Mais maduro, Márquez é o homem a ser batido

Vencedor de três dos últimos quatro campeonatos, Marc Márquez tem muito mais do que um bom retrospecto: está mais experiente, confiante e tem nas mãos uma moto competitiva

Vinícius Piva, de São Paulo

 

Em 2017, Marc Márquez vai para a quinta temporada na MotoGP em busca de seu quarto título mundial na categoria. Nada mal para um jovem de 24 anos de idade. O espanhol mais parece um veterano pelo respeito conquistado entre seus pares e todos do paddock do Mundial de Motovelocidade. Não apenas por seu notável talento sobre duas rodas, mas também pelos números impressionantes que acumula até aqui. São cinco títulos mundiais, dos quais um na extinta 125cc (2010), outro na Moto2 (2012) e três na MotoGP (2013, 2014 e 2016). Só na MotoGP são 51 pódios, sendo 29 vitórias, 15 segundos lugares e sete terceiros. 

Por todo esse retrospecto é mais do que plausível apontá-lo como fortíssimo candidato ao título nesta temporada. Ok, o passado é um bom indicativo, mas sem motivação não se chega a lugar algum. E isso Márquez parece ter de sobra. Quase sempre com um sorriso no rosto, o #93 parece pronto em todos os aspectos e bastante animado para defender seu troféu. “Nós viemos para esta temporada melhor do que na temporada passada, mas isso não significa que o resultado será melhor. O que é verdade é que temos nos preparado bem. Fisicamente estou em 100% e mentalmente também estou muito motivado, como sempre, para tentar lutar pelo título por mais um ano”, afirma o representante da Honda. 

A pré-temporada de Márquez teve seus altos e baixos, mas, em linhas gerais, pareceu bastante positiva. Foram 685 voltas completadas em 11 dias de atividades em Valência, Sepang, Phillip Island e Catar - sem contar um teste privado em Jerez no qual caiu e acabou deslocando o ombro direito. O #93 liderou os trabalhos apenas no dia 1 em Phillip Island. Seu pior desempenho foi também no dia 1, só que na última bateria de testes, no Catar, quando ocupou a modesta 12ª colocação. 

No geral, mesmo não aparecendo no alto da tabela de tempos com tanta frequência, chamou a atenção por sempre ser competitivo e conseguir um ritmo de corrida satisfatório. E em muitos momentos também conseguiu boas voltas lançadas. Valentino Rossi, da Yamaha, chegou a dizer durante a sessão da Austrália que Márquez era o mais rápido dentre todos os competidores e estava escondendo o jogo, mas foi prontamente rebatido. “Não faço jogos. Se eu estivesse pronto, não faria 107 voltas. Minhas mãos estão doloridas!”, falou à época. 

O titular da Honda demonstrou preocupação e certa insatisfação em alguns dias de testes, é verdade, sobretudo com os problemas de aceleração da RC213V e na relação entre a eletrônica e o motor, mas nunca deixou se abater e, sempre que possível, fez questão de elogiar o progresso alcançado pelo time com o passar dos dias das atividades preparatórias. Foi essa a tônica do balanço de sua pré-temporada. 

 

Marc Márquez vai defender sua coroa pela quarta vez na MotoGP
(Foto: Repsol)

 

“Do ponto de vista técnico, sempre quero mais, tudo nunca é perfeito e sempre queremos ser melhores. Vendo como éramos quando começamos a pré-temporada, acho que alcançamos um nível ótimo para lutar pelo pódio das primeiras corridas”, comentou. E admitiu os avanços da moto quando comparadas a primeira sessão em Valência com a última, no Catar. “Mudou muito e de formas diferentes, sobretudo trabalhamos muito na eletrônica, porque o motor é diferente este ano e tivemos que adaptar muitas coisas. Também trabalhamos duro para ter uma base sólida para todos os circuitos, porque em um fim de semana de corrida não temos muito tempo para testar”, acrescentou.

Não é exagero atribuir parte de seus questionamentos da RC213V ao desempenho visto das motos da Yamaha, que foram muito bem nos testes, principalmente com o recém-chegado ao time Maverick Viñales, que foi o mais veloz nos tempos combinados de todas as sessões. Embora se mostre confiante e motivado, Márquez tem consciência que, mais uma vez, terá uma dura batalha com a principal rival da Honda, assim como foi nos últimos anos. E isso, certamente, traz algum tipo de preocupação. Fato é que Márquez conhece seu potencial, sabe que terá uma moto veloz e confiável nas mãos, mas não desliga o sinal de alerta em relação aos rivais porque tem um desejo transbordante de vencer. Seu nível de competitividade é altíssimo.

Para levar para casa o quarto título na MotoGP, Márquez sabe que terá de superar ao menos quatro fortes concorrentes. E ele sabe bem quem são. Indagado sobre quais serão seus principais rivais em 2017, não titubeou e colocou Viñales, Rossi e Dani Pedrosa como os grandes adversários, segundo ele, pelo que foi apresentado pelo trio nas sessões de pré-temporada. E não descartou o poderio de Jorge Lorenzo, mesmo na Ducati, que deve ser a terceira força do Mundial.    

Qual será o Marc Márquez em 2017 para fazer frente a esses rivais? Ele mesmo responde: “Como eu sempre digo, depende de cada situação. Se estou pronto, darei 100%, se não, tentarei lidar com as coisas da melhor maneira possível. Uma das lições que aprendi em 2015 e usei em 2016 é a consistência, embora haja momentos na temporada em que você tem que assumir um pouco mais de risco”, encerrou, não escondendo seu lado atrevido.

Em quatro temporadas na MotoGP, Márquez demonstrou ter um apetite incontrolável por vitórias, títulos, recordes, e tudo isso reunido o faz naturalmente um forte candidato à taça. Sem falar na maturidade alcançada com as lições aprendidas dentro e fora das pistas - como no entrevero com Valentino Rossi, em 2015. Motivado e com uma moto competitiva é difícil conter o ímpeto do #93. Hoje, é o homem a ser batido na MotoGP. No fundo, ele sabe bem disso, mas não é elegante sair dizendo isso por aí.

 

Maverick Viñales promete dificultar a vida de Marc Márquez em 2017
(Foto: Divulgação/MotoGP)