10 x 99

Aos 32 anos, Jorge Lorenzo decidiu jogar a toalha na Honda e anunciou em Valência a aposentadoria. O #99 será incluído no rol das Lendas da MotoGP no próxima ano

Juliana Tesser, de São Paulo

O último fim de semana marcou o fim de uma era na MotoGP. Depois de Casey Stoner e Dani Pedrosa, chegou a hora de mais um dos ‘aliens’ dizer adeus: em baixa na Honda, Jorge Lorenzo optou por encerrar a carreira e se despediu da classe rainha do Mundial de Motovelocidade no GP da Comunidade Valenciana.

Dono de cinco títulos mundiais ― dois nas 125cc e três na MotoGP ―, Lorenzo tem no currículo um total de 68 vitórias ― 47 na MotoGP ―, 152 pódios ― 114 na classe principal ― e 69 poles ― 30 na elite.

No entanto, o fim da carreira chegou numa fase ruim. Depois de uma longa carreira com a Yamaha, o espanhol teve dois anos tumultuados com a Ducati antes de chegar na Honda em 2019. Jorge, porém, não encaixou com a RC213V e se despediu da MotoGP apenas com a 19ª colocação no campeonato ― melhor apenas que em 2002, seu ano de estreia no Mundial, quando fechou o campeonato das 125cc em 21º ―, com 28 pontos, 392 a menos que o campeão Marc Márquez.

Os números de 2019, nem de longe, refletem a comprovada qualidade de Lorenzo. Sendo assim, o 10+ desta terça-feira (19) listou dez momentos inesquecíveis da carreira do espanhol:

Jorge Lorenzo fez sua última corrida na MotoGP no GP da Comunidade Valenciana de 2019
(Foto: Red Bull Content Pool)

1) Desembarque no Mundial

 
Em seu discurso de aposentadoria, Jorge falou sobre quatro momentos importantes na vida de um piloto: a chegada ao campeonato, a primeira vitória, o primeiro título e o adeus. Sendo assim, a lista começa, claro, com o desembarque do espanhol no Mundial de Motovelocidade.
 
Lorenzo fez sua primeira corrida nas 125cc em 3 de maio de 2002, um dia antes de completar 16 anos. Correndo com uma Derbi, o então #48 se classificou em 33º e recebeu a bandeirada em 22º, 1min11s361 atrás de Lucio Cecchinello, o vencedor daquele GP da Espanha em Jerez.
 

2) Primeira vitória

 
A primeira vitória de Lorenzo no Mundial de Motovelocidade teve um toque de brasilidade. No GP do Brasil de 2003, a 26º corrida do piloto de Palma de Maiorca nas 125cc, Jorge provou o gosto do topo do pódio pela primeira vez. Aliás, aquele 18 de setembro em Jacarepaguá também marcou a primeira visita dele ao top-3.
 
Ainda correndo com a Derbi, Lorenzo recebeu a bandeira no extinto circuito carioca com 0s232 de vantagem para Casey Stoner. Alex de Angelis fechou o pódio de uma categoria que ainda tinha Dani Pedrosa, Andrea Dovizioso e Marco Simoncelli, por exemplo.
Yamaha foi a primeira casa de Lorenzo na MotoGP
(Foto: Red Bull Content Pool)

3) MotoGP: estreia e primeira vitória

 
Antes de chegar à MotoGP, Lorenzo fez três anos nas 125cc até chegar às 250cc. Na classe do meio, onde ficou por três anos, o espanhol conquistou dois títulos ― 2006 e 2007 ―, ambos com a Aprilia e, então, passou para a classe rainha, em 2008, já como titular da Yamaha, ao lado de Valentino Rossi.
 
No time de Iwata, além de arrumar confusão com o #46 ― que não estava muito interessado em ter um companheiro capaz de ameaçar sua batalha por títulos ―, Lorenzo teve um início primoroso: foi segundo na primeira corrida, o GP do Catar, 5s323 atrás do então campeão vigente Casey Stoner.
 
Na terceira corrida do ano, no Estoril, Jorge, ainda como #48, largou em décimo, mas escalou o pelotão para vencer com 1s817 de frente para Dani Pedrosa. Valentino Rossi completou o pódio naquele dia. 
 

4) GP da Catalunha de 2009

 
Ok, é estranho colocar uma derrota na lista de dez momentos de alguém com uma carreira tão bonita como a de Lorenzo, mas como deixar de fora um corridão daqueles?
 
Apesar de ter sido derrotado por Rossi, aquele 14 de junho faz parte da história da MotoGP. Jorge dificultou tanto a vida do companheiro de Yamaha que Valentino teve de criar um novo ponto de ultrapassagem para receber a bandeirada com 0s045 de frente.
 
 
GP da Catalunha de 2009 é uma das corridas mais memoráveis da MotoGP
(Foto: Yamaha)

5) O caso do afogamento

 
Muita gente implica com Lorenzo por conta da maneira como ele celebrou algumas de suas vitórias, afinal, parecia muito mais uma cópia de Rossi do que uma criação original.
 
Ainda assim, é justo dizer que Jorge protagonizou bons momentos, como em Jerez em 2010. Ok, talvez não tenha sido tão bom assim.
 
Naquele 2 de maio de 2010, Lorenzo achou que era uma boa ideia comemorar a vitória no GP da Espanha na última volta com um mergulho no lado de Jerez de la Frontera. Vestido. 
 
“Eu vi o lago na quinta-feira e pensei que seria divertido pular, achei que os fãs iam curtir, mas realmente não pensei no quão pesado eu ficaria com o macacão molhado. Por um minuto, achei que não fosse conseguir sair”, disse.
 
É, eu também.
 
 

6) O olimpo da MotoGP

 
Depois de bater na trave em 2009, quando foi derrotado por Rossi por uma diferença de 45 pontos, Lorenzo conquistou o primeiro título da MotoGP em 2010. Naquele ano, já devidamente vestindo o #99, Jorge venceu nove das 18 corridas do ano e conquistou outros sete pódios ― foi segundo cinco vezes e terceiro em duas oportunidades ―, somando 383 pontos, 138 a mais que Dani Pedrosa, o vice-campeão. 
Lorenzo conseguiu três vitórias com a Ducati
(Foto: Ducati)

7) Simoncelli preso?

 
Lorenzo sempre foi ― ou, pelo menos, fingia ser ― bastante esquentadinho, mas um de seus ‘rompantes’ ficou guardado na história. Em 30 de abril de 2011, Jorge aproveitou uma coletiva pós-classificação em Estoril para criticar a postura de Marco Simoncelli na pista. 
 
“Se não acontecer nada no futuro, não é um problema para mim, mas, se no futuro acontecer alguma coisa com você, vai ser um problema”, disse Lorenzo.
 
Sentado do lado direito do #99, Marco foi rápido na resposta: “Ok, eu serei preso”. E arrancou risos da plateia. Inclusive do então piloto da Yamaha.
 
Lorenzo não tinha como saber, claro, mas meses depois, em 23 de outubro, Simoncelli morreu em decorrência de um acidente no início do GP da Malásia. Jorge, então, compareceu ao funeral em Coriano, na Itália, e deixou uma mensagem no livro de condolências: “Sentirei sua falta para sempre. Lamento que tenhamos discutido”.
 
Na época, Jorge também condenou uma declaração do pai, Chicho, que tinha chamado Simoncelli de “um piloto perigoso” após o acidente fatal de Sepang. “Gostaria de agradecer aos fãs pela recepção que me deram, o que me deixa ainda mais envergonhado dos comentários do meu pai, que foram fora da linha. Espero que ninguém pense que concordo com o que ele diz, pois isso, infelizmente, poderia ter acontecido com qualquer um de nós”, escreveu no Twitter na época.
 
 

8) Vitória vermelha

 
Entre as 47 vitórias de Lorenzo na MotoGP, uma merece destaque: a primeira com a Ducati. Depois de nove temporadas com a doce YZR-M1, o #99 teve dificuldades para se adaptar com a endiabrada Desmosedici. 
 
Contratado a peso de ouro pela marca de Bolonha, Lorenzo fez uma primeira temporada decepcionante, com apenas três pódios. Em 2018, porém, Jorge conseguiu se entender melhor com a GP18 e venceu o GP da Itália ― sim, na casa da Ducati  ― ao bater Andrea Dovizioso por 6s370.
 
Claro, o time italiano celebrou o feito, mas ficou o climão com Claudio Domenicali, que volta e meia fazia criticas ao piloto.
 
Domenicali, aliás, foi o alvo da célebre frase: “Eu não sou um grande piloto, sou um grande campeão”.
Lorenzo e Rossi tiveram uma convivência tumultuada nos primeiros anos de parceria
(Foto: Yamaha)

9) Sempre Assen

 
Uma queda não entraria na lista de grandes momentos de Lorenzo se não tivesse tido importância chave no desfecho da carreira dele. 
 
Em 28 de junho passado, Lorenzo perdeu a frente da RC213V na curva 7 de Assen durante o primeiro treino livre e sofreu uma queda violentíssima. O espanhol acabou com fraturas de vértebra e acabou perdendo algumas corridas.
 
Ao anunciar a aposentadoria, Jorge confirmou que enquanto rolava na brita, questionou se valia a pena seguir adiante.
 
Anos antes, em 2013, a Holanda foi palco de outro ato memorável da carreira de Lorenzo. O espanhol fraturou a clavícula em uma queda, voou para Barcelona para uma cirurgia e, 30 horas depois, conquistou o quinto lugar em uma corrida heróica.
 
 

10) O dia do adeus

 
Na última quinta-feira, Lorenzo sequer precisou falar para que as pessoas soubessem que ele deixaria a MotoGP. No instante em que a Dorna enviou o convite de uma coletiva de imprensa com o piloto e Carmelo Ezpeleta, o público entendeu do que se tratava: o adeus era questão de dias e não anos. 
 
Costumeiramente sincero, Lorenzo não escondeu suas emoções e anunciou a despedida, reconhecendo que tinha decepcionado a Honda e que não tinha mais paciência para “escalar a montanha”.
 
No domingo, após mais uma corrida bastante aquém da comprovada capacidade de Jorge, o #99 disse que se sentia livre e celebrou deixar o Mundial inteiro.
 
Esportivamente, não foi um fim à altura do tricampeão. Mas não é por isso que não foi bonito. 
 
Jorge Lorenzo vai entrar para o rol das Lendas da MotoGP em 2020
(Foto: Red Bull Content Pool)