'Meu Deus, não acredito'. Difícil mesmo, Senna

Os problemas de câmbio foram brutais, fazendo com que a McLaren se tornasse um mamute sobre rodas. Teve a sorte de não ter mais Nigel Mansell em sua captura. Mas Ayrton Senna enfim venceu o GP do Brasil de 1991

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro
Senna ergue a bandeira do Brasil no pódio em Interlagos 1991
Getty Images, com arte Rodrigo Berton/Grande Premium

Não teve azar e não teve afobamento que impedisse Ayrton Senna de enfim, na oitava tentativa desde que chegou à F1, de receber a bandeira quadriculada como vencedor do GP do Brasil. O bicampeão mundial venceu uma corrida em que soube liderar apesar de enfrentar uma grande adversária na forma da Williams — especialmente Nigel Mansell e outra na dramaticidade absoluta com que aconteceu. Com apenas uma marcha pelas sete últimas voltas, como contou logo após o final da corrida, Senna conseguiu o que mais desejava na F1 desde se tornar campeão mundial: venceu em casa, assim como Emerson Fittipaldi, José Carlos Pace e Nelson Piquet antes dele.

O rendimento de Senna especialmente após a parada nos boxes era claramente abaixo do esperado. O equilíbrio do carro não era tão bom quanto uma Williams que começa o ano com uma cara de que nem a temida McLaren Honda consegue ser mais rápida. E, ao passo que as voltas foram ficando para trás, a decisão por parada única nos boxes custou bastante aos pneus. Conseguir resistir às Williams sem sequer sofrer um ataque direto nas condições que se apresentaram foi sozinho uma vitória particular. Mas isso foi apenas uma parte do que teve de passar.

É verdade que provavelmente se Mansell não tivesse aprontado das suas e rodado sozinho quando se aproximava vorazmente – mesmo após dois pit-stops ruins da Williams , possivelmente não teria como Ayrton segurar o rival inglês e que aponta a grande ameaça ao terceiro título de Senna. É bom que se leve a sério as evoluções tecnológicas da Williams e o motor V10 da Renault. 

Senna passou boa parte do terço final de corrida sem a quarta e a quinta marchas, mas Mansell já havia abandonado quando a primeira, segunda e terceira sumiram. Riccardo Patrese, não tivesse sido tão calmo durante toda a corrida com o foguete que tinha em mãos, teria tido enormes chances de vencer. Mas estava a quase 40s quando Mansell abandonou e, mesmo tirando 6s em algumas voltas, não conseguiu chegar a um Senna obstinado. O GP do Brasil de 1991 certamente é um desses e ficará marcado como tal.

 

"Eu achei que não ia ganhar", admitiu Senna na coletiva pós-corrida. "Mas hoje vai ter que dar", contou ter dito a si mesmo no cockpit. Com uma distância gigantesca, Senna pôde administrar um carro impossível de ser guiado por sete voltas enormes enquanto fazia todas aquelas curvas lentas em sexta marcha. Se o tricampeonato mundial chegar em 1991, será com um ponto dourado em Interlagos, no traçado em sua cidade e que ajudou a desenhar. Nem ele acreditava que vencera, mas vencera. Enfim vencera.

A vitória no Brasil parecia que jamais viria. Em 1984 e 1985, abandonou com problemas; em 1986, foi segundo colocado numa dobradinha brasileira atrás de Piquet; em 1987, apesar de largar em terceiro, também teve problemas. Mas a situação ficou mais cinematográfica após a chegada à McLaren. 

Havia sido pole em 1988, mas teve problemas no câmbio e precisou trocar de carros após a primeira largada ter sido abortada. Embora se recuperasse com louvores, acabou desclassificado pela mudança de bólido em bandeira verde. No ano seguinte, último em Jacarepaguá, novamente Senna fez a pole, mas uma batida na largada acabou estragando sua corrida. Em Interlagos, 1990, uma terceira pole seguida. Ayrton se aproximava da vitória, mas uma tentativa desastrada de passar pelo retardatário Satoru Nakajima jogou a vitória pelos ares.

São duas vitórias em duas corridas, Phoenix e São Paulo, e agora a F1 vai rumar à Europa. Senna tem 20 pontos contra nove de Alain Prost e seis de Patrese e Piquet. É difícil imaginar Ferrari e Benetton incomodando a McLaren, mas a Williams parece ser uma preocupação real. Seu piloto principal, porém, segue zerado. Mansell abandonou nas duas provas, algo que vai precisar mudar irremediavelmente se o Leão, de volta à F1 após um ano sabático, deseja enfim conquistar seu título mundial.

 

Confira como foi o GP do Brasil de 1991:

 

No final das contas, após toda a instabilidade climática do domingo, a maioria do grid preferiu largar com pneus para pista seca. Era a grande dúvida até então, se daria para largar com pista seca ou se a chuva voltaria a assombrar Interlagos. Repassando o grid: Ayrton Senna e Riccardo Patrese saiam na primeira fila, seguidos por Nigel Mansell, Gerhard Berger, Jean Alesi, Alain Prost, Nelson Piquet, Maurício Gugelmin, Stefano Modena e Bertrand Gachot completando as cinco primeiras filas. Roberto Moreno era o 14º.

Enquanto Senna largava muito bem e saltava na frente, Emanuele Pirro já passeava na curva lá atrás com a Dallara. Mas o primeiro abandono mesmo foi de Gabriele Tarquini, que não conseguiu ir longe com problemas na suspensão em sua AGS. 

As Williams vinham tentando se aproximar - Mansell à frente de Patrese -, mas Berger agora amargava a quinta posição, passado por Alesi. Piquet também ganhara uma posição, deixando Prost para trás e mostrando potencial na Benetton para competir com a Ferrari como terceira força do grid ao menos no Brasil.

Na quinta das 72 voltas, era claro que a briga que se desenhava era entre Ayrton e Mansell. Os dois alternavam voltas mais rápidas e fugiam de um pelotão que tinha Patrese em ritmo bem abaixo e também sem que Alesi mostrasse grande ambição ou sequer condições de ir brigar na frente.
 

Nas posições frontais, a briga que se desenhava era pela última colocação a render pontos. Com Piquet em ritmo baixo na tentativa de seguir o que havia feito em Phoenix e não parar nos boxes, Prost roncava o motor V12 ferrarista para tentar alcançar. 

Um pouco mais atrás, Gachot colocava a estreante Jordan no nono lugar, passando Gugelmin. Com dores, o piloto da Benetton foi aos boxes em seguida e abandonou. No warm up da manhã, Gugelmin sofreu queimaduras sérias por conta da explosão do extintor em seu carro, o que acabou tornando insustentável sua participação. 

 

Maurício Gugelmin abandonou cedo o GP do Brasil de 1991
Rainer Schlegelmilch/Getty Images, com arte Rodrigo Berton/Grande Premium

Ao final da volta 11, Mansell e Senna rodavam juntos e estavam separados por apenas 2s3, mas Patrese já ficava 9s2 atrás do campeão vigente. Ayrton ia chegando para alcançar o primeiro retardatário. No S, demorou para passar por Martin Brundle, seu velho rival nas categorias-satélite. Mansell, por sua vez, cruzou rapidamente pela Brabham e diminuiu a diferença para 2s. Os dois passaram Mark Blundell logo em seguida sem grandes problemas, mas cortando a diferença para 1s9.

Depois dos primeiros retardatários, estava claro que Mansell era mais veloz. A diferença era apenas 1s2 na 17ª volta. Iria baixar de 1s duas voltas depois. Sem conseguir deixar Piquet para trás, Prost foi aos boxes para adiantar sua estratégia. Enquanto isso, Ivan Capelli aparecia com a Leyton House parada na pista - problemas de transmissão. Satoru Nakajima havia rodado com a Tyrrell um pouco antes e Stefano Modena abandonou com problemas de câmbio duas voltas depois.

Quando Mansell foi aos boxes, na volta 25, ele e Senna já haviam aberto mais de 20s para Patrese. Só que deu tudo errado na parada da Williams, e Nigel ficou com o carro apagado. Se esperava-se uma parada entre 6s e 7s, Mansell levou 15s. Senna foi no giro seguinte e levou 6s9, ainda voltando na frente de Patrese. Boa situação para Ayrton, que via os retardatários JJ Lehto e Erik Comas disputando ferozmente a posição na sua frente.

Superado em ritmo por Nelson, Berger precisou parar nos boxes. Enquanto isso, Mansell começava a tirar vantagem e fazia a volta mais rápida da prova. Claramente o equilíbrio do time de Frank Williams era bem melhor que o da McLaren. Na 29ª volta, 7s2 era a distância que separava os dois.

Piquet chegou ao 30º giro no terceiro posto, mas em problemas. Patrese, Prost e Alesi, todos de pneus Goodyear, já haviam trocado de pneus e agora eram bem mais rápidos que o tricampeão. Mansell, como na 29, fez a melhor volta da prova e chegava a passos largos para retomar a briga com Senna.

 

Giro 33, e Patrese passou Piquet inapelavelmente. O desgaste do pneu Pirelli da Benetton era alto demais, e Prost se aproximava. Na frente, Mansell novamente passou com a volta mais rápida - Senna responderia sendo 0s5 mais veloz na volta seguinte. Mais um abandono nesta mesma volta foi o de Brundle, com uma Brabham lamentável. 

Só que na 38, Mansell tirou mais de 1s e deixava claro que, desse nada errado, logo estaria na cola de Ayrton. A diferença já era de 4s3. Prost começava a perder em relação ao companheiro Alesi, então voltou aos boxes para mais uma parada. Jean também foi chamado pelos rossos duas voltas depois. Situação ruim para a Ferrari, mas excepcional para Piquet.

Com problemas atrás de retardatários, Senna via sua liderança baixar dos 3s na volta 42. Mansell parecia destinado a assumir a liderança do GP do Brasil. E embora as Ferrari tenham ido aos boxes, o ritmo de Piquet ainda era pior que o da McLaren de Berger - até que não deu mais para segurar o austríaco.

Bons ventos para Senna quando Mansell começou a rodar um pouco mais lento atrás dos retardatários. Assim, a diferença que chegou a ser de 2s9 voltou para 4s2 e depois aumentou para 5s9. Era a volta 46 quando Piquet foi finalmente obrigado a parar para trocar os pneus Pirelli.

Chegando ao 50º giro, além da Minardi de Pierluigi Martini parada na pista após uma rodada, Senna abria mais de 8s para um Mansell com pneus desgastados. Pela primeira vez em muito tempo, Ayrton tinha melhor ritmo que o inglês da Williams. Assim, Mansell foi aos boxes - mais uma vez não foi bem, perdendo cerca de 11s.

Começou a garoar em trechos da pista de Interlagos na volta 52, o que podia beneficiar demais Senna e quem mais tivesse feito apenas uma parada até então. Esperando para decidir, Ayrton virou em 1min23s8 contra 1min20s5 de Mansell. Enquanto isso, Comas encostava na grama com o motor de sua Ligier em chamas.

 

A Ligier de Comas em chamas para no Bico de Pato
Rainer Schlegelmilch/Getty Images, com arte Rodrigo Berton/Grande Premium

Mansell pegou tráfego, então descontou nada na volta seguinte. Senna claramente tinha menor desempenho e um pneu desgastado – e um começo de problema no câmbio -, mas se mantinha na pista. E já começava a sinalizar a chuva um pouco mais forte para a direção de prova. No entanto, Mansell passou na 56 tirando mais de 4s da frente do brasileiro. Na seguinte, mais de 2s. A situação começava a ficar bastante apertada para Ayrton, que perdia a margem para um pit-stop. Sabendo disso, a McLaren guardava os pneus que preparava para o #1.

A 14 voltas do final, a chuva chegou à reta dos boxes. A McLaren tentava pressionar para o final antecipado da corrida, enquanto Mansell já fazia seu déficit cair para 21s. Ao ritmo que cruzava chegar a Ayrton era possível. Ao abrir a 60, Mansell já descontara para 18s9. 

Mas Mansell fez das suas... Rodou sozinho com a Williams. Por muitas vezes o pior inimigo dele mesmo, o Leão encostou o carro. Fim de prova para ele, que saiu agradecendo o público, correndo pela pista. Mansell, inegavelmente, é um showman. Senna agora abrira quase 40s para o novo segundo colocado, Patrese. A vitória se aproximava. 

Com todo o cuidado, Senna nem forçava mais na frente dos retardatários. A Lotus de Mika Häkkinen foi a vítima da vez, porque Ayrton nem tentou escapar. O novato finlandês realmente acompanhava uma McLaren problemática na frente, quando a expectativa era que sumisse. A volta foi lenta demais, porque Patrese tirou quase 4s na 61. Depois mais 3s na 62.

A situação de Senna, que antes parecia extremamente tranquila, começava a parecer preocupante. Depois de tirar quase 13s somadas as voltas 66 e 67, a diferença gigantesca caía para apenas 14s. Enquanto isso, Gachot parava a Jordan com problemas no tanque de combustível.

 

Realmente, Senna tentava se manter com alguma vantagem, mas a diferença depois de terminar o 69º giro era de 9s6. Patrese chegava perigosamente perto. O ritmo do bicampeão era tão mais ou menos que ele seguia bem próximo de Häkkinen. Ao cruzar a 69, menos de 5s4 de diferença. Um problema mais grave que o desgaste de pneus na McLaren de Ayrton passou a ficar, então, muito óbvio. A essa altura, como se saberia depois da corrida, ele já guiava com uma única marcha desde o 66º giro.

Patrese seguiu tirando tempo na volta 70, só que apenas 1s. Fosse no relógio já não daria tempo do veterano passar Senna. Uma volta para o final, Ayrton já começava a comemorar ao redor de Interlagos. No sapatinho, com todo o cuidado do mundo, Senna cruzava Interlagos pela última vez.

Enfim, depois de sete anos de tentativas, dois títulos mundiais se passaram antes de Ayrton Senna conseguir vencer no Brasil. Pela primeira vez na carreira, Ayrton vence um GP do Brasil para o delírio da galera.

Logo em seguida, Ayrton para o carro e grita loucamente no rádio enquanto os fiscais tentam entregar a bandeira brasileira e a torcida começa a berrar que "Dá-lhe Senna! Dá-lhe Senna! Olê, olê, olá". Com o carro parado na reta oposta, Ayrton tentava falar nos boxes enquanto recebia o atendimento do carro médico, aparentemente com algum problema.

Senna venceu a segunda de duas provas no ano, seguido por Patrese e Berger. Prost, Piquet e Alesi também pontuaram.

 

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Publicado por Grande Prêmio em Quinta, 24 de março de 2016
O resultado do GP do Brasil de 1991
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