Mal começou no comando, Liberty Media já faz mudanças

A primeira temporada com o novo dono ainda irá começar, mas já é possível perceber os primeiros sinais do fim da Era Bernie Ecclestone

Renan Martins Frade, de São Paulo

 

“Nós finalmente estamos autorizados a filmar a garagem”. Foi com esta frase, acompanhada de um vídeo de 17 segundos mostrando os boxes da Mercedes no Twitter, que o campeão Nico Rosberg apresentou a nova era da F1. Uma apresentação singela para um momento totalmente novo.

Quem acompanha a F1 mais de perto – ou lê o GP* – sabe que Bernie Ecclestone nunca apostou muito na internet e nas redes sociais. Não que o ex-mandatário não enxergasse as mídias sociais, chegando a, em abril do ano passado, reconhecer a importância dessas redes. No entanto, as regras eram extremamente restritivas, deixando os times apenas a possibilidade de tuitar textos e algumas fotos de divulgação. Vídeos? Só se fossem em ações de promoção do lado de fora dos autódromos.

Isso acabou. O Liberty Media, a nova dona da categoria, flexibilizou essas regras. A partir dos últimos testes de inverno em Barcelona, um novo guia para redes sociais foi colocado em prática, inclusive autorizando vídeos nas redes sociais das equipes e pilotos. O resultado foi uma explosão de conteúdos de um período que, até então, ficava distante dos fãs. Foram feitos registros de voltas rápidas, movimentações nos pits, treinamentos e dos momentos de descontração entre mecânicos e pilotos.

Até mesmo a própria F1, por meio de seus canais oficiais, trouxe mais conteúdo multimídia dos testes.

 

 

Não é possível, ainda, se medir os ganhos dessa nova atitude – a Ferrari, por exemplo, continua estacionada no mesmo número de fãs no Facebook, enquanto a página oficial da categoria teve um crescimento de quase 100 mil pessoas em cerca de dois meses. Porém, os resultados concretos não são, definitivamente, para agora. “As ações feitas em redes sociais têm como objetivo estabelecer relações com o público. Tais relações são mantidas e nutridas para que ali se criem laços a longo prazo. É quase uma relação de namoro. Você não pede ninguém em casamento na primeira noite”, explica Helena Chamma, coordenadora de redes sociais da agência Ideal H+K Strategies e especialista no assunto. “É preciso conquistar, ser apresentado aos amigos, à família, gerar confiança para então ser chamado de fã ou embaixador”.

É possível que o Liberty Media comece a enfrentar resistência das emissoras que possuem os direitos de transmissão da F1, acreditando que o conteúdo dos times vão, de alguma forma, competir com o deles – o que era, diga-se, uma das preocupações de Bernie. Por outro lado, o discurso contra este argumento já está na ponta da língua. “Uma emissora de TV nunca teria acesso ao que estamos mostrando”, disse Christian Horner, o chefe da Red Bull Racing, em recente entrevista para a 'Austosport'. “Um precisa do outro para se complementar, porque nós nunca iremos filmar algo na pista”.

O discurso de Horner complementa o de Helena, que usa como exemplo os clubes de futebol brasileiros. “As redes sociais do time funcionam como um boletim diário de notícias para o torcedor, fazendo com que eles se sintam parte da agremiação, o que gera proximidade e, consequentemente, fidelidade ao clube”.

Aliás, é provável que os taurinos sejam os principais beneficiados pela nova era. A Red Bull tem histórico de usar a internet de forma competente em outros esportes e, 'burlando' a proibição que estava em voga na categoria máxima do automobilismo, chegou a produzir diversos vídeos com os carros da F1. O mais famoso, claro, foi aquele nas areias de Austin, gravado antes do autódromo do Texas ser totalmente construído.  

“Eles já conhecem o público, sabem como conversar e criar ações que ativam e fidelizam. Isso pode não influenciar diretamente nos resultados, mas geram engajamento, que gera visibilidade e a consequência disso geralmente é mais investimento”, explica Helena. 

 

 

Equipes mais tradicionais, como Ferrari e McLaren, também podem sair ganhando. Iniciativas em redes sociais dão mais espaço para os patrocinadores, algo importantíssimo no automobilismo de alto nível atual – principalmente para o time britânico, que não fecha um patrocínio máster desde que perdeu a operadora Vodafone, ao final da temporada de 2013.  “A vantagem dessas marcas é que são carregadas de tradição. Por um tempo, filhos e netos de amantes da história dessas equipes ainda vão levar a paixão, mas é importante que eles entendam que as gerações que veem vindo são super conectadas. É preciso se renovar para não virar um ‘lembra quando tinha a Ferrari?’”.

As coisas também estão se acertando para os pilotos, claro. Lewis Hamilton, defensor de longa data das redes sociais e que chegou a se meter em encrencas por conta de postagens no Snapchat, foi um dos mais ativos nos testes de inverno, alternando postagens com trabalho na pista, vida pessoal, bastidores, baladas e o jogo entre Barcelona e PSG. Não à toa, o inglês aumentou a base de seguidores no Instagram em cerca de 200 mil de pessoas de janeiro até agora.

Fica, no entanto uma dúvida. Personalidades mais extrovertidas e que sabem trabalhar muito bem o marketing pessoal atraem mais fãs nas redes sociais. Com a liberação de conteúdo da categoria nessas mesmas redes, crescerá também a presença de patrocinadores entre nas postagens. Será que, na nova Era Liberty Media, passaremos também a ver pilotos sendo contratados ou demitidos com base no número de ‘fãs virtuais’?

“Hamilton sabe o que faz nas redes sociais. Ele cativa o público com publicações que mostram seus treinos (mostrando dedicação e força de vontade), suas conquistas (vencedor), faz homenagens aos amigos (fidelidade) e ídolos (respeito), destaca problemas sociais que afetam o mundo (solidariedade) e mostra seu lado mais humano”, explica Helena Chamma. “Não estou dizendo que ele não é assim, mas mostrar tudo isso é muito inteligente. As pessoas se identificam e querem ver sempre mais. Se uma equipe tiver que escolher entre ele e um piloto com as mesmas qualidades técnicas, mas sem carisma, certamente ele ganha porque gera mais publicidade”. 

 

 

Ok, a abertura das redes sociais pode mudar o panorama esportivo, ampliando o público, trazendo mais patrocínios e dando destaque para pilotos que sabem utilizar, de forma inteligente, a internet. Porém, este será o único impacto da Liberty Media? Claro que não.

Esportivamente falando, os americanos pouco se meteram – até agora. Em parte porque a categoria está passando por uma grande mudança técnica, com introdução de nova aerodinâmica e pneus. Mudar algo previamente definido ou trazer outras novidades poderia bagunçar as coisas. Chase Carey, o novo CEO da F1, estará de olho no que irá rolar na Austrália e nos primeiros GPs de 2017 para, se for o caso, promover alguma mudança mais significativa no esporte.

“De olho”, claro, é até força de expressão: Ross Brawn, com um grande histórico no automobilismo, foi escolhido pelo Liberty Media como o diretor esportivo da F1. É dele, em comum acordo com os investidores, de quem partirá mudanças do tipo.  

Até lá, as orelhas de Carey e Brawn continuarão vermelhas. Praticamente todos os lados do circo já se pronunciaram na imprensa, pedindo ou exigindo algo. Christian Horner, por exemplo, já disse que um novo ano dominado pela Mercedes não seria bom para os americanos, enquanto a Renault pede mais protagonismo para as montadoras que investem na categoria e Hamilton reclamou novamente dos roncos dos motores V6 turbo.

“Acho que agora os novos donos estão mais focados no que a F1 deve ser em termos de entretenimento, em termos de espetáculo mesmo. Eles parecem estar bastante abertos a novas ideias, para tornar o esporte mais acessível”, revelou Horner em entrevista acompanhada pelo GRANDE PRÊMIO em Barcelona.

 

 

“Eu espero que o Liberty Media e Chase Carey, em particular, tenham uma compreensão muito clara do fato de que o lado do entretenimento tem de voltar a ser levado a sério”, comentou o presidente da Ferrari, Sergio Marchionne, também em fevereiro “Não podemos continuar levando a sério um esporte que viu sua audiência cair por uma série de razões. Este é o trabalho que precisa ser feito”.

Entre tantas dúvidas, os novos donos já deram algumas indicações do que irá acontecer. Além do foco no entretenimento, algo relacionado com a própria história da empresa, já foi dito que o calendário continuará com GPs tradicionais. "Há sempre circuitos que entram e outros que saem. É muito negativo quando saem alguns dos circuitos tradicionais do oeste da Europa, que estão no coração dos fãs, como a Alemanha. Mas há um processo aberto para trazê-los de volta e já acrescentamos Paul Ricard, na França, onde não estamos há anos”, comentou Greg Maffei, diretor-executivo do Liberty Media.

Inclusive, Maffei já gerou a primeira grande polêmica. Ao criticar o legado de Ecclestone, o executivo afirmou que o ex-mandatário deixou GPs sem tradição e com foco apenas financeiro, como o do Azerbaijão – o que irritou os promotores locais.

Falando em foco financeiro, este é realmente o vespeiro no qual, uma hora ou outra, os americanos terão que se meter. Os times, principalmente os menores, exigem um teto financeiro e uma divisão mais igualitária das receitas. Além disso, o próprio Liberty Media considera reduzir a premiação anual da Ferrari, que recebe um valor a mais que as outras por ser o única que participa do certame desde 1950.

Tudo isso tem impacto direto no chamado Pacto de Concórdia, o acordo entre as equipes e a FIA para regulamentar diversas coisas, inclusive a divisão dos direitos comerciais. A última versão foi assinada em 2013, com vencimento em dezembro de 2020 – um período que pode parecer longo quando vemos que ainda estamos em 2017, mas que se torna um prazo apertado quando lembramos que os norte-americanos ainda não possuem o mesmo nível de poder e controle que Bernie Ecclestone tinha nas últimas sete vezes que o pacto foi assinado.

Ao final de tudo, apenas uma coisa é certa: 2017 será pouco para definir as transformações da nova era da F1.