Franco Morbidelli

“Eu não tracei alguma meta especifica para este ano, porque é muito difícil saber qual o meu potencial verdadeiro. Então o objetivo é só melhorar a cada corrida”

Juliana Tesser, de São Paulo

Franco Morbidelli começou uma nova fase da carreira em 2018. Campeão da Moto2 no ano passado, o italiano de Roma faz nesta temporada sua estreia na MotoGP, correndo pela mesma Marc VDS com que chegou ao título da divisão intermediária.

Protagonista de um roteiro diferente rumo ao Mundial de Motovelocidade ― que passou pelo Campeonato Europeu de Superstock 600 ―, Morbidelli precisou driblar dificuldades financeiras para alcançar as categorias promovidas pela Dorna, mas foi justamente o triunfo na classe de 600cc que abriu as portas da Moto2 para o #21.

A estreia no Mundial aconteceu em 2013, com participações nas etapas de San Marino, Japão e Valência, sempre pela Gresini. No ano seguinte, a vaga de titular veio pelas mãos da Italtrans, mesma equipe pela qual conquistou o primeiro pódio ― um terceiro lugar na etapa de Indianápolis.

2016, então, viu um passo decisivo na carreira do italiano, com a contratação pela Marc VDS. O primeiro terço da temporada foi mais discreto, mas Franco deslanchou na parte restante da disputa, com oito pódios ― quatro segundos e quatro terceiros ― nas últimas 11 etapas.

No ano seguinte, Franco foi ainda mais longe e abriu o Mundial com um triunfo no Catar, emendando vitórias na Argentina e em Austin. Depois de um abandono em Jerez, o piloto voltou a vencer na França, fez top-5 em Itália e Catalunha, voltou ao topo do pódio em Holanda e Alemanha, foi oitavo na República Tcheca, venceu na Áustria, foi ao pódio na Grã-Bretanha, abandonou em Misano, foi primeiro em Aragão, oitavo no Japão, terceiro na Austrália e na Malásia e fechou o ano com um segundo lugar em Valência. Tal desempenho, claro, rendeu ao #21 o título e a promoção para a fase seguinte da certame.

Agora, no estágio mais alto da carreira, Morbidelli ainda trabalha em sua adaptação à nova categoria, mas começou o ano à frente de Hafizh Syahrin, Tom Lüthi, Takaaki Nakagami e Xavier Siméon ― os demais novatos de 2018 ― com um 12º lugar em Losail.

Às vésperas do GP da Argentina, Morbidelli conversou com o GRANDE PREMIUM e, falando no português que aprendeu com a mãe brasileira, deu sua avaliação da pré-temporada, da evolução conquistada até aqui e até arriscou um palpite da disputa pelo título. Franco falou, ainda, da VR46 e de sua nova relação com Valentino Rossi.

Franco Morbidelli é um dos cinco estreantes da temporada 2018 da MotoGP
(Foto: Marc VDS)

GRANDE PREMIUM: Qual a avaliação que você faz dos testes da pré-temporada?

FRANCO MORBIDELLI: “Foi uma pré-temporada boa para a gente, porque melhoramos a cada treino. Esse era o nosso objetivo. Nós conseguimos melhorar e isso é o importante”. 

GP*: Qual a sua impressão em relação a RC213V? Quais são os pontos fortes e os pontos fracos da moto?

FM: “A RC213V 2017 é uma moto muito boa, ganhou o campeonato no ano passado, então tem muito potencial, mas é uma moto difícil de aprender e difícil de pilotar rápido, mas é o que eu estou tentando fazer: aprender a pilotar bem direitinho e fazer tudo certo em cima da moto para ser rápido nos treinos e também na corrida”.

GP*: Nós temos visto que a Moto2 é uma grande escola para a MotoGP, mas existe também um grande diferença entre as categorias, como, por exemplo, pneus e freios. O que foi mais difícil nessa adaptação à nova classe?

FM: “A coisa que foi mais difícil de adaptar foram os pneus, porque eles têm muito mais performance, então é difícil de acostumar com essa performance. Você tem de ir muito mais rápido no meio da curva e acostumar com isso não é uma coisa muito fácil, mas a gente está melhorando cada vez [que subimos na moto]”.

GP*: Você traçou metas especificas para este ano de estreia?

FM: “Eu não tracei alguma meta especifica para este ano, porque é muito difícil saber qual o meu potencial verdadeiro. Então o objetivo é só melhorar a cada corrida. Na última, nós ficamos em 12º, 16s longe do primeiro. Só temos de melhorar isso na próxima corrida. E tentar melhorar na seguinte. Melhorar a cada vez”.

GP*: Todo piloto que sobe da Moto2 para a MotoGP diz que precisou mudar o estilo de pilotagem. Em que aspecto você mais precisou mudar?

FM: “Tem muitos aspectos que você tem que mudar da Moto2 até a MotoGP. É tudo diferente. Tudo diferente. É preciso mudar muito o estilo de pilotagem, sem mudar a sua natureza, claramente, pois aí você esquece completamente os seus pontos fortes. Mas tem de mudar bastante”.

Franco Morbidelli ficou em 12º em sua primeira corrida na MotoGP
(Foto: Marc VDS)

GP*: A Honda já mostrou ser uma boa moto, mas o Marc Márquez tem feito a diferença no resultado final. O quanto ajuda ter acesso aos dados dele?

FM: “Ter acesso aos dados de Marc [Márquez], de [Dani] Pedrosa e de [Cal] Crutchlow, também, é uma coisa muito boa para nós, porque, no meu primeiro ano de MotoGP, eu tenho de aprender muito e tenho a chance de aprender direto olhando os dados. É uma coisa muito importante para a gente”. 

GP*: Você está acostumado a correr com todos os outros quatro pilotos que vão estrear na MotoGP neste ano. A performance de algum deles nos testes foi uma surpresa?

FM: “Têm muitos ‘rookies’ fortes neste ano na MotoGP: [Tom] Lüthi e [Takaaki]  Nakagami são os que no ano passado fizeram melhor na Moto2, então eles são muito fortes, mas também [Hafizh] Syahrin andou muito rápido na primeira corrida do campeonato, então ele também é um adversário muito forte. Eu diria que a surpresa foi Syahrin, com certeza”.

GP*: Johann Zarco teve uma temporada de estreia muito boa na MotoGP. Você acredita que a atuação dele em 2017 aumenta a pressão ou a expectativa em cima dos estreantes deste ano?

FM: “Com certeza. O que Johann fez o ano passado me dá uma pressão a mais, mas eu vou tentar continuar pelo meu caminho, continuar com o meu estilo de trabalho: pouco a pouco e tentando melhorar cada vez”.

GP*: Tem alguma área em especial que você acha que mais melhorou ao longo dos testes? E alguma em que ainda precisa melhorar?

FM: “Têm muitas áreas onde melhorar ainda, mas o objetivo que a gente tinha nos primeiros testes era de melhorar a velocidade de curva. E a gente conseguiu [fazer isso] bastante bem até chegar a fazer uma velocidade no meio da curva muito boa. Esse era o meu problema principal quando eu subi para a MotoGP, mas agora já estou melhorando muito”.

GP*: Você é o primeiro piloto da VR46 a chegar na MotoGP. Isso significa também uma pressão extra?

FM: “Ser o primeiro piloto da VR46 a chegar à MotoGP acho que não é uma pressão a mais, mas é só um motivo de orgulho. Para mim, é só isso. Eu estou muito feliz de representar a Academia VR46 também na MotoGP e estou muito feliz de ser o primeiro piloto a chegar na MotoGP para eles”.

Campeão da Moto2 em 2017, Morbidelli é um dos integrantes da Academia de Pilotos VR46
(Foto: Divulgação/VR46)

GP*: Você agora forma dupla com o Tom Lüthi na Marc VDS. Como foi essa mudança de rival na briga pelo título para companheiro de equipe?

FM: “Ser companheiro de equipe de Tom este ano é uma coisa normal para mim. Não é uma coisa que me deixa nervoso ou algo assim. Ele é um bom cara. No ano passado, a gente lutou pelo campeonato e agora a gente está lutando também na MotoGP. A diferença é que a gente leva as mesmas cores na pista, mas a gente ainda é adversário, só que a gente leva as mesmas cores na pista”.

GP*: Os testes da pré-temporada mostraram que todos os pilotos estão bastante próximos. Como você imagina que será a temporada 2018 da MotoGP? Quem você espera ver na briga pelo título?

FM: “Eu acho que Ducati é a moto que melhorou mais comparado com o ano passado. E [Andrea] Dovizioso está muito rápido agora. Mas também a Honda é uma moto muito boa e o Márquez é um piloto fantástico, então ele vai estar lá pela luta do campeonato até o final. Esses são os dois que eu acho que vão ser os nomes que vão lutar pelo campeonato. Também aí tem muita gente que pode lutar pelo campeonato, mas os mais claros, de momento, são Márquez e Dovizioso”.

GP*: Dividir a pista com Valentino Rossi não é uma novidade para você, mas é diferente fazer isso na MotoGP?

FM: “Com certeza, estar na pista com Vale na MotoGP é uma coisa muito emocionante, mas é um pouco diferente, claramente, com lutar com ele no Rancho ou em um treino. É uma emoção muito boa para mim”.

GP*: Mesmo agora sendo um rival, você segue como membro da VR46. A subida para a MotoGP mudou alguma coisa na sua relação com o Rossi? Ele te ajudou em algum aspecto nesta chegada à MotoGP?

FM: “Eu acho que a minha subida para a MotoGP não mudou a relação entre eu e Vale. Ele me ajudou muito também, me ajudou muito, me deu muitos conselhos, então eu acho que agora a relação é ainda mais forte”.

Franco Morbidelli pilota uma Honda RC213V de 2017
(Foto: Marc VDS)