Como mulher, a gente está sujeita ao assédio em qualquer ambiente. Recebi bem menos cantada na pista do que quando passo em frente a uma obra por exemplo. E na rua não ganho nada para isso”, disse Rebecca Vicentini, de 19 anos, que é grid girl da Stock Car. 

“Sabemos que vamos ouvir uma ou outra coisa da arquibancada, da torcida, mas só. Nunca deixariam colocar a mão na gente. Andamos escoltadas com o pessoal da segurança. Há todo um preparo antes e respeito pelo trabalho de cada uma”, completou Cintia Ferreti, de 26 anos, que trabalhou como grid girl desde 2015 no GP do Brasil.

 

Por outro lado, Roberta Nina, uma das idealizadoras do ‘Dibradoras’, site que exalta os feitos da mulher no esporte, diz que ainda vê a mulher muito “objetificada”. Para a jornalista, deveria haver mais investimento para que a mulher pratique o esporte e não seja apenas um instrumento de apelo sexual. 

“As mulheres estão livres para fazer o que quiserem mas, querendo ou não, é uma forma de objetificar a mulher no esporte. A culpa não é das mulheres, mas de quem as contrata”, disse Roberta. “Claro que ninguém está ali forçada, mas acho que é uma coisa que não tem a menor necessidade e não traz nada de bom. Ainda mais em um lugar onde não há uma mulher correndo.”

Grid girls gostariam de serem ouvidas e garantem que são bem tratadas na F1
AFP
 

 

Quanto ganha uma grid girl?

João Marcos Turnbull, diretor da Dragon Eventos, selecionou mulheres para o tradicional trabalho de grid girl em Interlagos nos últimos três anos. Ele conta que mais de 2.400 se inscrevem como candidatas e as 30 escolhidas são de acordo com a demanda da marca que patrocina a ação. Em geral, opta-se pelas mulheres entre 19 e 26 anos, altas e magras, que passam por processos de seleção em fotos e presenciais. Falar mais de um idioma é desejável. O cachê para o GP do Brasil, em geral, gira em torno de R$ 1.500 em um único dia de trabalho.

Em mais de três décadas no mercado de modelos, Turnbull diz também que viu muita coisa mudar nos eventos com as mulheres e até faz uma sugestão para a Liberty Media:

“Já vi gente em evento abrir a carteira, pegar um cheque e perguntar para a menina quanto ela quer para sair com ele”, disse o empresário, sem citar o evento, mas confirmando que não se tratava da F1. “A Liberty avaliou que agora, com o politicamente correto, a mulher é vista como um ‘pedaço de carne’. Na realidade, acho que a presença da mulher deveria ser respeitada como um todo. Apoiaria também a presença de homens, de casais na pista. A mulher tem uma influência muito grande, por exemplo, na hora da família comprar um carro.”

Grid boy

Principal piloto mulher (movimentos feministas inclusive pedem para que a palavra ‘pilota’ passe a ser adotada regularmente), Bia Figueiredo inovou e não usa grid girl, mas um grid boy em suas corridas na Stock Car. Ela conta que ficou preocupada com a possível extinção da função também nos campeonatos nacionais apesar de compreender o recado que a organização da F1 quer passar.

“Minha primeira reação foi de ficar preocupada. E se tiram meu grid boy? Escolhi ele porque é um cara bem útil, me ajuda na preparação para a corrida, pega água, protege do sol, garante que eu fique ali mais concentrada. Tive essa preocupação na hora, mas entendo que, como negócio, a Liberty quer tirar essa coisa de que mulher só serve para ser grid girl”, disse.

Bia lembra que sofreu preconceitos, sobretudo, no início de carreira, mas nunca um episódio de assédio. Para a piloto, a situação é um pouco diferente porque está de macacão, com o semblante fechado apesar de, nem assim, deixar de “ouvir algumas besteiras”.

“Sou uma feminista porque acho que a mulher tem que ter a liberdade de fazer o que ela quiser. O importante é ela ter essa escolha e nenhuma menina está ali obrigada. Mas sei que o mundo está ganhando esse questionamento. Tem o pessoal mais ligado ao feminismo que, esse sim, acha que é um abuso da mulher. Não concordo completamente, mas entendo a posição”, disse.

Sem grid girls, assim como em toda a temporada, a F1 começa em 25 de março, em Melbourne, com o GP da Austrália. 

Veja também: 'Grid girl não é puta': depoimento de quem trabalhou na F1