É a vez de Enzo na 'Trilha Fittipaldi'

Enzo Fittipaldi é o mais novo membro de um dos mais extensos e importantes clãs do esporte a motor em todo o mundo. Enquanto vê o irmão deslanchar, o jovem de 16 anos começa 2018 de forma arrebatadora por conta própria

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

Aos 16 anos de idade, Enzo Fittipaldi começa a temporada com certa pressão sobre si. Pupilo da Ferrari, numa grande equipe das categorias-satélite - a Prema - e agora veterano em campeonatos de entrada para as principais séries internacionais de automobilismo europeu. O começo de Enzo no campeonato da F4 Italiana foi arrebatador: duas vitórias na rodada tripla de Adra - as primeiras da vida dele em monopostos - e a liderança. Na F4 Alemã, onde disputou somente uma etapa do ano passado e onde também é titular em 2018, andou forte e saiu da estreia com o segundo lugar. Com toda a expectativa de ser um jovem ferrarista e com o sobrenome que carrega, deu o salto de ser um novato nos monopostos para ser uma das referências de um grid.

Em entrevista concedida ao GRANDE PREMIUM, Enzo falou sobre o começo do ano e como é ser o piloto a ser batido numa temporada cheia de novatos, além de expectativas futuras e, claro, questões familiares.

Um ano atrás, já pela Prema, o mais jovem Fittipaldi das pistas teve a oportunidade de aprender na Itália. Novato, fez uma temporada regular e terminou na nona colocação do campeonato. Ainda que sem pódios ou vitórias, foi o segundo melhor estreante. Leonardo Lorandi, que vai voltar a dar as caras no texto em instantes, foi o único que marcou mais pontos. Se em 2017 tinha pilotos mais velhos capitaneando a Prema, a realidade mudou. Agora ele é o capitão do navio e considerado um dos maiores candidatos para o título.

No topo do pódio em Adria
F4 Italiana

"Acho que é normal eu ser favorito com a Prema nesse ano. É meu segundo ano, e já demonstrei para eles nos testes de inverno que eu sempre ficava em primeiro ou segundo. E agora, ganhando duas corridas em Adria, é normal que eu seja o primeiro no time Prema”, disse com exclusividade para o GP*.

Duas vitórias. O começo de Pietro na Itália dificilmente poderia ser mais impressionante. Enzo venceu a primeira e a última corridas da etapa de debute da competição e ainda foi capaz de anotar um terceiro lugar. Pódio triplo, 65 pontos e a liderança.

“Foi um fim de semana muito positivo com duas vitórias e duas poles, e eu estou muito feliz com isso e com a equipe. Também estou muito contente com o trabalho que fizemos com a Academia de Pilotos da Ferrari na virada do ano”, distribuiu elogios.

“Foram minhas primeiras duas vitórias em monopostos, algo que me deixa muito feliz mesmo. Temos que continuar trabalhando agora, porque foi só o início do campeonato. Precisamos trabalhar para ficar sempre lá na frente. Estamos em primeiro na F4 Italiana e em segundo na F4 Alemã”, pontuou.

Também pela Prema, na F4 Alemã, Fittipaldi teve uma estreia menos impressionante, é verdade, mas também muito boa. Em Oschersleben, fez um quarto lugar e dois pódios, com P2 e P3. É o segundo colocado daquele campeonato. O líder na Alemanha é Lirim Zandeli, um competidor que está no terceiro ano na categoria enquanto Enzo só participou de duas etapas. Franco, não se furta em selecionar os maiores rivais em ambas as competições.

“Esse ano na F4 Italiana acho que [o grande rival] será o Lorandi; na F4 Alemã, creio que será o Zendeli. Mas outros pilotos vão estar na frente e brigando. Os campeonatos são muito longos, então a gente não sabe o que vai ser o futuro. Só temos que trabalhar para brigar na frente e ficar com os líderes”, declarou.

Ao selecionar seus rivais, sobretudo na F4 Italiana, onde é mais experiente e maior candidato ao título, Enzo desconversa sobre ser o piloto a ser batido. Volta a lembrar Lorandi - que ganhou a outra das três provas em Adria - e procura marcar a disputa com humildade. Admite, no entanto, que está num caminho muito menos espinhoso para a glória que alguns de seus maiores rivais ainda novatos. Gianluca Petecof, por exemplo.

"Para falar a verdade, não sei se eu sou o piloto a ser batido só por ser o líder do campeonato. Tenho certeza que sempre todos os pilotos vão tentar fazer o melhor possível em todas as corridas. Acho que o Lorandi, por exemplo, sempre vai estar brigando comigo na pista”, lembrou.

“Sendo um piloto com um ano de experiência na F4, já aprendi tudo que um novato tem que aprender ainda no primeiro ano. Tudo de errado que eu fiz ano passado me deixou mais maduro como piloto, mais profissional. 2017 foi um ano para aprender – e eu aprendi muito. Estou muito mais preparado esse ano. É difícil me comparar com um novato”, assegurou.

Enzo (#74) lidera o pelotão com Gianluca Petecof (#5) logo atrás
F4 Italiana

Com relação a Petecof, companheiro de Prema e de Academia de Pilotos da Ferrari, fica a dúvida sobre como é a convivência dos dois. Afinal, Enzo é um pouco mais velho e mais bem visto na temporada por conta da experiência, enquanto Petecof é um jovem de talento notado até por Sebastian Vettel. É a primeira vez que Enzo tem um brasileiro como companheiro. Até o presente momento, tudo corre às mil maravilhas.

“Ter um companheiro de equipe brasileiro é muito legal. O Gianluca é muito gente boa, então fico muito feliz [em tê-lo ao lado]. É muito bom ter outro brasileiro comigo, nós estamos nos dando muito bem. Fico muito feliz com isso.”

O plano de Fittipaldi para 2018 está bem traçado. É não apenas destacar-se e brigar pelo título nas duas F4, mas impressionar o bastante para descolar um espaço na F3 Europeia em 2019.

“Eu espero ter uma temporada muito forte. Quero aprender o máximo possível neste ano para subir para a F3 no ano que vem e já brigar pelo título no primeiro ano. Então o objetivo é preparar o máximo possível para eu chegar lá. Esse ano vai ser muito forte. Vamos com tudo”, motivou-se.

Os irmãos Pietro e Enzo Fittipaldi
Divulgação

Melhor irmão que um piloto pode ter

É verdade que Enzo tem atrás de si um enorme clã de belas carreiras. Seu avô Emerson, desnecessário dizer, é um tricampeão da F1, campeão da Indy e vencedor das 500 Milhas de Indianápolis. Wilson, seu tio-avô e Christian, primo, chegaram à F1 e construíram suas histórias. Christian ainda é destaque no endurance americano, é verdade, mas Enzo não tem idade para ter vivido os grandes momentos da família nos monopostos. O Fittipaldi que mais encanta o jovem é aquele que mais foi possível ver: o irmão mais velho, Pietro.

Enzo não esconde a relação de idolatria que tem com Pietro, cinco anos mais velho e que vê a carreira profissional decolar: vai disputar a temporada da Indy parcialmente, assim como a súper temporada do WEC na classe LMP1. Estará nas 500 Milhas de Indianápolis, por exemplo. Desta feita, surge a questão: o estágio em que a carreira do irmão se encontra mostra para Enzo uma trilha a seguir apesar do começo dos dois ter sido diferente?

 “Sempre segui no caminho do meu irmão, estou sempre olhando para ele. É meu ídolo. Estou sempre aprendendo com ele. Não sei o que vou fazer no futuro… Minha meta agora é a F1, mas um dia eu também quero fazer a Indy e o WEC. Vou sempre seguir meu irmão, ver o que ele faz e vou aprendendo muito com ele. É o melhor irmão que um piloto poderia ter”, se declarou.

Além das duas categorias citadas, Pietro também vai disputar a Super Formula japonesa em 2018. Mesmo com a correria dos dois – e a do mais velho sendo por todo o mundo -, os irmãos conseguem se falar regularmente. E Enzo se anima com a oportunidade de ser espectador convidado nas grandes corridas que Pietro disputará nos próximos meses.

“Estou sempre falando com meu irmão pelo telefone, mas ele é um piloto profissional, está sempre viajando e dificulta o contato. Mesmo assim conseguimos quase todos os dias pelo Whatsapp.  Está com a agenda muito cheia, fico muito feliz por ele”, afirmou.

“Será um ano muito especial, porque ele vai fazer a Indy 500, que é a maior corrida de carro do mundo. Isso vai ser muito legal para ele – e também para mim, que vou poder ir nas corridas", brincou. "Vai ser muito legal."

E assim como o irmão falou ao GRANDE PREMIUM após ser confirmado como piloto da Dale Coyne na Indy, Enzo também garantiu que recebe uma gama de conselhos vindos de Emerson, Christian e de Max Papis – casado com a tia Tatiana há quase 20 anos -, outro tio ex-piloto. “O Chri, o Max e o meu avô estão sempre me mandando mensagens. Falo com eles no telefone, eles me dão dicas antes das corridas – que sempre me ajudam muito. Então, sim, eu estou sempre falando com eles.”

É dificil projetar como será o ano de Enzo apesar do excelente princípio. Mas entre capacidade, equipamento, direcionamento e espelho é difícil duvidar que o jovem possa aprontar mais fins de semana como o de Adria.