Duas batalhas

Sam Hanks venceu a edição 1957 das 500 Milhas de Indianápolis, mas está na história menos por isso e mais pelas condições em que sua carreira rumou antes disso. É o único piloto que correu a prova antes da Segunda Guerra Mundial, lutou na guerra e voltou para a Indy 500

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

No final das contas, o esporte e seus grandes eventos servem acima de tudo para aliviar as grandes pressões do mundo real. É, para quase todos os espectadores, uma fuga, um escape. Por mais querido que seja, o esporte sempre estará em segundo plano para situações da história que se impõem mais importantes. Quando os dois lados da moeda se encontram, as histórias que se evidenciam ganham contornos épicos.

Uma destas histórias que envolvem as 500 Milhas de Indianápolis se trata da escrita por Sam Hanks. O piloto era um veterano, aos 43 anos de idade, do Brickyard. Havia disputado a corrida 12 vezes entre 1940 e 1956, mas voltou em 1957.

E ele venceu em 1957. Mas essa nem é, em si, a grande história do que Hanks representa para a Indy 500. A vitória coloca seu rosto no troféu Borg-Warner, mas o nome foi para a história por conta de uma marca que apenas ele conseguiu: foi o único piloto da história a participar da Indy 500 antes da Segunda Guerra Mundial, ir lutar na guerra e voltar para correr novamente.

Hanks correu em 1940 e 1941, duas últimas edições antes dos ataques à base naval de Pearl Harbor e a subsequente entrada na guerra que parou a Indy 500 por cinco anos. Não conseguiu grandes feitos na prova, mas foi chamado para defender as forças armadas norte-americanas durante a guerra. Serviu, voltou e retomou o sonho de vencer em Indianápolis.

Sam Hanks, 1957
Reprodução

Demorou oito tentativas até que na edição de 1952, enfim, chegou no top-10. Fez terceiro lugar e renovou as esperanças. Já estava na história desde, claro, 1946. Seguiu tentando. 1957 tinha novidades, como uma nova torre de controle, o pit-lane recém-cimentado, entre eles. A edição até contou com um campeão mundial de F1: Giuseppe Farina. Mas o italiano acabou nem tentando se classificar depois de participar de alguns testes.

A bordo de um Epperly-Offy, Hanks fez o sexto e se encaminhou à vitória com estilo. Liderou 136 voltas, incontestável. Ainda no victory-lane recebeu o microfone e avisou: estava se aposentando. "Senhoras e senhores, amei cada minuto que estive aqui, mas essa foi minha última vez".

Anos depois, em entrevista, falou um pouco mais. "Quase me aposentei no ano anterior, quando cheguei em segundo. Só decidi correr em 1957 quando George Salih me disse que estava construindo um novo carro na garagem em Whittier e queria que eu guiasse. Quando eu cheguei a Indy, me chamaram de Horizontal Hanks. Estávamos atrás, assim como a maioria dos caras que tinham carros construído em garagens próprias. E ainda perdemos o primeiro dia da classificação", lembrou o piloto.

Hanks voltou depois. Não como piloto, mas como responsável por guiar o pace-car. Fez isso por seis anos, também foi diretor de corridas do IMS entre 1958 e 1979. Já estava na história, pois.

O GRANDE PRÊMIO acompanha a 100ª edição das 500 Milhas de Indianápolis com grande equipe 'in loco'.

A edição 1957
Hot Rod