Rossi enfrenta nova batalha 'caseira'

Maverick Viñales chega à Yamaha disposto a superar Valentino Rossi, mas terá pela frente um adversário duríssimo. Italiano teve cinco companheiros na MotoGP e só um foi capaz de deixá-lo para trás

Vinícius Piva, de São Paulo

Em 2017, Valentino Rossi fará sua 17ª temporada na principal classe do Mundial de Motovelocidade em busca do seu tão sonhado décimo título. Aos 38 anos, Rossi parece bastante motivado para alcançar seu objetivo, mas terá pela frente um novo desafio. Antes de medir forças com a sempre competente Honda de Marc Márquez e Dani Pedrosa — como tem sido a tônica nos últimos anos —, o experiente piloto italiano terá pela frente um novo adversário dentro dos boxes da Yamaha: Maverick Viñales. 

O jovem e talentoso espanhol é a aposta da marca dos três diapasões para substituir Jorge Lorenzo, que fez as malas e se mudou para a Ducati. É o nome escolhido pelo time para o presente e para o futuro do time. Viñales, de apenas 22 anos, vem de duas ótimas temporadas pela Suzuki. Em 2015, somou pontos em 16 das 18 corridas do campeonato (terminou na 12ª colocação) e levou o prêmio de novato do ano. O ano seguinte foi ainda melhor. Conquistou a primeira vitória na MotoGP, na Inglaterra, e subiu ao pódio em outras três oportunidades: França, Japão e Austrália.

Mesmo que tenha muito a aprender com o “Doutor”, é claro que o #25 vai querer mostrar serviço e conquistar seu espaço na Yamaha. Nesse contexto, bater a lenda Rossi é, por si só, um belo cartão de visitas. E, ao menos nos testes de pré-temporada, conseguiu. Mostrou velocidade ao terminar as três sessões oficiais, na Malásia, na Austrália e no Catar, com o melhor tempo. Porém, Viñales não deve esperar vida fácil no duelo franco com Rossi. O histórico de Valentino frente a seus companheiros de equipe é amplamente favorável ao italiano. Dos cinco pilotos que dividiram os boxes com Rossi, tanto em Honda, Yamaha e Ducati, apenas um conseguiu, em alguns momentos, superá-lo. Seu nome é Jorge Lorenzo. Aliás, esse seria o principal motivo para o eneacampeão ter um relacionamento conturbado com #99?

Jorge Lorenzo foi o único companheiro de equipe que derrotou Rossi
(Foto: Yamaha)

 

Respeitável currículo

 

Valentino Rossi subiu para a principal classe do Mundial de Motovelocidade em 2000, quando ainda era 500cc, e correu sozinho na equipe Gresini, o que não permite fazer qualquer tipo de comparação. Seu primeiro companheiro de equipe foi o japonês Tohru Ukawa, em 2002, na Honda, quando a categoria passou de 500cc para 990cc e se tornou a MotoGP. O piloto de testes Ukawa até conseguiu algum prestígio, mas não foi páreo para desafiar Rossi dentro da pista. Quando esteve lado a lado do #46, o japonês conquistou uma vitória na temporada, na África do Sul (a única na carreira), e subiu ao pódio em nove oportunidades. Pela constância, terminou o ano em terceiro e viu o rival somar significativas 11 vitórias, 15 pódios e terminar o ano como campeão legítimo. 

No ano seguinte, Ukawa cedeu seu lugar ao estadunidense Nicky Hayden. Novo passeio de Rossi, que conquistou mais um título na carreira. Foram nove vitórias do italiano e 16 pódios, enquanto Hayden conseguiu somente dois pódios e terminou em quinto lugar no campeonato. A supremacia de Rossi não abalou o #69, hoje piloto do Mundial de Superbike. No ano passado, quando substituiu o lesionado Pedrosa em duas provas da MotoGP, ele teceu algumas palavras elogiosas sobre o multicampeão: “Acho que o que é ótimo nele é que, nós fomos companheiros de equipe em 2003 e aí muitos anos depois, e ele é o mesmo cara. Com todos os títulos e todas as vitórias, a coisa que mais impressiona, claro, sei que ele é talentoso, mas é a paixão dele. Acho que compartilho isso com ele”, comentou.

Vindo de três títulos seguidos, Rossi resolveu trocar a Honda pela Yamaha em 2004 e encontrou Carlos Checa nos boxes do time azul nipônico. E não deu a menor chance ao espanhol. Foi um verdadeiro atropelo. O #46 foi campeão com autoridade ao conseguir nove vitórias e 11 pódios. Checa subiu ao pódio somente uma vez, no GP da França, terceira etapa do Mundial, quando terminou na segunda colocação. E mais nada. Encerrou o ano na modesta sétima colocação.

Em 2005, foi a vez de outro americano, Colin Edwards, tentar fazer frente ao então tetracampeão Valentino Rossi. O #5 permaneceu ao lado de Rossi até 2007 e foi mais um a ser ofuscado diante do domínio do italiano no Mundial. Sim, nas três temporadas. Rossi foi campeão (2005), vice-campeão (2006) e terceiro colocado (2007), e seu companheiro de Yamaha foi quarto, sétimo e nono, respectivamente. Edwards contabilizou seis pódios, nenhum deles no lugar mais alto. Já Rossi foi ao pódio 34 vezes, das quais 20 em primeiro lugar.   

 

Nicky Hayden foi batido por Valentino Rossi em duas equipes diferentes
(Foto: Ducati)

 

Lorenzo quebra a hegemonia

 

Jorge Lorenzo chegou à Yamaha e começou a incomodar. No primeiro ciclo da parceria, que durou três anos, Rossi levou a melhor nos dois primeiros. Em 2008, foram 16 pódios, sendo nove vitórias, desempenho que lhe garantiu mais um título mundial. Lorenzo terminou em quarto, com um triunfo e seis pódios. No ano seguinte, Lorenzo deu um calor no italiano ao triunfar em quatro oportunidades e contabilizar 12 pódios. Rossi foi além: seis vitórias e 13 pódios, ficando com mais um caneco e deixando o companheiro com o vice. O ano de 2010 marcou a virada e, pela primeira vez desde a estreia de Valentino Rossi na MotoGP, um companheiro de equipe foi capaz de superá-lo. Deve-se recordar que em razão de uma lesão — uma fratura exposta na tíbia da perna direita —, Rossi não largou em três GPs. Mesmo assim, Lorenzo foi dominante e venceu nove corridas, com 16 pódios. Valentino faturou dois GPs e chegou ao pódio em dez oportunidades.  

Com o nome feito na Yamaha e um rival de tirar o sono bem ali do lado, Rossi aceitou o desafio de agitar a Ducati e mudou de ares. O velho conhecido Nicky Hayden seria seu parceiro na esquadra italiana. Em dois anos de parceria a dupla conseguiu quatro pódios. Em 2011, foi um para cada piloto. Hayden terminou em terceiro na Espanha e Rossi também foi terceiro, só que na França, duas provas depois. Em 2012, Hayden passou em branco e Rossi conseguiu dois segundos, novamente na França e em San Marino.

Decidido a voltar a vencer, Rossi retornou à Yamaha e se reencontrou com Jorge Lorenzo, o único piloto a batê-lo dentro do mesmo time. E o espanhol dominou as ações em 2013, somando oito vitórias contra apenas uma do #46. No ano seguinte houve um equilíbrio, com duas vitórias para cada lado, mas Rossi conseguiu dois pódios a mais e ficou com o vice-campeonato. Em 2015, deu Lorenzo mais uma vez. Ficou com o título ao vencer sete corridas no ano, contra quatro do veterano. E, por fim, no ano passado, Rossi terminou o campeonato na frente, embora tenha vencido duas vezes e Lorenzo, quatro.

O confronto interno da Yamaha este ano promete. O experiente Rossi tem a seu favor um retrospecto bastante positivo, mas terá pela frente um jovem Viñales no mínimo empolgado com o excelente desempenho na pré-temporada e disposto a escrever seu nome no seleto hall de campeões. Será um capítulo à parte na promissora temporada 2017.

 

Maverick Viñales vai tentar repetir Jorge Lorenzo e bater Valentino Rossi
(Foto: Yamaha)