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As lições da pré-temporada da Fórmula 1

O fim de semana de testes que a Fórmula 1 promoveu no circuito de Sakhir, no Bahrein, levantou algumas questões, mas também trouxe muitas certezas sobre o que está por vir para a temporada 2021

MAX VERSTAPPEN; RED BULL; PRÉ-TEMPORADA; BAHREIN; F1;
Verstappen na pré-temporada de 2021 (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

Mesmo tendo sido a mais curta sessão de testes preparatórios da Fórmula 1 dos últimos tempos, com duração de apensas três dias, a pré-temporada que aconteceu no último fim de semana no circuito de Sakhir, no Bahrein, trouxe alguma ideia do que vai ser a ordem de forças para a abertura do campeonato, dentro de duas semanas, também no país insular.

Talvez a grande surpresa foi sobre como a toda poderosa Mercedes se apresentou para os testes. O novo W12, que sequer havia sido testado antes do embarque para o Oriente Médio, apresentou desde cara um problema no câmbio, que atrapalhou os trabalhos de Valtteri Bottas no primeiro dia de testes, mas também evidenciou um bom desequilíbrio, como se viu claramente tanto nas voltas do finlandês e de Lewis Hamilton.

MERCEDES; MERCEDES AMG; MERCEDES W12; FÓRMULA 1;
A Mercedes completou apenas 304 voltas nos testes no Bahrein (Foto: Mercedes)

A Red Bull, que manteve uma boa base, tem o reforço de uma versão evoluída do motor Honda e agora conta com o experiente e vencedor Sergio Pérez para fazer dupla com Max Verstappen, despontou como a vencedora da pré-temporada. Pode não ser muito, já que teste é teste e corrida é corrida, mas é algo digno de nota.

Mas há outras tantas lições aprendidas ao longo dos últimos dias de testes com base nas impressões dos pilotos e também do que se viu em Sakhir nos trabalhos de cada uma das dez equipes do grid na pista. O GRANDE PREMIUM lista dez delas a seguir.

1 – A força do touro vermelho

A Red Bull foi a grande sensação dos testes no Bahrein. E aqui a questão não diz respeito aos tempos que colocaram Max Verstappen na liderança da tabela na sexta-feira e no domingo à noite e Sergio Pérez na ponta pela manhã do último dia de trabalho de pista. O fato é que o RB16B é uma excelente evolução do ótimo carro desenvolvido no ano passado.

Antes dos testes, já havia alguma expectativa sobre a performance do novo modelo em razão do trabalho feito pela Honda para antecipar, de 2022 para 2021, a versão do motor Honda que empurra o carro taurino. Deu muito certo e, além disso, as mudanças aerodinâmicas providenciadas pelo ‘mago’ Adrian Newey para que a equipe se adaptasse ao novo regulamento foram bem-sucedidas. O carro é equilibrado e andou bem tanto em simulações de classificação como nos chamados long-runs.

RED BULL; FÓRMULA 1; SERGIO PÉREZ; BAHREIN; PRÉ-TEMPORADA;
Sergio Pérez foi um dos grandes nomes dos testes da Fórmula 1 (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

É possível dizer que, por todo o histórico dos últimos anos, a Mercedes ainda desponte como a favorita ao título, mas vai ter na Red Bull, classificada por Hamilton como “um animal diferente”, um touro dificílimo de domar.

2 – Fim da hegemonia?

Nos últimos anos, a Mercedes sempre se destacou por ter um equipamento muito forte e também bastante confiável. Mas o cenário refletido nos testes em Sakhir foi completamente oposto. De campeã da quilometragem nas sessões prévias realizadas em Barcelona, a equipe heptacampeã do mundo foi a última colocada dentre as dez equipes do grid e completou apenas 304 voltas.

O já citado desequilíbrio do W12 E Performance é incomum em razão do que apresentou o quase imbatível antecessor W11 nas corridas ao longo do ano passado. Se a má performance é resultado das mudanças aerodinâmicas — lembre-se do misterioso assoalho revelado apenas na sexta-feira dos testes e a pressa dos mecânicos em esconder as partes do carro depois da rodada de Hamilton no sábado —, só as próximas semanas é que vão resolver.

TOTO WOLFF; MERCEDES; MERCEDES AMG; MERCEDES W12; FÓRMULA 1;
Toto Wolff não escondeu a preocupação com o começo claudicante da Mercedes (Foto: Mercedes)

O lado bom é que a pré-temporada serve justamente para isso, para encontrar problemas que poderiam ser mais difíceis de resolver com o campeonato em curso.

Mas a equipe confia na capacidade de reação para dar a volta por cima. “Estou sempre preocupado, às vezes pelos motivos certos, outras vezes pelos motivos errados”, afirmou Toto  Wolff. “Os testes de pré-temporada sempre são empolgantes porque sempre você encontra pelo na sopa, coisas que não dão certo e que te fazem sofrer nos primeiros dias”.

“A primeira coisa para nós é entender as informações, ver onde fizemos um bom trabalho e onde não fomos bem. Queremos ver onde tivemos uma boa correlação e onde não tivemos. Essa análise é como dormir à noite. No dia seguinte, isso vai te permitir levantar mais esperto”, explicou o chefe da Mercedes, que tem a missão conduzir a equipe ao oitavo título mundial.

3 – A terceira força

A sempre complicada transição de fornecedor de motor surgiu como uma incógnita para a McLaren depois do forte desempenho ao longo da temporada passada, mas a unidade motriz da Mercedes se encaixou bem demais ao novo MCL35M, que mostrou sólida performance em voltas mais rápidas como também em ritmo de corrida.

Outro ponto importante para a McLaren se manter como a terceira equipe do grid e, quem sabe, até ameaçar Red Bull e Mercedes, é a chegada de Daniel Ricciardo. E mesmo com pouco tempo de trabalho em Woking, o australiano já se mostra bastante adaptado, tendo colocado em prática toda a capacidade reconhecida no meio da Fórmula 1.

DANIEL RICCIARDO; McLAREN; F1; SF21; BAHREIN; PRÉ-TEMPORADA;
Daniel Ricciardo já se mostrou bastante adaptado ao carro da McLaren (Foto: McLaren)

A solução engenhosa no difusor para amenizar a redução do downforce, fruto das mudanças no regulamento para 2021, chamou a atenção, mas também cabe destaque, principalmente, a performance sólida do novo carro e também a sua confiabilidade, sem qualquer grande problema aparente.

A McLaren vem bem, muito bem, para alçar voos ainda mais altos nesta nova temporada da F1.

4 – A decepção verde

Há pouco mais de um ano, a ‘Mercedes rosa’ da Racing Point chocou a Fórmula 1 pela sua semelhança com o W10 hexacampeão mundial em 2019, mas se notabilizou também pelo ótimo desempenho com Sergio Pérez e Lance Stroll. Hoje rebatizada como Aston Martin e ainda mais turbinada pelos milhões de euros investidos por Lawrence Stroll, a marca britânica regressa à Fórmula 1 com a expectativa de estar entre as três primeiras do grid e até lutar por vitórias.

Mas o começo dos trabalhos de pista foi bem aquém do esperado. O belíssimo AMR21, pintado predominantemente no chamado verde britânico, não impressionou em nada e ainda obteve a segunda pior quilometragem dos testes, com 314 voltas, número superior apenas ao da parceira Mercedes. Sebastian Vettel ficou com o pior tempo dentre os pilotos titulares, superando apenas o reserva Roy Nissany, da Williams.

LANCE STROLL; ASTON MARTIN; F1; SF21; BAHREIN; PRÉ-TEMPORADA;
A Aston Martin foi uma das grandes decepções dos testes de pré-temporada (Foto: Aston Martin)

O próprio Vettel reconheceu que há preocupações, como a falha no câmbio da Mercedes, apresentada nas mãos de Sebastian Vettel na sexta-feira, e os problemas elétricos que atrapalharam o turno de Lance Stroll. Há também o entendimento de que existe certa falta de velocidade. Mas o tetracampeão mostrou paciência e capacidade de reação no novo time.

“Não estou muito preocupado. Talvez seja a idade, a experiência. Há dez anos, provavelmente estaria em pânico agora. Mesmo assim, entrar em pânico ajudaria. Provavelmente não. Só estamos fazendo nossas coisas e usando o tempo que temos agora. Conseguimos alguma quilometragem e para mim foi muito, muito útil. Poderia ter sido pior. Poderia ser melhor? Sim, mas poderia ser pior. É questão de manter a calma, fazer uma coisa de cada vez e ir em frente quando for a hora”, comentou o dono do carro #5.

5 – As ‘alfas’ no topo da quilometragem

Alfa Romeo e AlphaTauri têm muitos motivos para comemorar na esteira do último fim de semana em Sakhir. As duas equipes não apenas conseguiram evidenciar um considerável salto de qualidade com os novos C41 e AT02, respectivamente, como também completaram o maior número de voltas dos testes de pré-temporada: 422 cada, ou 2.283,8 km, distância equivalente a quase 7,5 GPs.

De fato, as duas equipes apresentaram carros bem-nascidos e, aparentemente, livres de grandes problemas. Pierre Gasly e Kimi Räikkönen foram os pilotos que mais completaram voltas em Sakhir, com 237 e 229 giros, respectivamente.

PIERRE GASLY; ALPHATAURI; BAHREIN; PRÉ-TEMPORADA; FÓRMULA 1;
Pierre Gasly foi o piloto que mais andou na pré-temporada da F1 no Bahrein (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

Ainda cabe destaque, do lado da AlphaTauri, como o novato Yuki Tsunoda, dono de ótima campanha na Fórmula 2 no ano passado, conseguiu andar bem nos testes, a ponto de ter registrado o segundo melhor tempo da pré-temporada, embora os tempos, no fim das contas signifiquem pouco ou nada, como afirma Räikkönen, o quarto da tabela final.

Mas o finlandês confia que o novo carro da equipe ítalo-suíça é melhor que o anterior. “Imagino que somos mais rápidos do que éramos ao fim de 2020, mas temos de ver se isso se traduz em um melhor rendimento nas corridas”.

A beleza dos dez carros da Fórmula 1 na temporada 2021

6 – Fernando Alonso volta em ótima forma

Aos 39 anos e há dois afastado da Fórmula 1, Fernando Alonso regressa ao Mundial nesta temporada e, logo nos testes preparatórios em Sakhir, mostrou uma ótima forma física e técnica, mostrando que está prontamente recuperado do acidente de bicicleta e da fratura na mandíbula sofridos mês passado na Suíça.

Logo nas primeiras voltas quando foi à pista, no último sábado, o bicampeão do mundo imprimiu uma performance muito sólida com o carro que acabara de conhecer. Nem parecia que o espanhol ficou todo esse tempo longe da categoria.

FERNANDO ALONSO; ALPINE; F1; PRÉ-TEMPORADA
Fernando Alonso volta à Fórmula 1 em ótima forma (Foto: Alpine F1 Team)

Alonso completou um total de 208 voltas, quilometragem pouco maior que os 190 giros obtidos pelo novo companheiro de equipe, Esteban Ocon. Da parte do bicampeão, foi um dia e meio de teste sem maiores problemas ou erros.

Sobre tentar buscar pódios no seu regresso à Fórmula 1, vai depender mais de como o carro da Alpine vai estar em relação à concorrência, mas Alonso deu sinais de que tem capacidade de entregar resultados e ainda tem lenha para queimar por muito tempo na principal categoria do esporte a motor.

7 – Ferrari realmente melhora, mas ainda parece atrás das rivais

Toda aquela preocupação sobre o motor, sobretudo em razão da pobre performance no propulsor que empurrou a antiga SF1000 na última temporada, é coisa do passado. A nova unidade motriz construída em Maranello para empurrar a SF21 e também os carros das clientes Haas e Alfa Romeo foi aprovada nos testes de pré-temporada. Não há mais a dor de cabeça sobre a falta de velocidade de reta.

A quilometragem obtida por Charles Leclerc e Carlos Sainz nos testes no Bahrein também foi algo digno de nota, com 404 giros acumulados pelo novo carro vermelho e com detalhes em verde, sendo a Scuderia a terceira na lista de voltas completadas, só atrás das campeãs ‘alfas’. Mas será o bastante para dar o esperado salto de confiabilidade?

CHARLES LECLERC; FERRARI; F1; SF21; BAHREIN; PRÉ-TEMPORADA;
A Ferrari não teve grandes problemas na pré-temporada da F1 (Foto: Scuderia Ferrari)

Em termos de ritmo de corrida, nas simulações feitas em Sakhir, a Ferrari ainda parece atrás das suas oponentes do meio como McLaren, Alpine, AlphaTauri e até da Aston Martin neste momento.

Mas não há, nem de longe, o discurso pessimista que marcou a Ferrari ao fim da pré-temporada do ano passado. “A equipe melhorou em muitas áreas na comparação com a última pré-temporada. É difícil dizer onde estamos na comparação com os nossos concorrentes porque esse teste foi ainda mais difícil que o habitual para interpretar”.

8 – Williams dá pequeno salto para deixar fundão do grid

O veredito de Dave Robson, chefe de performance da Williams, é bastante otimista sobre o novo FW43B. “O carro foi confiável, o que é um testemunho do esforço de todos os envolvidos no projeto, na fabricação, na operação em Grove e na pista”. Definitivamente, aquela que é uma evolução sobre o modelo do ano passado apresentou, na teoria, um desempenho melhor e não teve dificuldades para completar 373 voltas, sendo a equipe com a sexta maior quilometragem dos testes.

O cenário é bem mais animador do que há dois anos, quando um pavoroso atraso na entrega do carro daquela temporada nos testes de inverno, em Barcelona, prejudicou a Williams ao longo de toda a temporada.

GEORGE RUSSELL; WILLIAMS; MERCEDES; F1; BAHREIN; PRÉ-TEMPORADA;
Williams à frente da Haas? É o que aponta a pré-temporada no Bahrein (Foto: Williams Racing)

A escuderia de Grove, sob nova direção, tem no seu novo carro a chance de deixar o fundo do grid. A performance geral não permite sonhar muito mais que sair do fim do grid enquanto não vem a revolução no regulamento para 2022. A Williams acelerou na pré-temporada com um pacote já evoluído, enquanto a Haas vai ter, durante todo o campeonato, praticamente o mesmo carro apresentado nos testes, já que não há previsão de atualizações contínuas.

O principal trunfo da Williams é George Russell, que entra na sua terceira temporada disposto a finalmente pontuar pela equipe antes de, provavelmente, dar o maior passo da sua carreira rumo à Mercedes, ao que tudo indica, em 2022.

9 – Pré-temporada de três dias é bom, mas precisa ser maior em 2022

As breves mudanças no regulamento e a contenção dos custos em razão da pandemia fizeram com que a Fórmula 1 promovesse a pré-temporada mais curta dos últimos tempos. Foram apenas três dias de trabalho de pista como ensaio antes do começo do campeonato propriamente dito.

O tempo de pista bem mais restrito fez com que cada minuto de pista fosse crucial para acumular o maior número possível de informações dos novos carros. Foi muito bom neste aspecto e também porque todas as sessões, seja de manhã, seja de tarde/noite, foram muito movimentadas, exceção feita à tarde de sexta-feira, marcada pela tempestade de areia.

CHARLES LECLERC; FERRARI; F1; PRÉ-TEMPORADA; BAHREIN;
A pré-temporada de 2021 foi a mais curta dos últimos tempos (Foto: Scuderia Ferrari)

Outro ponto importante é que qualquer grande problema, como se viu com a Mercedes e com a Aston Martin sobre o câmbio, limita bastante o acúmulo de quilometragem. Cientes de que qualquer batida mais forte também afetaria enormemente o cronograma das suas equipes, os pilotos evitaram correr riscos.

Mas o cenário vai mudar bastante em 2022 em razão da revolução nos regulamentos técnico, esportivo e financeiro. Com a nova geração de carros e os pneus de 18”, que já estão sendo testados pela Pirelli e vão ter uma extensa programação de testes ao longo do ano, três dias não bastam. Certamente, a Fórmula 1 já analisa a melhor alternativa para a já aguardada pré-temporada no ano que vem.

10 – Vem aí outra temporada incrível (e, talvez, com luta pelo título)

A temporada passada pode não ter sido a melhor no que diz respeito a briga pelo título, ou pelos títulos, conquistados com alguma facilidade por Lewis Hamilton e pela Mercedes. Mas 2020 rendeu um campeonato com belíssimas histórias, como as vitórias surpreendentes de Pierre Gasly e Sergio Pérez, e outros momentos que ficarão para sempre no coração dos fãs do esporte a motor.

Em 2021, se o que se viu na pré-temporada refletir a realidade, a Red Bull desponta, sim, como uma concorrente real contra a Mercedes pelo título da Fórmula 1. O que seria um grande alento para quem critica a dominância da equipe chefiada por Toto Wolff dede 2014 e que chegou a ser ameaçada, brevemente, pela Ferrari em 2017 e 2018.

LEWIS HAMILTON; MERCEDES; F1; PRÉ-TEMPORADA; BAHREIN;
A missão de Lewis Hamilton na luta pelo oitavo título tende a ser mais difícil (Foto: Mercedes)

Mas além da possível maior concorrência pelo topo da Fórmula 1, há uma deliciosa batalha no segundo pelotão da Fórmula 1, que talvez não esteja mais tão distante dos ponteiros. O que se viu no Bahrein é que McLaren, Alpine, AlphaTauri, Ferrari e Aston Martin vão andar muito próximas e lutar ferrenhamente entre si durante o campeonato em uma disputa que promete ser pra lá de previsível.

Fica a curiosidade sobre dois dos estreantes em 2021: Yuki Tsunoda, que deixou ótima impressão no Bahrein, e Mick Schumacher, que também andou bem nos testes, mesmo tendo às mãos um carro limitado.

A grande expectativa é para outra grande temporada, com grandes histórias, belíssimas corridas, resultados surpreendentes e, quem sabe, uma excepcional batalha pelo título. Vejamos as respostas para tudo isso a partir do último domingo de março, dia 28, também no Bahrein.

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