Feitos para voar: carros de 2017 são mesmo muito rápidos

A F1 mudou os carros drasticamente para aumentar a velocidade. Se a expectativa era ver os carros mais velozes da história, terão de esperar um pouco. Mas é o carro mais veloz em ao menos 11 anos

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

 

 

A F1 entendeu que precisava mudar para atrair de volta a atenção perdida nos últimos anos e conseguir trazer os fãs mais jovens, como tinha facilidade de fazer nos áureos tempos. Para isso, mudou drasticamente: especialmente na velocidade. A expectativa era de carros cerca de 5s mais rápidos em 2017. O que se viu na pré-temporada foi que, de fato, a mais importante alteração de regulamento está perto de alcançar o objetivo.

A régua para se basear é, obviamente, a pré-temporada de um ano atrás. Com um modelo técnico feito de tradicional e com os carros mais rápidos que aquele livro de regras poderia oferecer, a melhor volta dos testes coletivos em 2016 foi de 1min22s765. Com todas as mudanças, logo no primeiro ano da nova regulamentação, Kimi Räikkönen conseguiu emplacar 1min18s634. Os números apontam uma diferença que pode não ser de 5s, mas é brutal mesmo assim: 4s131.

A segunda comparação possível mantendo em vista o mesmo traçado, o do Circuito da Catalunha, é de alguns meses depois da pré-temporada de 2016. Na classificação para o GP da Espanha, então em maio, Lewis Hamilton conseguiu melhorar em mais de 0s7 e cravou 1min22s000 como o tempo da pole. Mesmo na melhora, a diferença ainda é uma ribanceira: 3s366. E a tendência é que esta diferença aumente até maio.

Nos últimos meses, porém, o que se criou foi uma grande expectativa além da comparação com 2016 apenas, mas com o lugar dos bólidos de 2017 na história. “Eu acho que a F1 terá em 2017 os carros mais rápidos de todos os tempos”, afirmou o diretor de engenharia da Mercedes, Aldo Costa, numa entrevista concedida à rede de TV americana CNN ainda em fevereiro, antes dos carros irem à pista. Como os monopostos novos andaram apenas numa pista por enquanto, tudo fica restrito ao que foi mostrado. A régua para a comparação histórica precisa ser também com o Circuito da Catalunha. 

 

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Então a F1 acertou os cilindros certos e transformou os novos carros nos mais rápidos da história? Toda a construção narrativa dos últimos meses sobre as mudanças fez com que verdadeiras máquinas voadoras fossem imaginadas. Mas é preciso que a avaliação seja feita friamente e sem colocar os pés pelas mãos. Enquanto o 1min22s000 que assegurou a pole-position de Hamilton em 2016 não foi de fato dos tempos mais rápidos, alguns anos aparecem com voltas muito mais voadoras. Há, no entanto, uma restrição ainda maior para a comparação: a chicane instalada na pista após 2006. Então a comparação precisa ser feita com o que foi visto a partir de 2007.

A melhor volta da pole da história do Circuito da Catalunha, que começou a ser utilizado na F1 em 1991, veio em 2006. Fernando Alonso, a bordo do Renault R26 equipado com motor 2,4 V8, conseguiu anotar 1min14s648: 3s986 mais veloz que o giro guardado por Kimi Räikkönen em Barcelona neste começo deste ano. Só que a comparação é desleal. Na era pós-chicane, então, a melhor volta da pista até o ano passado era o 1min19s995 marcado por Mark Webber em 2010. Isso quer dizer que a pré-temporada de 2017 já tem, por 1s361, a volta mais rápida do Circuito da Catalunha nos últimos dez anos.

As mudanças realizadas no traçado de Barcelona entre 2006 e 2007 limitam a comparação com os carros de 2017 a uma mostra ainda menor. Afirmar que os novos carros são os mais rápidos da história com base apenas nessa comparação seria simplismo demais. Para saber se realmente o Mundial de F1 tem na ninhada 2017 seus mais velozes bólidos, será possível saber apenas quando a comparação começar com pistas que está no calendário a mais tempo e viveram às voltas sobretudo com o começo dos anos 2000.

 

 

Após aplicar a única régua possível em termos práticos para avaliar qual o lugar dos carros de 2017 na história até agora é importante ressaltar que o que definirá o acerto da F1 em suas novas regras não é apenas a velocidade. Os carros são mais largos e longos, tiveram o sistema de suspensão completamente renovado, com asas mais largas e rebaixadas. O peso aumentou, e o difusor mudou de tamanho por conta disso - agora vai até a linha de eixo da roda traseira. Os sidepods são mais largos, as entradas de ar aumentaram e surgiram aletas laterais. A 'Asa T' e a 'barbatana de tubarão' voltaram numa solução aerodinâmica esteticamente duvidosa. O fim do congelamento dos motores também é importante, algo que as fabricantes pleiteam há alguns anos - mas o limite de motores disponíveis por ano para cada carro antes que haja punição cai de cinco para quatro. Por fim, os pneus encomendados junto à Pirelli são mais largos e dão um visual retrô.

Tudo isso feito para o aumento radical de velocidade – que chega acompanhando por um crescimento não menos impressionante do downforce. É exatamente no downforce que está a grande dúvida da temporada: as ultrapassagens serão possíveis ou a força aerodinâmica será tamanha que irá repelir os carros uns dos outros? Há quem trabalhe com as duas hipóteses.

"Não sei por que eles decidiram focar num downforce maior. Tecnicamente, vai tornar quase impossível ultrapassar, porque ninguém será capaz de seguir quem estiver em sua frente. Reclamamos sobre a falta do show na F1, depois vamos na direção oposta", falou Gian Paolo Dallara, dono da Dallara e um dos mais respeitados nomes do esporte a motor internacional no assunto. Mesmo Lewis Hamilton mostrou extrema preocupação. "Precisamos de mais aderência mecânica e menos aerodinâmica saindo da traseira dos carros para que a gente consiga se aproximar e ultrapassar."

Por outro lado, a FIA garante que isso não será problema. "Tudo é baseado na premissa de que teremos um aumento significativo na aderência mecânica. É errado pensar que todo o aumento de velocidade virá do downforce, porque não vai ser. É metade a metade", afirmou o diretor-técnico Charlie Whiting. Na pista, Max Verstappen afirmou que as ultrapassagens "são a mesma coisa do ano passado."

 

O interesse da F1 com tudo isso era deixar a pista mais fantástica, orçamentos menores e, de quebra, aumentar a importância dos pilotos atrás do volante. Esse último tiro, segundo o bicampeão mundial Fernando Alonso, saiu pela culatra. "A importância dos pilotos em porcentagem, com a tecnologia e os pacotes aerodinâmicos que temos agora, unidades de força que temos, caiu. O piloto é ainda menos importante", disse após o começo dos testes coletivos de Barcelona. "Você precisa de muita potência agora com esse nível de arrasto e downforce, precisa de captação e gasto de energia altos porque as retas são mais longas agora que no ano passado. Algumas curvas vão desaparecer, serão planas, então as retas serão ainda mais longas por conta disso."

"Então, se você tinha 20 cv a menos ano passado, você perdia 0s2, 0s3, enquanto nesse ano você perde 0s5. Creio que a importância desses aspectos técnicos do carro são ainda maiores esse ano. O piloto pode fazer milagres de um ponto, mas não pode fazer mais que isso", explicou.

Até agora, no geral, os pilotos estão se mostrando abertos aos novos carros. Mas o respeito não se traduz em reverência. Ao menos por enquanto, os carros de 2017 são animais misteriosos e ainda fascinantes, mas colocados frente à longa história de carros e regulamentos da F1, têm de aguardar seu lugar na ‘fila do pão’.