A matriarca

Janet Guthrie passou por muitos momentos que não deveria ter vivido durante os anos como pilota profissional, mas desbravou as 500 Milhas de Indianápolis. E fez isso enquanto conseguia bons resultados

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

A primeira edição das 500 Milhas de Indianápolis aconteceu em 1911, é verdade, mas a participação das mulheres foi suprimida na prova durante décadas. Inclusive jornalistas eram barradas de trabalhar na área dos pits até o começo dos anos 1970. Enquanto as barreiras foram se abrindo, Janet Guthrie aproveitou para, em 1977, se tornar a primeira pilota a desbravar o Clube do Bolinha e se classificar para o grid de largada da prova.

Não que uma mulher não tivesse vencido a corrida antes, mas precisava ter muito, mas muito dinheiro para que fosse aceita no excludente mundo do Brickyard. Em 1929, Maude A. Yagle era a proprietária do carro do vencedor daquele ano, Ray Keech. É até hoje a única dona de equipe vencedora em Indy.

Em 1976, embora as barreiras parecessem ainda intransponíveis, uma pilota com história atrás do volante talvez pudesse enfim entrar no território minado estabelecido. Guthrie era pilota profissional há quatro anos - e amadora desde uma década antes -, disputando e mostrando talento nas categorias sancionadas pela Sports Car Club of America. Janet levou um carro aos primeiros treinos no IMS, mas não chegou a fazer uma tentativa de se classificar.

Mas ela teria afazeres importantes em 1976 - só que na Nascar. Participou de cinco corridas daquela temporada. A primeira delas, as 400 Milhas de Charlotte, já a colocaram como a primeira pilota na categoria. E ainda antes de competir em 1977 em Indianápolis, também foi pioneira com os carros da Nascar nas 500 Milhas de Daytona. Não apenas participou, mas terminou com o 12º lugar após um problema no motor. Ganhou o prêmio de Melhor Novata da prova.

Em maio, regressou ao IMS. Com um motor Offy empurrando um chassi Lightining, fez história. Conseguiu colocar seu carro entre os 33 permitidos a largar na 61ª edição da Indy 500. Saiu na 29ª posição. E, como não deixaria de ser, incomodou aqueles favoráveis ao status quo.

Janet quebrou barreiras
LAT

Durante o pole day, uma grande faixa de encorajamento estava colocada na reta dos pits. "Janet, consiga essa pole", dizia. A faixa, porém, se transformou num pesadelo quando alguém a retirou forçadamente e desenhou uma genitália masculina. Um dos episódios mais absolutamente lamentáveis da centenária história das 500 Milhas de Indianápolis.

"Toda minha equipe já tinha vivido aquele tipo de recepção em 1976. Durante o ano eu ouvi muito daquilo nas corridas da Nascar também. Então, em 77, quando eu vi a faixa, o repórter me perguntou se me incomodava. Eu disse que não, que era problema do autódromo e não meu. Que mentira", relembrou Guthrie em entrevista cedida à ESPN americana há poucos anos. Na corrida, foi oficialmente a 26ª colocada, abandonando após apenas 18 giros por conta de um problema na caixa de câmbio.

No ano seguinte, Janet tinha um nome construído. A engenheira tornada pilota agora guiava um chassi da Wildcat empurrado por motores DGS - e se classificou na 15ª posição. Com um pulso fraturado - algo que só revelaria depois da corrida -, Janet chegou na nona posição. Atrás dela, vencedores da prova como o campeão mundial de F1 Mario Andretti, Rick Mears e Johnny Rutherford.

A pilota ainda se classificaria de novo, uma última vez, em 1979, mas acabou não conseguindo em 1980, quando tinha um equipamento totalmente defasado em mãos. Aliás, tudo que Janet fez em Indianápolis e nas 33 corridas em que participou entre 1976 e 1980 na Nascar foi com equipamentos, na melhor das hipóteses, de segunda linha. 

O Lightning Offy que empurrou Janet em 1977
AACA Museum

É verdade que o automobilismo não teve sua face excludente completamente modificada pelas temporadas de Janet aos volantes de monopostos e stock cars - mas teve mudanças que ficariam marcadas para sempre. De lá para cá, outras nove pilotas conseguiram se classificar em Indy. Três delas, inclusive, saíram de suas estreias como Novatas do Ano: as americanas Lyn St. James e Danica Patrick, bem como a suíça Simona de Silvestro. Desiré Wilson, Sarah Fisher, Milka Duno, a brasileira Bia Figueiredo, Pippa Mann e Katherine Legge são as seis outras pilotas a largar. Sarah e Lyn, com nove participações, são as recordistas, mas todas elas largaram pelo menos duas vezes.

Danica conseguiu ir ao pódio com um terceiro lugar em 2009, mas sublinhou seu bom relacionamento com o Speedway com os seis top-10 que anotou em sete participações na corrida - antes de ir à Nascar e fazer história como a primeira pilota a marcar pole-position nas 500 Milhas de Daytona.

"Torço por todas elas. Como pilota, gostaria muito de ter recebido as oportunidades que elas recebem hoje para correr naquelas máquinas incríveis que elas têm à sua disposição. Mas pensar que eu talvez tenha as ajudado a ter estas chances é motivo de orgulho. É realmente uma honra", disse Janet, hoje aos 78 anos de idade, na mesma entrevista.

A carreira como pilota profissional acabava naquele 1980, mas Janet já tinha entrado a fórceps na história. Em 2006, a ex-pilota foi eleita para o Hall da Fama do Esporte a Motor – ela também está no Hall da Fama Feminino do Esporte Internacional. Um ano antes, em 2005, lançara sua autobiografia, ‘Janet Guthrie – A Life at Full Throttle’. Até hoje seu capacete e macacão usados para correr em Indy estão no maior museu dos Estados Unidos, o Smithsonian.

A 100ª edição da Indy 500 acontece em 29 de maio, e vai ser acompanhada com grande cobertura 'in loco' do GRANDE PRÊMIO.

Coisas da época...
Angie Fisher