A Ferrari pode salvar a F1 em 2017

Existe uma coisa que a nova F1 precisa ser, e ainda não dá para dizer se será: mais competitiva. Pelo menos nos primeiros dias, a Scuderia de Maranello esboça uma briga com a Mercedes

Thiago Arantes, de Barcelona

 

A nova F1 é mais bonita. Os carros são maiores e mais imponentes, as linhas aerodinâmicas nos remetem a modelos clássicos, as equipes capricharam nas pinturas, e o halo – equipamento de segurança de estética duvidosa – foi vetado pelas equipes. “Esqueçam o que vocês viram nos últimos anos”, disse Fernando Alonso. 

A nova F1 é mais rápida. Os tempos dos testes de 2016 já foram pulverizados, a pole do GP da Espanha foi superada com facilidade (e sem pneus ultramacios), e a expectativa de carros até 5 segundos mais rápidos parece cada vez mais próxima da realidade. “Parece outra categoria”, acrescentou Carlos Sainz. 

A nova F1 é mais desafiadora. As mudanças aerodinâmicas e os pneus largos deixam os carros grudados ao chão, as freadas serão ainda mais “dentro” das curvas, os pilotos terão mais tempo de pé embaixo. “Para nós, está muito melhor”, admitiu Felipe Massa. 

Mas existe uma coisa que a nova F1 precisa ser, e ainda não dá para dizer se será: mais competitiva. 
 

 

Para o mítico Adrian Newey, talvez o maior projetista da história da categoria, a solução é simples e não depende diretamente do regulamento. “O que precisa acontecer é termos duas equipes com desempenho parecido brigando pelo título”, afirma o hoje consultor da Red Bull. 

A realidade sonhada por Newey não existe desde 2012, quando Ferrari, Red Bull e McLaren disputaram o título. Em 2013, foi a própria Red Bull que sobrou; desde 2014, a Mercedes não tem rivais. 

Para 2017, o cenário desenhava-se algo semelhante, mas os primeiros testes mostraram uma esperança de disputa com os alemães: a Ferrari. 

A Scuderia foi a surpresa positiva dos primeiros dias. Kimi Räikkönen fez o melhor tempo da terça-feira, mesmo com febre e usando pneus macios, superou a Mercedes de Hamilton, que estava com supermacios. Os testes são – com o perdão da obviedade –, para testar: acertos, configurações, peças. Mas, das poucas coisas que se pode concluir, é se um carro nasceu bem ou não. 

O SF70H nasceu bem. Vettel, na segunda-feira, e Räikkönen, na terça, fizeram mais que tempos competitivos. Os dois campeões mundiais não tiveram problemas mecânicos, e uma observação mais atenta das ações em pista mostra uma tocada sem dificuldades ou grandes correções. 
 

 

“É claro que a Mercedes está muito bem, mas também vejo a Ferrari muito forte. Pelo que vimos até agora, é muito animador”, analisa Gunther Steiner, chefe da Haas. A equipe norte-americana também foi uma das agradáveis surpresas do início das atividades. Em seu segundo ano, dá indícios de que se consolidará entre os times médios. A lista de possíveis rivais inclui Force India e Williams, duas equipes que também mostraram potencial e confiabilidade; Felipe Massa completou 103 voltas na segunda-feira, e a rodada de Lance Stroll na terça-feira não aconteceu por um problema mecânico. 

Mercedes e Ferrari no topo, Haas, Force India e Williams entre as médias, foram as equipes que começaram a pré-temporada dando boas sensações. Nas outras cinco participantes do grid, o que se viu no início dos testes foi – em diferentes níveis – mistério, decepção e desespero. 

A cota de mistério é praticamente toda da Red Bull. Esperava-se que a equipe, dominadora da categoria entre 2010 e 2013, aparecesse mais forte com a mudança das regras. Mas Daniel Ricciardo teve problemas no primeiro dia, Max Verstappen não deu voltas rápidas no segundo, e o discurso de que “tivemos uma boa impressão, esse era o objetivo” é o melhor indício de que há muito potencial para evoluir. 

A Renault, finalmente com um piloto do nível de Nico Hulkenberg, também mostrou pouco. Na terça-feira, Jolyon Palmer deu apenas uma volta pela manhã, perdendo tempo valioso devido a problemas mecânicos. As primeiras impressões são de que será um ano decepcionante para a montadora francesa, dado o alto investimento na categoria. Em um nível bem diferente, e com muitos milhões de dólares a menos em jogo, Sauber e Toro Rosso também deram poucos motivos para otimismo. 
 

 

E há a McLaren. Dois dias de testes, dois motores trocados. A pré-temporada mal começou e a equipe já está em crise. A imprensa espanhola, Alonsista além do limite do bom-senso, especula sobre o fim da relação com a Honda – uma reação apaixonada, mas que mostra o tamanho do problema. 

Na segunda-feira, o espanhol saiu do autódromo para ir jogar tênis. Não se sabe o resultado do jogo, mas certamente foi melhor que o alcançado na pista. Na terça, o novato Stoffel Vandoorne também teve de lidar com falhas no carro. Sem a moral do bicampeão para deixar o circuito ou reclamar, preferiu ver o copo meio cheio. “A primeira sensação foi boa. É um sinal positivo”, afirmou. 

Mas todos os sinais dos testes – sejam positivos, negativos ou inexistentes – precisam passar por uma prova final, que só as corridas poderão fornecer: pela configuração dos carros, segundo os próprios pilotos, a nova F1 deve ter menos ultrapassagens. 

A resposta para esse problema só começará a ser dada no GP da Austrália, no fim do mês. Até lá, a questão é quem poderá desafiar a Mercedes para salvar a F1 do tédio. A melhor resposta, por enquanto, é vermelha.