Acidente, título e dica da mãe: Fraga, 100 corridas

Felipe Fraga alcançou no Velo Città 100 corridas na Stock Car - com vitória na 99, a primeira da rodada dupla. E quais são as principais lembranças do campeão de 2016? Ele contou ao GRANDE PREMIUM, com histórias sobre dicas da mãe, lágrima, vitórias e, claro, o título

Felipe Noronha, do Velo Città

Felipe Fraga completou no último domingo (23), no Velo Città, 100 corridas na Stock Car (com vitória na 99, inclusive, a primeira da rodada dupla no interior paulista). O piloto estreou aos 18 anos, em 2014, quando nem CNH possuía - e venceu logo na sua primeira corrida, então com a Vogel.

Desde então, já se mudou para a Cimed, venceu mais, se acidentou, ganhou o 'Milhão', derrotou um ídolo, recebeu dica especial da mãe e conquistou um título. Em 2018, briga pelo bicampeonato e fez a ultrapassagem mais bonita da temporada até aqui.

O que ele guardou destes quase cinco anos na categoria? O GRANDE PREMIUM perguntou e ele relembrou, contando a história de sua carreira de maneira diferente e especial.

Felipe Fraga celebrou 100 corridas indo ao pódio no Velo Città
Fernanda Freixosa/Vicar

Vitória na Corrida do Milhão de 2016

 
"Eu disputava com o (Rubens) Barrichello o título, e eu sou fã dele desde molequinho, sempre admirei a carreira dele. Então disputar uma corrida inteira, valendo R$ 1 milhão, mais uns pontinhos no campeonato, foi muito legal. E foi difícil: eu olhava no retrovisor, aí falava 'vou ficar cinco voltas sem olhar no retrovisor', mas quando eu olhava ele estava exatamente no mesmo lugar. Foi inesquecível e muito difícil - mais mentalmente, já que eu pensava: 'o cara não erra nunca'. Eu acho até que ele errou na última volta e perdeu por isso, ele tinha um push a mais que eu e acabou passando reto. Foi muito legal."
 

Estreia na Stock Car com vitória em Interlagos - Corrida de Duplas de 2014, ao lado de Rodrigo Sperafico

 
"Foi muito emocionante. Fiz uma tomada de tempo legal, quinto tempo. Depois, no combinado, fiquei entre os quatro, se não me engano. Foi muito legal, porque nos treinos choveu e eu eui muito mal na chuva. Eu acho que a altura do carro não estava legal, estava muito baixo. Eu fiquei morrendo de medo. No dia da corrida começou a chover na hora da largada e colocamos os pneus de chuva. Fiquei desesperado, já pensei: 'Não vou bem na minha estreia...'.  Mas deu tudo certo, o carro estava perfeito. No começo fui seguindo os ponteiros e depois vi que meu carro tinha mais aderência que o dos outros. Ultrapassei uns quatro para vencer, foi muito emocionante."
 
 

Pole-position em Cascavel, 2018

"Porque foi fruto de muito trabalho meu e da equipe. A gente vinha sofrendo nos Q3, tinha um carro bom e não conseguia. Eu fui para a corrida de Suzuka com a GT3 e consegui colocar o carro na super-pole. E na hora dela eu fiz uma volta péssima, não acreditei que o carro poderia melhorar mesmo depois de ir três vezes para a pista. E lá eu entendi porque eu perdi a pole em Campo Grande (uma corrida antes de Cascavel). Então eu usei esse aprendizado em Cascavel e deu certo. Então essa é uma história bem legal. Eu vi que dava sim, quando o carro está bom, para ir melhorando cada vez mais. Saber a hora de poupar, a hora de acelerar, então essa pole para mim é inesquecível, pois foi muito difícil, não confiava que ia sair e acabou saindo."

Vitória na corrida 1 de Goiânia em 2014

"Eu venci largando em sexto nessa corrida. Consegui umas duas ultrapassagens e depois, nos boxes, a gente conseguiu fazer uma estratpégia muito diferentes das dos outros. Eu acabei tendo que economizar combustível depois, mas ganhei a corrid.a Foi uma das vitórias com o Mauro Vogel, então foi muito especial vencer com ele. Muita coisa que sei hoje como piloto aprendi com o Mauro, foi muito legal poder criar essa história lá."

Felipe Fraga em um dos seus triunfos na Stock Car
Bruno Terena/Red Bull Content Pool

O medo na hora do título de 2016

"O momento do título foi o momento em que mais fiquei com medo na minha vida. Porque em 2016 eu tinha muita pressão em cima de mim. Em 2015, quando fui contratado pela Cimed, todo mundo falava 'ele é bom, ele é isso, ele é aquilo', e eu não conseguia aplicar nada. Foi horrível meu ano, eu só me ferrava. O Marcos Gomes fazia a pole e eu ficava em 15°. Era muito difícil para mim, eu sentia uma 'inveja', sabe? Era difícil para mim aceitar que ele ia tão bem, e eu via todo mundo comemorando e até me arrepiava. Eu falava: 'não é possível. Será que sou eu que não estou conseguindo?'. E aí eu tive aquele acidente. E depois aquilo, com um carro novo, mudou minha vida (Fraga se envolveu em acidente em Curitiba com outros três pilotos: Thiago Camilo, Raphael Matos e Felipe Lapenna.Ele e Camilo precisaram sair de maca da pista). Tudo começou a encaixar, tudo começou a ir melhor. Só que aí, em 2016, eu fiquei com muita pressão, porque eu estava com 33 pontos (de vantagem) na liderança, faltavam três corridas e eu fiquei muito nervoso. Não podia quebrar, não podia errar, porque se eu der uma erradinha o Barrichello (vice) vai chegar em mim."

Dica da mãe em Curvelo, 2016

"Teve um momento muito difícil: Curvelo (penúltima etapa do ano). Quando minha mãe falou comigo. E desse dia para cá eu virei outro piloto, porque ela sempre tentou me acalmar muito e eu estava muito nervoso. E ela disse para mim: 'Felipe, o que é para ser seu, vai ser seu. Não fica se culpando, se pressionando. Só faz seu melhor. Se seu melhor hoje for último, é isso. Trabalha mais para a próxima. Para de ficar se cobrando'. Então eu sempre lembro da minha mãe quando eu tenho um momento difícil. Quando fica meio difícil, meio complicado, eu meio que 'ligo o foda-se': 'É isso que vai dar, é isso que eu vou fazer e seja o que eu Deus quiser'. Então acho que hoje eu corro mais leve, sem pressão. Então foi em Curvelo, uma corrida bem especial, corri tranquilo e acho que fiquei 4 décimos abaixo do segundo, talvez o que mais tenha colocado tempo nos últimos anos."

A melhor ultrapassagem: Campo Grande, 2018

 
A ultrapassagem (sobre Daniel Serra) de Campo Grande foi bem legal. Eu usei o push, é o que dá mais potência,. Mas eu tive que me jogar na freada e foi um momento até meio irresponsável meu, porque foi aquela coisa: ou ia tudo, ou nada. Então me comprometi com isso e eu sabia que tinha que vencer uma corrida do Daniel (de fato, venceu a corrida 1). Porque ele já vem há tantos anos, dois anos, sem perder nada. Ele é pole, ele ganha. Se dá tudo errado no começo da corrida, acontece alguma coisa, vai lá e aparece o Daniel de novo. Então eu precisava vencer essa corrida até para mim mesmo. Acho que ali começou essa chegada nossa nele, foi muito importante."

 

O acidente em Curitiba, 2015

 
O (momento mais) mais difícil foi o acidente. Estava dando tudo errado já, eu não conseguia um resultado bom, e aí fui e dei aquela 'panca' lá, quase me matei. Quando cheguei em casa eu fiquei muito mal, comecei a falar 'não é possível que está dando tudo errado para mim. Eu vou mal, eu erro e ainda dou uma batida dessa'. Prejuízo para a equipe... Não sabia se ia continuar na equipe depois. Mas aí veio o carro novo que me proporcionou tudo isso (o título no ano seguinte)."
 

A tristeza em Santa Cruz do Sul, 2018

 
O momento mais triste da minha carreira foi em Santa Cruz nesse ano, por incrível que pareça. Eu estava muito bem nos treinos, se você pegar foi a corrida em que o Marcos Gomes bateu o recorde de pontos (em rodada dupla) e eu estava sempre ali com ele, só um pouquinho mais lento. E aí quebrou o motor na classificação. Acho que nunca chorei por causa de corrida, só por alegria, mas naquele dia, sei lá, parece que fui traído, foi difícil. Porque a gente estava trabalhando, as coisas  estavam quase encaixando, e aí quando achei que ia dar uma pole quebrou o motor. Para mim foi muito difícil, pensei que já havia acabado o campeonato, para ser sincero, mas foi bom que alguém deu um tapa na minha cara e eu vi que não havia acabado ainda."

Momento "faço parte daqui"

"Acho que o momento em que me senti confortável foi no meio do ano (de estreia), com a Vogel, em Salvador. Fiz um pódio na rua. Larguei em quinto e consegui ficar em segundo. Quase ninguém fez ultrapassagem ali e eu consegui fazer várias.  Na hora em que eu pude ultrapassar o (Allam) Khodair, de um safety-car. Mas aquela corrida foi muito interessante, porque era na rua, o nosso carro não era tão bom naquela temporada, mas na rua a gente conseguiu fazer um acerto diferenciado e eu me senti bem confortável, 'eu consigo andar com esses caras'."

Felipe Fraga no pódio com Rubens Barrichello e Valdeno Brito, em 2016
Bruno Terena/Red Bull Content Pool