As lições dos treinos livres

As duas primeiras atividades oficiais da F1 já começam a dar indicativos sobre a nova temporada. Do real rendimento das equipes de ponta às rivalidades entre companheiros de equipes, trazemos oito lições importantes dos treinos livres

Vitor Fazio, de Porto Alegre &
Gabriel Curty, de São Paulo

É verdade que foram apenas os dois primeiros treinos livres da temporada 2017, mas a sexta-feira em Melbourne já passou impressões iniciais interessantes sobre os rumos do novo ano da F1. Em três horas de atividades tivemos Lewis Hamilton mostrando que a Mercedes ainda é veloz (e que ele é mais veloz do que Valtteri Bottas), uma Ferrari claudicante e uma Red Bull melhor do que se esperava.

Claro que é muito cedo para previsões concretas, mas os treinos livres para o GP da Austrália já foram suficientes para a equipe do GRANDE PREMIUM tentar decifrar o enigma. Em oito pontos, eis as granes lições da sexta-feira australiana.

 

Desse jeito vai tomar uma bota

 

A diferença nos tempos de Lewis Hamilton e Valtteri Bottas nos dois treinos livres foi assustadora, mas nem um pouco surpreendente. O finlandês ainda vai precisar de algum tempo para se adaptar ao mundo da Mercedes, mas ficar perto de tomar 0s6 do companheiro de equipe nas duas sessões, com os mesmos pneus, nunca é algo positivo.

E com Bottas dando toda pinta de que será facilmente batido por Hamilton na maioria das etapas, é possível também dizer outra coisa: como foi bom para a F1 ter um cara como Nico Rosberg ao lado do britânico pelos últimos três anos. Muito subestimado - às vezes até por si mesmo -, o alemão era, sim, um excelente piloto e ter brigado duro com o fora de série Hamilton evidencia isso. É bem capaz que Rosberg, já campeão do mundo, só ganhe de fato o devido reconhecimento após ter se aposentado.

 

 

Escondendo o jogo

 

Sensação da pré-temporada em Barcelona, a Ferrari não teve desempenhos impressionantes nos primeiros treinos, especialmente no TL1. Mas será que os italianos realmente estão atrás desse jeito da Mercedes?

A impressão é que a Ferrari escondeu o jogo nesse início de final de semana e deve encostar em Hamilton em termos de tempo. Em termos de classificação, porém, o segundo lugar de Sebastian Vettel e o quarto posto de Kimi Räikkönen no TL2 parecem ser mais próximos da realidade.

 

 

A Red Bull não é boba

 

Foi com certa estranheza que percebemos a fraqueza da Red Bull em Barcelona. Aquela equipe que sempre chamou atenção pela aerodinâmica refinada dava a impressão de ter errado a mão justamente quando este aspecto ganhou importância, consequência do novo regulamento. Mas bastou apenas um treino livre para que a percepção mudasse um pouco.

Não que agora a Red Bull seja candidata ao título, mas o prognóstico é mais otimista. No primeiro treino livre, tanto Daniel Ricciardo quanto Max Verstappen superaram as Ferraris de Sebastian Vettel e Kimi Räikkönen. É verdade que ficaram atrás no segundo, mas por uma margem pequena.

A tendência é de que, assim como em 2016, a Red Bull evolua ao longo do ano. O motor Renault está em constante evolução e, se quebrar menos, pode trazer mais vitórias para os taurinos. A esperança existe.

 

 

Partiu Medida Certa?

 

A Force India tem um problema crônico em Melbourne: o carro é muito pesado. 12 kg acima do peso mínimo da F1, para ser preciso. Não é por acaso que Sergio Pérez adotou uma “dieta extrema” para perder 3 kg entre a pré-temporada e o GP da Austrália.

Não por acaso, os tempos de volta da Force India nos treinos livres não impressionaram ninguém. A equipe que comandou o meio do pelotão em 2016 teve o décimo lugar de Pérez no TL1 como melhor resultado. Além das três gigantes, Renault e Haas também parecem ter alguma vantagem sobre os indianos no início da temporada.

A verdade é que ainda não se sabe ao certo qual é o real potencial da Force India. Ninguém pode cravar que quando o problema do peso for resolvido os indianos vão ter um foguete.

 

 

Sim, a McLaren é ruim

 

Não que ainda tivesse gente confiando em uma boa temporada da McLaren, mas os treinos livres em Melbourne confirmam a expectativa de um ano sofrido para os britânicos. Stoffel Vandoorne, por exemplo, perdeu boa parte do TL1 por problemas mecânicos. Fernando Alonso, por sua vez, foi orientado a trocar de marcha mais cedo do que de costume para não forçar o conjunto da Honda.

O único resquício de esperança em Woking é o ritmo em voltas lançadas. Fernando Alonso foi o 12º no TL2, apenas um pouco pior do que a McLaren costumava fazer em 2016. O problema é que dar um passo para trás é um desastre para uma escuderia que já não vinha encantando.

A McLaren vai passar o ano brigando apenas com a Sauber? Não. Mas se prepare para uma temporada de frustração extrema da parte de Fernando Alonso e Stoffel Vandoorne.

 

 

Terra de ninguém

 

Felipe Massa dá toda a pinta de que vai ficar solitário ao longo da temporada 2017 da F1. Não, o brasileiro não vai abandonar mulher e filho para morar sozinho. Na verdade, Massa vai sofrer de uma característica do FW40: o carro parece bom o suficiente para despachar o meio do pelotão, mas também não é capaz de bater de frente com Mercedes, Ferrari ou Red Bull.

Nesse caso, que já aconteceu várias vezes ao longo da história da F1, o maior adversário passa a ser o companheiro de equipe, único com um carro igual. O problema é que o companheiro de Massa é Lance Stroll, que ainda vai comer muito feijão com arroz antes de ser realmente competitivo na categoria.

O canadense estreia em um ano de grandes mudanças, o que certamente é desafiador para um rapaz de 18 anos. Melhor para Massa, que vai ter uma vida bem mais tranquila do que na época em que Valtteri Bottas era o companheiro de equipe.

 

 

Dupla de um

 

Falando em equipes que apresentam disparidades entre seus pilotos, Renault e Haas começaram o ano do jeito que a gente esperava: Nico Hülkenberg e Romain Grosjean no top-10, Jolyon Palmer e Kevin Magnussen no limbo.

Um dos times que mais devem evoluir nos próximos por ser uma equipe de fábrica, a Renault tem um sério problema: o piloto do carro #30. Enquanto Hülk parece já ter se adaptado à esquadra amarela e deixou os franceses nos dois treinos livres em nono, Palmer ficou nas duas últimas posições em ambas as sessões e, de quebra, ainda arrebentou o carro no muro durante o TL2. O inglês é uma catástrofe e não deve nem fazer sombra ao alemão ao longo da temporada.

A Haas tem uma situação um pouco menos acentuada de disparidade, mas que também fica bem clara desde os primeiros treinos livres. Enquanto Grosjean segue em forma brilhante e já começa o ano com dois oitavo lugares na sexta-feira, Magnussen não passou de um discretíssimo 17º lugar. O dinamarquês, que tanto se queixou da Renault por não ter sido mantido para 2017, é outro que deve sofrer com um companheiro bem mais talentoso.

 

 

25 é demais

 

Os novos gráficos da F1 ficaram bem bonitões e ainda mais informativos. Após anos estagnada nesse aspecto, a categoria parece realmente estar procurando melhorar a cada temporada que passa. A ideia de dividir os três setores da pista em sub-setores também é muito boa, mas não precisavam ser 25, né? Uns 12 estariam de ótimo tamanho - quatro por setor.