Equipes seguem mudanças e promovem dança das cadeiras

Praticamente todas as equipes trocaram ao menos um de seus pilotos – o que muda todo o panorama da categoria na nova temporada

Renan Martins Frade, de São Paulo

 

Dizem que, na F1, o maior inimigo é o seu companheiro de equipe – afinal, ele tem o mesmo equipamento que você. Até por isso, a história da categoria máxima do automobilismo é marcada por disputas entre 'colegas de time'. Disputas estas que vão ganhar um capítulo totalmente novo em 2017.

Nesta nova temporada, sete dos dez times - ou seja, 70% - trocaram ao menos um de seus pilotos, justamente em um ano com várias mudanças no regulamento técnico, que impactam diretamente na forma de dirigir. O que será, então, que irá acontecer a partir do GP da Austrália, em Melbourne?

A mudança mais dramática, claro, foi na campeã Mercedes. Saiu o dono do título de 2016, Nico Rosberg, chegou Valteri Bottas, que fará dupla com o tricampeão Lewis Hamilton. Apesar de todas as dúvidas que pairam em relação ao finlandês, algo é esperado do lado do inglês: que ele supere o rival.

 

A verdade é que Bottas nunca teve, até hoje, um carro vencedor. Foram quatro temporada na F1, todas pela Williams, com um quarto lugar no campeonato de 2014 como melhor resultado. Só que há um detalhe interessante aqui: esse retrospecto já é melhor que o de Nico Rosberg pré-Mercedes, que também passou quatro anos na Williams e, nesse período, teve como melhor resultado um sétimo lugar na classificação geral.

No time alemão, Nico teve a liberdade de crescer e superar o companheiro Michael Schumacher enquanto não tinha um carro bom o suficiente para lutar por vitórias. Quando Hamilton chegou, ele viu o companheiro faturar dois títulos – mas soube evoluir na última temporada e finalmente ser o campeão.

Será que Bottas terá cacife para superar o companheiro, como Rosberg teve no começo? E, mais do que isso: será que a Mercedes terá a mesma paciência com o finlandês? A ver.

 

Outra ‘vítima’ da dança das cadeiras promovida por Nico Rosberg foi a Williams. Já fazia parte dos planos dos ingleses mexr na dupla para 2017, mas a intenção era ter Bottas ao lado do novato Lance Stroll. Acabou que a equipe tirou Felipe Massa da aposentadoria, promovendo a união da dupla com a maior diferença de idade este ano.

Até mais do que no caso de Hamilton, é obrigação do brasileiro ser mais rápido do que o canadense, ao menos no começo da temporada. Não que um novato não possa surpreender, mas Stroll ‘apanhou’ do FW40 durante os testes de pré-temporada e o novo regulamento, ao menos em teoria, beneficiaria o estilo de pilotagem de Massa. De qualquer forma, o canadense chega com a tranquilidade que os milhões de dólares do pai, o empresário Lawrence Stroll, pode trazer – além de contar com o piloto do carro #19 como um mentor em potencial, ao invés de um adversário.

A dicotomia entre veterano e novato também será a realidade da McLaren. Fernando Alonso foi mantido no time, com Jenson Button sendo substituído por Stoffel Vandoorne. Campeão da GP2 em 2015, o holandês é uma grande aposta do time inglês. Na única corrida que disputou na F1, no GP do Bahrein substituindo um machucado Alonso, se classificou no grid à frente de Button e ainda marcou um pontinho.

No papel, é claro que o espanhol tem muito mais experiência que o companheiro. Só que Vandoorne chega com arrojo e vontade – algo que pode faltar para Alonso, principalmente no que parece ser mais uma fraca temporada para a McLaren-Honda. Talvez aqui, diferentemente do caso da Williams, o novato se dê melhor que o veterano.

 

Na Force India, além da pintura rosa, a novidade é Esteban Ocon. Parte do programa de desenvolvimento de pilotos da Mercedes, o francês foi colocado por Toto Wolff na esquadra do indiano Vijay Mallya, agora competindo ao lado de Sérgio Pérez. 

Ocon fica com a pressão de superar o companheiro mexicano, que está no time desde 2014. Só assim podrá mostrar que tem credenciais para, no futuro, pilotar uma das 'Flechas de Prata'. 

Outro que está com uma nova casa em 2017 é Kevin Magnussen. Após deixar a Renault, pela qual fez sete pontos no ano passado, ele se juntou a Romain Grosjean na Haas, substituindo o mexicano Esteban Gutiérrez – que passou em branco em 2016.

Depois de uma primeira temporada surpreendente para quem nunca tinha feito um carro de F1, com 29 pontos, os americanos buscam ir além. Este é um objetivo para o qual vão precisar contar com os dois carros, pois, sozinho, Grosjean dificilmente conseguirá ir muito além contra adversários mais rápidos.

Os franceses, aliás, contrataram Nico Hülkenberg para fazer dupla com Jolyon Palmer. Junto com o #27, o alemão traz um grande desafio para o carro amarelo: o de mostrar que ainda tem lenha para queimar na F1. Afinal, o piloto, sempre visto como competente e consistente, nunca conseguiu ir além com os carros medianos que recebeu durante a carreira.

Algo é certo: o R.S.17 não é, ainda, o bólido para dar o primeiro pódio para o piloto. Primeiro carro totalmente desenvolvido na 'Nova Era Renault', o modelo já mostrou nos testes que deverá ficar lá pelo meio do pelotão.

Agora, se Hülkenberg se ver atrás de Palmer, bom... Será difícil ter uma nova chance.

 

Na Sauber, a novidade é Pascal Wehrlein. Outra cria do programa de formação de pilotos da Mercedes, o alemão era o reserva da Merecedes – e, até por isso, era teoricamente o primeiro na linha para substituir Rosberg. Acabou preterido e, graças a Wolff, conseguiu um lugar na Sauber para 2017. Não dá para saber, ainda, se a decisão terá impacto no desempenho do piloto, mas há potencial para dar uma canseira no companheiro Marcus Ericsson. O desafio é conseguir fazer alguma coisa com o fraco carro do time suíço. 

Entre tantas mudanças, a estabilidade pode, de alguma forma, fazer a diferença. A Ferrari manteve a mesma dupla de pilotos, com Kimi Räikkönen e Sebastian Vettel, algo que, somado a um bem nascido SF70H, pode trazer bons resultados. O finlandês parece motivado como há muito não se via, o que é um trunfo para os italianos.

Estabilidade também é a palavra-chave da Red Bull, que manteve Daniel Ricciardo e Max Verstappen. Só que é possível imaginar um australiano pressionado, já que o holandês vem conseguindo chamar muita atenção e conquistando ótimos resultados. Será uma disputa equilibrada, que valerá a pena ficar de olho.

No time junior taurino, a Toro Rosso, é outro lugar que permaneceu tudo igual: Carlos Sainz e Daniil Kvyat continuam na folha de pagamento. O que também não muda é que o russo começa o ano com o peso do mundo nas costas, precisando provar muita coisa depois do troca-troca de acentos com Verstappen, o que jogou a moral e o empenho do piloto na lona. Em 2016, Sainz fez quase o dobro de pontos de pontos do parceiro (46 a 29), que foi beneficiado com um pódio ainda dos tempos de Red Bull. Se o resultado se repetir, bom... Talvez a estabilidade acabe antes do final do ano.