A outra corrida

Em 1946, a Segunda Guerra Mundial acabara de terminar, as feridas eram muito recentes e a Indy 500 havia passado cinco anos inteiros sem ser realizada. Com uma data marcada, deixar o IMS pronto foi a maior luta

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

A situação era completamente diferente em 1946 do que em qualquer outro momento desde a criação da então Indianapolis International Sweepstakes. Nas três décadas que separaram 1911 e 1941, em todos os anos a corrida estava lá, firme. Mas o ataque à base naval de Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, foi o estopim que os Estados Unidos precisavam para entrar oficialmente na Segunda Guerra Mundial.

Parte das forças armadas foi à Europa lutar contra os exércitos nazista e fascista; outra parte, numa guerra pelo menos tão brutal quanto e muito menos conhecida, foi enfrentar os japoneses nas ilhotas do Oceano Pacífico. Com o país em guerra, a corrida parou e o Indianapolis Motor Speedway ficou às traças.

O IMS foi fechado e caía aos pedaços quando foi comprado por Tony Hulman em novembro de 1945, pouco mais de seis meses antes da data que acabou por ser a do retorno da prova, 30 de maio. Com a pista tomada por gramado descontrolado e cheio de ervas daninhas, havia um enorme trabalho a ser feito.

Apesar da administração Hulman ser a mais longa da história - ela segue até hoje por meio de sua família -, o crédito que ele levou pela recuperação da pista foi um tanto quanto irreal. O trabalho de recuperação visual foi feito, com placas e outdoors sendo substituídos, pintura feita em escala industrial e retoques para que o pit-lane e a pista não parecessem a perigo. As arquibancadas foram repostas também, fazendo com que levasse tempo para abrir o autódromo para o público.

Porém a pista, em si, precisou de cuidados de mais gente. Mecânicos andavam nas semanas anteriores ao início das atividades podando, cortando e plantando tipos de gramado que pudessem ajudar com as ervas daninhas. Todos, mecânicos e pilotos, usavam calças estilo cáqui para proteção.

Em 1946, enfim, teve
Divulgação

As garagens estavam cheias de equipamento e partes de carro que haviam sido simplesmente abandonadas por lá cinco anos antes. Algumas chegavam a ter 15 anos, completamente erodidas pelo tempo. Havia uma certa dificuldade de contribuir com as equipes na questão instrumental da corrida. Mas mesmo assim as coisas pareciam no caminho.

Já era maior quando as novas arquibancadas foram abertas: o preço para assistir a um dos treinamentos era de módicos $ 0,50. Porém ainda tinha um problema sério: a distribuição de combustível. Sem um ponto em condições para o armazenamento e venda no IMS, os pilotos precisavam chegar com seus próprios galões de combustível a tira-colo. Isso durou até que o então chefe do Gasolline Alley, Ed Wintergust, conseguisse reinaugurar o fuel shack, apenas dias antes do Pole Day.

Com a corrida acertada, Cliff Bergere fez a pole-position. No dia 30 de maio, enfim, uma nova tradição foi iniciada. James Melton cantou na solenidade de abertura da corrida a música 'Back Home Again in Indiana', um dos hinos do estado. A música é entoada até hoje em dias de 500 Milhas de Indianápolis.

Como seria de se esperar depois de tamanho abandono e tão pouco tempo de recuperação, a condição do traçado era ruim. Havia um atrito inacreditável e uma chuva de problemas mecânicos foi iniciada. Apenas 15 dos 33 carros que largaram chegaram à marca de 100 voltas, metade da prova. 

George Robson, o vencedor
Divulgação

Conforme as voltas passavam e o traçado causava mais e mais problemas, o presidente do Speedway, Wilbur Shaw, pediu pessoalmente a Billy DeVore que ele não abandonasse a corrida. DeVore tinha um grave problema no acelerador, não conseguia passar de 115 km/h, mas ficou na corrida até o final. Outro que resolveu não abandonar pela situação foi Bill Sheffler, que precisou de um pit-stop chamado na época de "eterno" para trocar o bloco traseiro do carro completamente. Chegou no final com 61 voltas de defasagem - mas chegou.

No fim, com os dois na pista, dez carros chegaram ao final. A vitória ficou com o inglês de Newcastle e que corrida sob a bandeira do Canadá, George Robson, após uma batalha relativamente próxima com Jimmy Jackson, filho de Indianápolis e que andou com um carro verde - cor então considerada de má sorte no automobilismo americano. Sete carros ficaram na volta do líder e dez terminaram - sendo que Sheffler, 61, e DeVore, 33, muitíssimo atrás.

A vitória de Robson teve certa polêmica. O piloto, que guiava um chassi Adams de motor Sparks com seis cilindros - desde a primeira Indy 500, em 1911, não acontecia -, recebeu reclamações oficiais por não deixar o carro durante os pit-stops, algo obrigatório na época. Nenhuma punição foi dada. Robson morreria meses depois, junto de seu mecânico-chefe, George Barringer, num acidente no circuito de Lakewood.

O #16 que quebrou a maldição dos seis cilindros
HG

Fato que também é curioso de ser ressaltado é que a Alemanha não foi barrada por completo. Um dos maiores pilotos de sua época, campeão do Campeonato Europeu de Pilotos - equivalente da F1 até antes de 1950 -, Caracciola foi chamado para correr num dos carros de Joe Thorne e foi à pista. Caracciola bateu num dos primeiros treinos livres, foi arremessado para fora do carro e sofreu graves ferimentos - dos quais se recuperou, mas que o impediram de disputar a prova. O piloto alemão jamais teve vínculos com o Partido Nazista, mas foi parte do National Socialist Motor Corps, uma organização que nasceu como a responsável pelo automobilismo na Alemanha Nazista, mas serviu como ajuda de locomoção dos exércitos depois da eclosão da guerra.

A centésima edição das 500 Milhas de Indianápolis acontece em 29 de maio, e o GRANDE PRÊMIO acompanha 'IN LOCO', AO VIVO e EM TEMPO REAL.