Lições para a trilha e para a vida

Embora sejam atrativos para muitos aventureiros, os ralis exigem alguns conhecimentos específicos que vão além da capacidade de pilotagem. Com seus instrumentos e planilhas, a navegação é um ponto extra de dificuldade

Juliana Tesser, de São Paulo

Participar de uma prova de rali pode ser o sonho de muitos aventureiros, mas nem todo mundo consegue entender com facilidade o sistema de navegação. E, tal qual em um encontro, a ‘cantada’ perfeita pode ser vital para o sucesso da empreitada.

Nas provas off-road, a navegação é um ponto fundamental, já que é ela que indica o caminho e aponta os desafios de cada trecho do percurso. Para isso, porém, é necessário entender as informações transmitidas pela organização das disputas, mas elas não são de tão simples acesso quanto aqueles roteiros indicados pelo Waze ou pelo Google Maps.

Ao invés de um único celular, nas provas de rali o navegador precisa de muitas outras coisas, como planilhas, hodômetro, equipamentos e aplicativos.

Entender tudo isso, porém, é um bocado mais difícil. As planilhas, por exemplo, não são exatamente instintivas e exigem um certo conhecimento especifico para que possam ser compreendidas em sua totalidade. 

Sendo assim, surgiu em 2008 um curso que tem como objetivo transmitir os conhecimentos básicos para a participação em ralis de regularidade, modalidade em que os partícipes têm de manter médias horárias pré-estabelecidas ao longo do roteiro. E a parceria entre a WR Brasil e a Mitsubishi Motors tem um instrutor ilustre: Lourival Roldan, campeão de 2017 do Rali Dakar na categoria UTVs.

“O objetivo do curso é transmitir o conhecimento básico sobre provas de regularidade para pessoas com ou sem experiência em rali. Esse é o nosso objetivo maior”, explicou Isac Pinto, diretor da WR, ao GRANDE PREMIUM. “Em média, a gente faz esse curso três vezes por ano. A gente atende, em média, de dez a 15 duplas. A gente atende pouco para poder dar uma atenção maior a eles”, justificou.

Isac conta, também, que o perfil dos participantes é dividido, já que o curso reúne pessoas que quererem se aprimorar ou que tem maiores ambições esportivas.

“Tem alguns participantes que buscam o aperfeiçoamento, melhorar as técnicas, aprender novas técnicas. A outra metade é de pessoas que nunca tiveram contato com o rali, mas querem, porque já viram em televisão, porque já viram em revistas”, contou. 

Embora a planilha possa parecer a parte mais assustadora da navegação, os instrumentos utilizados também não são dos mais simples. A auxiliar administrativa Márcia Sant’ana de Souza participou do curso em 2014 e apontou os instrumentos como os mais difíceis.

Questionada pelo GP* sobre a parte mais difícil do curso que fez em Mogi-Guaçu, Márcia não titubeou: “Com certeza, os equipamentos. Lidar com tempo é planilha é muito difícil”.

As planilhas são um desafio extra para quem quer se aventurar nos ralis
(Foto: Vinícius Ferraz)

A ideia do curso de navegação em rali nasceu há dez anos, fruto da constatação dessa dificuldade das pessoas para liderem com as tecnologias. 

“Eu tive a ideia em 2008, porque foi quando começaram a surgir os equipamentos eletrônicos”, explicou Isac. “Antigamente, era uma coisa simples. E eu via que o pessoal tinha dificuldade em baixar os aplicativos, como usar o smartphone, o tablet. Aí eu pensei em montar o conteúdo de um curso, começando desde a parte básica até o uso de equipamentos”, relatou.

E foi aí que entrou Roldan. Com 34 anos de experiência em ralis e 22 organizando provas da marca dos três diamantes, o campeão do Dakar colocou sua experiência ‘em campo’ para ajudar iniciantes no esporte.

“A minha aula é baseada em toda a experiência que eu tenho, são 34 anos de rali, tanto pelo fato de eu ter sido piloto como navegador, então eu consigo passar para a dupla as dificuldades tanto de pilotagem quanto de navegação”, explicou Lourival ao GP*. “O navegador tem de passar uma ideia mais próxima possível de para onde o piloto tem de virar, então para isso existem várias técnicas”, continuou.

“Eu ensino o básico: ler a planilha, ver o caminho, mas eu reforço muito essa comunicação, porque a tendência natural do navegador é se livrar do abacaxi e passar a informação para o piloto”, comentou. “Então eu ensino a falar do modo adequado, falar alto, falar de forma afirmativa, positiva, tem bastante coisa que é passada”, apontou.

A transmissão da informação é um ponto chave também para o diretor da WR, que vê a análise da planilha como a parte mais difícil.

“A parte mais difícil do rali é você primeiro fazer essa análise, como que você analisa uma planilha de navegação. Outro ponto difícil: como é que você interpreta e passa essa informação para o seu piloto, porque não basta você olhar o desenho, você tem de passar essa informação e de uma forma clara”, falou Isac. “É isso que a gente ensina através do curso. Como é que você passa uma simples imagem, transformar essa imagem em uma palavra que o seu piloto entenda. Esse é o pulo do gato”, resumiu.

O curso, aliás, é divido em duas partes: teórica e prática. Na primeira, os alunos aprendem a interpretar a planilha e os demais instrumentos, enquanto na segunda é hora de entrar no carro e colocar os conhecimentos à prova.

“A gente simula uma prova. O participante do curso vem como se estivesse indo para uma prova, só que, no curso, ele tem o direito de errar. Se ele erra, a gente volta, a gente está ali para acompanhar, mostrar onde foi que ele errou, então é um acompanhamento diário neste dia”, detalhou Isac. 

Na parte prática do curso, os desafios seguem uma ordem crescente, para que os alunos possam ir aplicando passo a passo as teorias aprendidas antes.

Curso de navegação é ministrado por Lourival Roldan
(Foto: Vinícius Ferraz)

“Nas aulas práticas, são quatro voltas no circuito. A cada volta eles vão aplicando uma das técnicas que eu falei na aula. E essas técnicas são cumulativas. Na primeira volta, eles treinam essa comunicação de achar o caminho, ver a dinâmica, o hodômetro, reconhecer uma tulipa, reconhecer um desenho. Depois, você aumenta a dificuldade com o controle do tempo e, depois, a gente muda o circuito, porque eles já estão conhecendo depois de darem duas, três voltas, e aí nós colocamos uma volta com bastante dificuldade, mudança de direção, e aí eles conseguem uma aula bem completa”, contou Lourival. “No intervalo entre uma e outra, eu vou ajudando, vendo como eles fizeram, vendo se teve algum problema, recolocando eles na prova. Com isso, eles conseguem ter um treinamento completo. É muito pouco tempo para a gente passar muita coisa, mas acaba dando frutos, porque a gente vê pessoal que fez o curso chegando no pódio”, indicou.

O curso, porém, é voltado para provas de regularidade, já que as disputas de velocidade demandam outro tipo de conhecimento.

“São coisas distintas. Na parte da cantada, da navegação, até são parecidas, mas os equipamentos são diferentes”, explicou Isac. “O timing de uma cantada para uma prova de regularidade é outro, os ângulos, porque, na prova de velocidade, você tem de passar os ângulos de cada curva, o piloto tem de saber se a curva é fechada, se a curva é aberta. Em uma prova de regularidade, somente a curva já bastaria para o piloto”, continuou.

Embora pareça um tema bastante complexo, Roldan acredita que a navegação não depende de um talento nato, embora seja menos natural do que a pilotagem.

“Pode ser aprendido, pois são técnicas que a gente passa”, declarou Lourival. “O navegador é uma pessoa que tem que conseguir ler com o carro andando. Não é qualquer um que consegue ser navegador. Pilotar é algo mais natural, que muita gente faz, a pessoa já dirige no dia-a-dia, então pilotar é mais fácil. Tem muita coisa para fazer, tem que ficar olhando o tempo, tem que ver o que o navegador está falando, mas, mesmo assim, é mais fácil do que navegar, porque navegar não é uma atividade que as pessoas fazem no dia-a-dia, então exige um esforço maior, exige um nível de concentração maior”, apontou. 

“A gente ensina técnicas de memorização, técnicas de concentração, o momento certo de passar a informação, porque também não adianta você passar a informação com muita antecedência ou em cima da hora de executar, de virar, por exemplo”, ressaltou.

Com mais de três décadas de experiência no mundo off-road, Lourival aposta que os conhecimentos aprendidos para as trilhas podem, facilmente, ser aplicados no dia-a-dia.

“Muitas, muitas dessas coisas que eu aprendi nesses 34 anos de rali podem ser aplicadas no dia-a-dia”, afirmou o navegador. “O próprio relacionamento com o piloto você pode desenvolver no rali, porque você tem de esperar o momento certo para passar a informação, às vezes é uma situação de estresse, ocorreu um erro, que pode ser do navegador, pode ser do piloto e pode ser da planilha, então o navegador tem de pensar naquilo e dizer: ‘Ó, o caminho certo é para lá’, então você desvia o foco do problema para uma solução para o caminho certo”, continuou. 

“A pessoa tem de transformar a cantada dela numa rotina, num hábito, de modo que o piloto, assim que ouve aquela instrução, ele já sabe exatamente o que o navegador está falando, um número que é a velocidade, outro que é a metragem e assim por diante”, indicou. “Então esse é um procedimento que acaba facilitando não só no rali, mas no dia-a-dia, no trabalho, no relacionamento com a família, com os amigos e isso é muito bacana”, concluiu.