Hamilton desponta como favorito. Mas Vettel vai incomodar

Sem Nico Rosberg, o inglês da Mercedes naturalmente assume o posto de principal candidato ao título. Só que a Ferrari pode surpreender e colocar o tetra alemão em duelo acirrado com o tricampeão

Evelyn Guimarães, de Curitiba

 

Lewis Hamilton é o homem que mais venceu na F1 nos últimos três anos, empurrado por uma Mercedes quase perfeita. Foi duas vezes campeão neste período e ficou com o vice no ano passado, depois de uma temporada dramática, marcada por acidentes e quebras. Ainda assim, foi o piloto que mais ganhou corridas – foram dez triunfos contra os nove do rival e colega de equipe, Nico Rosberg. 2017, portanto, seria o ano da revanche. E o tom de suas declarações logo após a derrota em Abu Dhabi já davam a entender que o inglês planejava voltar com força total. Só que a esperança da ‘vingança’ lhe foi negada. Como um ato bem pensado e em um golpe único, Rosberg optou pela aposentadoria apenas cinco dias depois do título. Foi mais um coice bem dado do alemão no adversário. 

Só que, sem Rosberg, Hamilton naturalmente se coloca como grande favorito à taça, dada a superioridade da Mercedes, seu talento e o fato de que seu novo companheiro de garagem, Valtteri Bottas, (ainda) não parece pronto para uma batalha em pé de igualdade. A verdade é que, embora diga que vai seguir com a vida agitada fora das pistas, Hamilton sabe que terá de lançar mão do mesmo expediente de desempenho da fase final de 2016, especialmente se as previsões da pré-temporada se confirmarem.

A F1 é caprichosa muitas vezes. Portanto, esse favoritismo todo não pode ser tomado como garantido. Como sempre acontece quando o Mundial vive sob o domínio de uma única marca, as regras mudam. Porém, desta vez, o regulamento foi muito além disso. A ideia por trás de todas as alterações foi, mais do que frear os prateados, tornar a maior das categorias mais difícil. Neste balaio, a esperança é que a hierarquia de forças do grid também dê uma embaralhada. 

 

A Ferrari mostrou força e pode estar mais perto do que se imagina da Mercedes
Ferrari

E a boa notícia vem da Ferrari.  A equipe italiana construiu um carro veloz e que parece ter se adaptado muito bem aos novos pneus da Pirelli. Durante os testes em Barcelona, Sebastian Vettel e Kimi Räikkönen trabalharam em silêncio. Foram poucas as entrevistas e pouquíssimas previsões para 2017. Só que o desempenho apresentado pela nova SF70H na pista catalã impressionou. A dupla foi a mais rápida no combinado dos oitos dias de atividades. Não sofreu com problemas mecânicos ou técnicos. E já é apontada pela própria Mercedes como a rival em potencial. Hamilton, inclusive, acha que Vettel e Räikkönen esconderam o jogo em Montmeló.

Neste cenário, ainda que pese a configuração usada pelos alemães nos treinos e a carga de combustível, a expectativa é de que os dois ferraristas entrem também na lista dos favoritos. E por que, não? A mudança de regulamento já valeria a pena apenas por isso. Mas a verdade é que a esquadra vermelha se preparou com muita antecedência. E, apesar de ter perdido o projetista James Allison, a aposta nos homens da casa parece ter sido acertada. Resta agora saber como o time vai gerenciar sua própria expectativa para o campeonato.

Mesmo assim, já se desenha uma rivalidade que há muito tempo povoa o imaginário dos fãs da F1: um duelo real entre os multicampeões Hamilton e Vettel. Até agora, essa disputa não foi possível, nem nos tempos de McLaren e Red Bull para ambos, nem nos últimos anos, muito em função da instabilidade de performance dos italianos, desde quando Seb virou piloto da Ferrari, bem como a extrema competitividade da Mercedes. 

Os dois também evitam falar em favoritismo e jogam a bola um para o outro neste ponto. Lewis disse que Vettel e a Ferrari estão muito mais rápidos do que aparentam, enquanto o tetracampeão bate na tecla de que o britânico e seu quase infalível carro prata ainda estão no topo. Porém, ambos não escondem o desejo de uma batalha mais acirrada.

E, em última análise, Sebastian se faz o adversário perfeito para Hamilton. Afinal, são os dois maiores vencedores e campeões da década. Forte mentalmente, o alemão tem tudo: velocidade, consistência, inteligência e, agora, um carro que parece capaz de recolocá-lo na luta por vitórias. É um adversário que aguça e tira o que o oponente tem de melhor – característica que casa perfeitamente com o arrojado britânico. Portanto, neste momento, parece óbvio que Seb é quem mais oferece ameaça a Lewis. Resultado de imagem para puma logo png

 

E quem corre por fora?

 

Se Lewis Hamilton e Sebastian Vettel surgem como os principais favoritos, naturalmente os nomes que podem compor essa disputa em um degrau pouco abaixo são dois finlandeses. Valtteri Bottas e Kimi Räikkönen certamente não vão figurar como escudeiros. Vão, de fato, entrar na briga. De temperamentos diferentes, os dois nórdicos também serão elementos-chave para essa guerra que se avizinha entre Mercedes e Ferrari.

É certo dizer que o campeão de 2007 inicia o ano à frente do compatriota. A experiência de Kimi vai contar muito nessa nova fase da F1 e da própria equipe italiana. Não há rixas entre os dois ferraristas, e isso deve ajudar a fortalecer o conjunto italiano. 

Pelos lados da Mercedes, Bottas chegou como o escolhido de Toto Wolff para o lugar de Nico Rosberg e carrega, portanto, uma enorme pressão para, ao menos, pontuar regularmente e disputar pódios. O ex-piloto da Williams sabe que este é um ano decisivo para seu futuro. O acordo com assinado em Brackley tem validade apenas de uma temporada. Então, é o caso de chegar chegando mesmo.

E Valtteri tratou logo de se ambientar na nova equipe. Deixou uma boa primeira impressão em Hamilton no contato inicial dos dois na pré-temporada. E foi, ainda, quem mais andou no W08 durante os testes coletivos.  

 

 

A pimenta austríaca 

 

Mas é claro que falta colocar aí a Red Bull. A equipe austríaca viveu uma pré-temporada discreta. Nunca esteve entre os ponteiros, não impressionou e ainda enfrentou problemas de confiabilidade durante os testes coletivos. Ainda assim, a tetracampeã não pode ficar de fora de nenhuma lista sobre favoritos. Afinal, o poder de evolução da marca dos energéticos é grande, como 2016 provou.

No momento, a esquadra de Christian Horner realmente parece mais atrás de Mercedes e Ferrari – os números das atividades em Barcelona mostram isso – , mas o carro austríaco veio mais ‘limpo’ que a concorrência e ainda tem espaço para mudanças. Só que o fator de desequilíbrio mesmo está na dupla de pilotos, certamente uma das mais fortes do grid.

Daniel Ricciardo atingiu a maturidade enquanto piloto. E já provou que está pronto para disputar título na F1. Só falta, realmente, um carro competitivo. Além disso, mostrou que sabe lidar bem com a pressão de ter um companheiro muito veloz e mais agressivo. Não à toa, o australiano fechou a temporada passada como o ‘melhor do resto’.

Mas o tempero da Red Bull se chama mesmo Max Verstappen. O holandês parte para a primeira temporada completa com os austríacos em 2017, depois de ter provado seu valor no ano passado, ao vencer logo na primeira corrida como titular, além das muitas ultrapassagens arrojadas e do desempenho épico do GP do Brasil. 

E agora, mais experiente, o filho de Jos também se põe como elemento decisivo na batalha pelo campeonato. 

 

E essa Williams, hein?

 

Na primeira entrevista que deu em Barcelona, depois de completar mais de 100 voltas no dia inicial de testes, Felipe Massa afirmou que o retorno à Williams pode também significar uma segunda chance para concluir negócios inacabados na F1. A declaração veio em meio à satisfação com o desempenho do modelo FW40.

De fato, a Williams se mostrou muito forte na Catalunha. Inclusive, completou as atividades à frente da Red Bull, a atual vice-campeã. Ainda que seja um mistério o real desempenho de cada time e o quanto a performance do novato Lance Stroll vai influir nos resultados, uma coisa é certa: o time inglês fez um bom carro, aproveitando todas as possibilidades que o novo regulamento apresentou. E Massa, principalmente, se mostrou bem adaptado à nova era da F1 e, como disse Rob Smedley, perfeitamente casado com as exigências do modelo britânico.

Portanto, assim se revela o cenário para a disputa pelo título de 2017. O novo regulamento provocou o impacto técnico inicialmente imaginado, é bem verdade, mas talvez sua grande sacada esteja mesmo na habilidade de embaralhar as cartas na parte de cima da tabela. E a esperança agora é que isso se torne realidade quando a luz verde, no fim do pit-lane do Albert Park, em Melbourne, acender na próxima sexta-feira.