Molhando o bico

Hoje é impensável e inacreditável, mas em 1913, outros tempos, e Jules Goux venceu a corrida com goles de champanhe no ínterim. Ganhou por 13 minutos, recorde até hoje, e recebeu sua própria lenda urbana

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

Antes que a história comece a ser relembrada, se faz necessário um adendo. Este causo é algo que faz parte da aura das 500 Milhas de Indianápolis, uma história que cresceu durante o último século e ganhou contornos muito maiores do que, de fato, foram à época. Dito isso, o GRANDE PREMIUM* garante que não está romantizando e que repudia qualquer caso de direção por motorista alcoolizado. 

A história é da terceira edição da corrida. Em 1913, como já foi lembrado em outra história da série 'Indy 100', o francês Jules Goux se tornou o primeiro piloto não norte-americano a vencer no Indianapolis Motor Speedway. Mas não é a história da corrida que interessa a este capítulo. É a lenda que cresceu em torno disso.

A lembrança mais famosa que ficou na história daquela corrida realizada 103 anos atrás - a primeira versão da Indy 500 pós-naufrágio do Titanic, caso alguém precise de uma referência de quanto tempo faz - foi a escolha de hidratação de Goux. O francês bebeu champanhe para recuperar os eletrólitos perdidos.

Diz a lenda urbana do Brickyard que Goux bebeu seis garrafas de champanhe durante seus pit-stops aquele dia para que ficasse hidratado. Segunda a história, a Aliança Francesa estava em peso assistindo a corrida no IMS e torcendo para Goux e o carro produzido pela Peugeot. Quando parou da primeira vez, pediu que arrumassem champanhe. A equipe recorreu aos companheiros da arquibancada. E, daí em diante, sempre que parava podia se deleitar com uma nova garrafa.

Jules Goux ao volante com o mecânico-chefe Emil Begin ao lado
(Foto: Divulgação)

Na certa, porém, parece um tanto quanto realidade fantástica que um piloto possa beber tamanha quantidade de um líquido alcoólico e ainda seguir no comando de uma corrida dinâmica e extremamente perigosa. É impossível de acreditar, lenda à parte, que alguém possa manter as faculdades mentais plenas nestas condições.

Provavelmente esta história não é verdadeira. Ao menos não neste formato. No livro 'Official History of the Indianapolis 500', escrito pelo historiador Donald Davidson - e replicado pelo site norte-americano 'Jalopnik.com' -, outra história, bem mais realista, é apresentada.

"A conclusão, baseada numa variedade de opiniões, incluindo algumas pessoas que lá estavam, é que realmente houve consumação de champanhe, mas em quantidade restrita. Se tratavam de pequenas garrafas com um pouco menos de meio litro, e, acredita-se, Goux pediu para beber em quatro paradas apenas, não nas seis", contou o especialista na corrida.

"Embora Goux e seu mecânico-chefe Emil Begin aparentemente tenham bebido juntos a primeira garrafa até o final, nas outras três ocasiões eles só deram um ou dois goles, talvez até mesmo usando apenas para molhar a boca", seguiu.

Cartão postal do IMS com o #16 de Goux passando o #19 do pole Caleb Bragg
(Foto: Divulgação)

Eram outros tempos e certamente não existiam as dezenas de marcas de bebidas isotônicas de hoje, mas sem qualquer dúvida água seria uma solução melhor - e já existia! Até chá seria uma opção mais recomendável. Pouco importava, para ser honesto, visto que Goux venceu a prova por impressionantes 13 minutos - até hoje um recorde. O carro vencedor da Peugeot foi o primeiro da história da Indy 500 a competir com motor de quatro cilindros com DOHC - o eixo de comando de válvulas duplo e na parte superior do cabeçote do motor.

Pouco tempo depois, a AAA, que até a década de 1950 era a responsável pelas 500 Milhas, acabou proibindo corretamente a ingestão de álcool durante as corridas. Mas naquele dia específico de 1913, Goux não apenas venceu, como ainda saiu fazendo piada. "Sem o bom vinho eu não teria vencido", disse em famosa frase.

Não foi a única vez que Jules foi um piloto importante. 11 anos antes da primeira edição das 24 Horas de Le Mans, o francês venceu a então Sarthe Cup, realizada no circuito tradicional e também guiando um carro Peugeot. Depois de parar a carreira para lutar pelo exército francês na Primeira Guerra Mundial, ainda venceu a primeira edição da história do GP da Itália, realizado pela única vez em Brescia, acelerando um carro Ballott.

A grande enchente de 1913 em Indiana
(Foto: Divulgação)

A própria realização da corrida de 1913 já merece uma menção especial. Isso porque aconteceu pouco mais de dois meses depois do que é considerada a maior enchente da história do estado de Indiana. As chuvas dos dias 24 e 25 de março de 1913 deixaram mais de 100 mortos e milhares de desabrigados. Mesmo assim, com o estado sendo recuperado, a ordem foi que a largada fosse dada.

A centésima edição das 500 Milhas de Indianápolis é no próximo dia 29 de maio, e o GRANDE PRÊMIO fará grande cobertura ‘in loco’.