Ferrari fala menos, faz mais e se candidata a bicho-papão

Ferrari não se reformulou, mas mudou diretor-técnico em ano de novas regras. Chegou a Barcelona sem causar muitas expectativas nas rivais e acabou sendo a sensação. Na Austrália, ordem é mostrar ao mundo que está de volta

Pedro Henrique Marum, de Rio de Janeiro

 

 

 

 

Ano após ano na F1, a temporada começa com gente ao redor do mundo enumerando os motivos pelos quais a Ferrari pode voltar a disputar o título na temporada que se avizinha. Nos últimos nove anos, desde que venceu o Mundial de Construtores em 2008, em nenhum momento a equipe mais tradicional da F1 chegou realmente perto do título. Em tal panorama, 2017 chega como uma brisa de ar fresco. O rendimento da pré-temporada é encorajador. A Ferrari chega a Melbourne querendo começar a responder a uma pergunta que ela própria divide com todo mundo: é capaz de bater a Mercedes?

A construção dos últimos meses não foi de notório brilhantismo. A Ferrari resolveu manter Maurizio Arrivabene na chefia, algo que chegou a ser discutido em meio ao alto grau de decepção de 2016. No geral, segurou a equipe que montou desde a grande revolução promovida ao final da temporada 2014. Há, no entanto, uma ampla diferença no cargo talvez de maior importância em ano de desenvolvimento de novo carro, atingido por regras assustadoramente diferentes. James Allison, por motivos sobretudo familiares, deixou a equipe para se mudar de volta a Londres. Mattia Binotto assumiu a direção-técnica no meio do caminho da concepção da SF70H.

Ninguém na Ferrari esconde que o que foi visto nas duas semanas de pré-temporada é uma grande surpresa. A ideia era recuperar o espaço perdido em relação aos rivais da Red Bull. Se ano passado a equipe italiana começou o falando grosso em título e acabou perdendo até o posto de segunda força, a ideia para o 2017 do livro de regras repaginado era tirar a Red Bull da frente e se aproximar da Mercedes – ao menos publicamente. A Ferrari, incomum para ela, não falou demais, não colocou os pés pelas mãos, nada. Apenas colocou Sebastian Vettel e Kimi Räikkönen na pista para ver no que daria. E deu em papo de título.
 

Tamanho espanto causou furor. Pelo menos no boca a boca, a Red Bull está bem atrás da Ferrari. Claro que mais gente tira proveito disso para jogar o peso para o lado italiano. Há que se destacar novamente Hamilton, que canta o favoritismo da Ferrari em verso e prosa. “Acho que a Ferrari é a favorita, eles estão fazendo um grande trabalho no momento. A Red Bull também apareceu bem; vai ser interessante ver como será essa disputa nos próximos dias, e também quando chegarmos à Austrália”, falou o tricampeão durante os testes de pré-temporada de Barcelona. Depois ainda afirmou que a Ferrari estava blefando e era mais rápida do que sugeria na pista.

Niki Lauda vai num caminho parecido, enquanto Christian Horner não chega a tanto e ainda coloca a Mercedes no favoritismo, mas vê a Ferrari fortalecida em relação à Red Bull – mesmo ponto de vista defendido por Daniel Ricciardo. Já Helmut Marko, o consultor de chefe da academia de pilotos da marca dos energéticos, tem outra ideia: a Ferrari esconde o jogo.

"A Ferrari está muito forte, é essa a grande diferença para o ano passado”, afirmou ao canal de TV austríaco ServusTV. "O que me preocupa um pouco é que conheço Sebastian Vettel muito bem, e ele provocativamente levantou o pé em sua volta mais rápida no fim da grande reta. Qualquer um pode ver. E quando você faz algo assim, sua autoconfiança só aumenta, além do conhecimento do carro", afirmou.

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#ForeverFaster

 

Vettel altera momentos de mais ou menos euforia. Mas o tetracampeão não mente quando diz que entende que, sim, está entre os candidatos ao título da temporada 2017. "Se eu não pensasse assim, nem iria para o grid", disse. Räikkönen, como seria de se esperar, se contém nas declarações – o que não quer dizer que deixa de soltar alguma coisa. Segundo o campeão de 2007, a Ferrari ficou distante do limite durante os testes de Barcelona. “Dava para ter ido mais rápido, mas não era a nossa ideia. É claro que você sempre tenta ir o mais rápido possível de acordo com o que a equipe está fazendo, mas temos muitas coisas que podemos melhorar”, afirmou em entrevista acompanhada pelo GRANDE PRÊMIO.

Mas a declaração mais forte vinda da Ferrari é do presidente Sergio Marchionne. Não que seja uma surpresa, veja bem. Marchionne não tem muitas papas na língua. E vendo a situação extremamente favorável em Barcelona, não se furtou a cravar que a Ferrari vai voltar a ser campeã – embora não saiba quando. E que a marca do Cavallino Rampante precisa “voltar a ser dominante”. Não apenas Marchionne crê que pode bater a Mercedes, mas que pode trucidá-la num futuro mais que próximo.

"Vai acabar [a seca]. Ainda há espaço para corrigir os problemas. A Ferrari precisa voltar a ser imbatível como quando Schumacher estava aqui", comentou ao jornal italiano 'La Repubblica'. Ainda analisou os testes. "O novo carro é confiável, um grande avanço. Estou acompanhando os resultados dos testes de Barcelona, e as coisas estão indo bem. Os pilotos, Vettel e Kimi estão felizes com tudo", falou.

Ainda mais do que usualmente acontece, os olhos do mundo estão voltados para a Ferrari – a real desafiante de uma Mercedes que já considera seu o cinturão da F1.