Os maiores vexames da Indy 500

Dez vezes em que pilotos, equipes e até o Pace Car erraram feio ou foram extremamente lentos nas 500 Milhas de Indianápolis - incluindo Alonso e a McLaren de 2019

Renan Martins Frade, de São Paulo

A McLaren e Fernando Alonso não se classificaram para as 500 Milhas de Indianápolis. O resultado, por parte de um time multicampeão (inclusive no Brickyard) e de um bicampeão mundial de Fórmula 1, é um vexame.

Aproveitando o gancho, o GRANDE PREMIUM relembra aqui dez grandes vexames que aconteceram na famosa prova do automobilismo mundial. Spoiler: o resultado do time britânico está na lista, claro.

Sato roda durante a disputa com Franchitti, em 2012
IndyCar

10) Batida de Takuma Sato na última volta, em 2012

Começamos por um fato que, diria, fica em uma “área cinzenta” - pode ser considerado um vexame, mas é necessário ressaltar que aconteceu durante uma disputa de corrida e, convenhamos, arriscar faz parte da briga pela vitória.

Em 2012, Scott Dixon, Dario Franchitti (ambos ainda na Chip Ganassi), Takuma Sato (então na Rahal Letterman Lanigan Racing) e Tony Kanaan (KV Racing) lutavam pela vitória em um final espetacular. Ambos os pilotos da Ganassi trocavam de posição constantemente, enquanto o japonês se aproximava. Faltando duas voltas, Franchitti e Sato deixaram Dixon e Kanaan para trás. A luta pela vitória se resumia apenas aos dois.

Logo após receber a bandeira branca indicando a última volta, Takuma colocou do lado esquerdo de Dario e entrou na curva 1 por dentro. Em seguida, o Dallara DW12 da Rahal Letterman Lanigan escorregou de traseira e encontrou o muro.

Depois da corrida, o japonês argumentaria que o adversário o jogou para grama, provocando a rodada. Os comissários não aceitaram o justificativa e confirmaram o resultado oficial - Takuma Sato acabou apenas em 17º. Trocou o segundo lugar certo pela tentativa de vitória, e deu errado. 

Os primeiros foram Franchitti, Dixon e Kanaan, nessa ordem - três dos quatro grandes amigos da Indy, ao lado de Dan Wheldon, que havia morrido meses antes. De certa forma, houve uma poesia no resultado final. E Sato venceria a Indy 500 em 2017. Todos tiveram o seu final feliz. 

Alesi e seu DW12 com o fraco motor Lotus
IndyCar

9) A lentidão de Jean Alesi em 2012

Ainda em 2012, a Lotus fez um acordo para ceder o seu nome para motores produzidos para a Indy a partir da parceria entre a Judd e Jack Brabham. Só que as unidades de potência eram extremamente fracas.

Em paralelo, a mesma Lotus resolveu levar o veterano Jean Alesi para o Brickyard. Como nenhum time se dispôs a preparar um carro para o francês, eles fecharam um outro acordo, agora com Fan Force United, que competia na Indy Lights. Era uma tragédia tão anunciada que Alesi chegou a ser reprovado no programa de orientação de novatos do Speedway, passando apenas na segunda tentativa.

Na classificação, o francês teve a tentativa abortada. Já no Bump Day, o ex-F1 alcançou a velocidade média de apenas 210,094 mph - ou 338,11 km/h. Foi 13,7 mph (22 km/h) a menos que o melhor tempo naquele dia, e 16,4 (26,3 km/h) menos que a pole de Ryan Briscoe, da Penske.

Por sorte (ou não), apenas 33 carros tentaram a classificação naquela edição das 500 Milhas, o que garantiu Alesi no grid de largada. A alegria não durou muito: o francês (junto com Simona de Silvestro) recebeu a bandeira preta após apenas nove voltas, justamente por estar rodando acima dos 105% da velocidade do líder. 

Foi o fim da carreira de Alesi na Indy e nos ovais.

 

8) Jigger Sirois, que não ficou com a pole em 1969 por um erro da equipe

Esta história é, no mínimo, curiosa. As 500 Milhas são famosas por ter uma classificação longa, em um formato que já mudou diversas vezes. Em 1969 as coisas eram mais simples, até: quem fosse o mais rápido no primeiro dia de classificação era o pole e pronto.
 
A chuva ia e vinha naquele dia 17 de maio. Quando as condições melhoraram e a pista secou, foi liberada a ida dos pilotos à pista. O primeiro a ter a chance de tentar a classificação era o rookie Leon Duray “Jigger” Sirois, com um Gerhardt-Offenhauser com patrocínio da Quaker State Oil. Ele foi para lá fazer quatro voltas rápidas, do mesmo jeito que é hoje, mas ao final da terceira a sua equipe abortou a tentativa. Achavam que não havia velocidade suficiente para se classificar entre os 33 primeiros. Era melhor retornar para a garagem, ajustar o carro e tentar novamente mais tarde.
 
Acontece que não houve “mais tarde”. Um segundo piloto até que foi pra pista, mas abortou a tentativa logo de cara. A chuva voltou em seguida e ninguém mais treinou naquele dia. Caso tivesse completado a quarta volta, pelo regulamento, Jigger Sirois seria o pole position. Não foi. Depois, o piloto não conseguiria ficar entre os 33 mais rápidos e nem largou no dia 30 de maio.
 
O caso é, até hoje, considerado um dos grandes erros de estratégia da Indy 500. Sirois tentaria participar da prova até 1975, mas nunca conseguiu se classificar. Depois, o nome dele seria utilizado no Jigger Award, um “prêmio” reservado aos grandes erros no Speedway. 
 
Vale dizer que, em 1991, Roger Penske cometeu um erro parecido: abortou a primeira tentativa de Emerson Fittipaldi antes mesmo dele ir para a pista. Em seguida veio a chuva, tirando a chance do brasileiro brigar pela pole. 
 
 

7) Lloyd Ruby preso pela mangueira de combustível enquanto liderava, em 1969

Podemos dizer que a edição de 1969 das 500 Milhas foi “mágica”, só que pelos motivos errados. É que no mesmo ano aconteceu um outro grande vexame. Lloyd Ruby, em um Watson-Offenhauser preparado por J. C. Agajanian, disputava com Mario Andretti a liderança já na segunda metade da prova.
 
Na volta 105, Ruby foi para os pits, reabastecer. Ele partiu com o tanque cheio, mas com a mangueira ainda presa ao carro. O incidente causou um enorme buraco no tanque de combustível do bólido, o que fez com que o piloto abandonasse. 
 
A partir daí, Andretti liderou e venceu com certa facilidade. Foi a única vitória do famoso piloto no Speedway, e também a única conquista do clã Andretti por lá. Já Lloyd aprofundou a sua fama de azarado, competindo em Indianápolis até 1977 - sem nunca conquistar nada no circuito.
A surreal foto do Pace Car desgovernado, feita momentos antes dele atropelar os próprios fotógrafos
Indy Star

6) O Pace Car desgovernado de 1971

Este é um vexame trágico, apesar de não ter causado nenhuma vítima fatal.
 
Até então, GM, Ford e Chrysler, as chamadas três grandes da indústria automotiva dos EUA, se alternavam no posto de Pace Car oficial das 500 Milhas de Indianápolis. Porém, em 1971, o mercado de muscle-cars estavam em declínio, em um prelúdio da Crise do Petróleo de 73. Quem socorreu a organização foi um pequeno revendedor da região, chamado Eldon Palmer e especializado em Dodges. 
 
Palmer forneceria um Dodge Challenger 383-4V para o posto de Pace Car, mas havia uma condição: ele próprio ser o piloto. O Indianápolis Motor Speedway não só concordou, como colocou o seu presidente, Tony Hulman, no carro, além do astronauta John Glenn e um repórter da transmissão da ABC. 
 
Na teoria parecia fácil: Palmer teria que andar à frente dos 33 carros, acelerando progressivamente, e ir para os pits pouco antes da largada, desacelerando a partir de um ponto sinalizado com um cone pelos organizadores. Acontece que, no dia da corrida, alguém tirou a marca, o que confundiu o revendedor - ele freou muito tarde, a mais de 200 km/h, e não conseguiu parar antes de atingir a arquibancada que abrigava os fotógrafos da imprensa. Na época, vale lembrar, o carro era equipado com freios a tambor e não existia a tecnologia do ABS. 
 
Foram 29 feridos, dois com gravidade - e Tony Hulman acabou com um tornozelo torcido. Já Palmer continuou com o carro, que seria vendido a um colecionador em 2006. O revendedor de carros morreu apenas recentemente, em 2016.
 
A participação de Alonso na Indy 500 de 2019 se resumiu aos treinos e às fotos promocionais
McLaren

5) Alonso e McLaren não se classificando em 2019

Aqui entra o vexame da McLaren e de Fernando Alonso. Após a boa participação em 2017, em parceria com a Andretti, a McLaren se aventurou no Brickyard em 2019 com o apoio da pequena Carlin. A partir daí houve uma série de erros da equipe, claramente mais focada na Fórmula 1 e deixando a aventura na Indy em segundo plano.
 
Zak Brown, diretor-executivo da McLaren, elencou uma longa lista de erros. Porém, nos livros de história, ficará registrado que um bicampeão mundial, ao lado de um time multicampeão, foi eliminado da Indy 500 no Bump Day por um piloto - Kyle Kaiser - que corria sem patrocínios em um carro remendado pela Juncos após um forte acidente do piloto na sexa-feira. 
 
O resultado é ainda pior quando lembramos que, nos anos 1970, a McLaren conquistou duas vitórias nas 500 Milhas enquanto equipe, mais uma como construtora - na primeira conquista de Roger Penske no Speedway
Unser Jr. com um Lola emprestado e com adesivos da Marlboro improvisados nas cores da Rahal
Reprodução

4) Penske não se classificando em 1995

A edição de 1994 das 500 Milhas de Indianápolis foi polêmica por conta de uma brecha no regulamento explorada pela Penske, trazendo um motor Mercedes muito mais potente que os concorrentes - em uma história que também contamos com mais detalhes aqui no GP*
 
Aquele motor foi proibido para 1995 e a equipe retornou ao circuito com os tradicionais V8. No entanto, essa mudança não só revelou as deficiências do chassi da Penske no oval, como os deixou defasados em relação às informações de pista, quando comparados com os rivais. 
 
Quando começaram os testes no Brickyard, Emerson Fittipaldi e Al Unser Jr., os pilotos do time, não encontraram a velocidade necessária para serem competitivos. O brasileiro chegou a testar o carro do ano anterior, mas continuava lento. Frustrados, os dois simplesmente não foram para a pista no Pole Day - que, naquele ano, durou dois dias.
 
Desesperado, Roger Penske fechou uma parceria com a Rahal-Hogan, que forneceria dois chassis Lola reservas para os pilotos do concorrente. O terceiro dia de classificação foi na semana seguinte, no sábado, e nenhum dos deles garantiu um lugar no grid.
 
No dia seguinte aconteceu o Bump Day, no qual seriam fechados os três últimos lugares na prova. Little Al e Emmo tentaram diversas vezes, inclusive com um chassi emprestado pela obscura Pagan Racing, mas não conseguiram se classificar. 
 
A gigante Penske, com os campeões das três edições anteriores da prova, havia ficado de fora das 500 Milhas de Indianápolis. É um vexame que tem paralelo com o da McLaren em 2019, até porque ambos envolvem um piloto bicampeão da F1.
 
Vale dizer que, a partir de 1996, a Indy 500 passaria a fazer parte da Indy Racing League, na divisão que aconteceu no automobilismo dos EUA. A Penske retornaria ao Brickyard apenas em 2001 - para ser a campeã com Hélio Castroneves. 
 
 

3) Roberto Guerrero, o pole de 1992, rodando na volta de apresentação

O colombiano Roberto Guerrero é um dos mais “curiosos” pilotos da história, para dizer o mínimo. Com fracos resultados na F1, ele foi se aventurar na Indy - onde até que conseguiu duas vitórias, ambas em 1987, mas não foi muito além disso.
 
O outro grande resultado Guerrero foi, justamente, na Indy 500 de 1992. O colombiano competia pela pequena King Racing com um chassi Lola e um motor Buick - famoso pela enorme potência que entregava em poucas voltas, mas também por quebrar com facilidade e pelo alto consumo. O piloto andou como nunca naquele sábado de maio, marcou o recorde da pista e, em seguida, parou no meio do circuito, sem combustível. A pole era dele. 
 
Um sonho que virou pesadelo. Na corrida, ainda na segunda volta de apresentação, o colombiano foi balançar o carro para aquecer os pneus. Acabou perdendo o controle e batendo. Na reta. Um vexame. 
 
Roberto Guerrero correria nos EUA até 2001, sem nunca mais conseguir um outro resultado relevante. 
A Penske era dominante em 1994
Reprodução

2) Batida de Fittipaldi na Indy de 1994

Voltamos à Indy 500 de 1994, história contada em mais detalhes aqui no GP*. Naquele ano a Penske tinha um carro dominante, em uma briga pela vitória que basicamente se resumiu à dupla de pilotos da equipe: Emerson Fittipaldi e Al. Unser Jr.
 
O brasileiro estava com um desempenho ainda mais avassalador, chegando a colocar uma volta de vantagem em todos os adversários, incluindo Little Al. Havia, porém, um twist: o #2 não tinha combustível até o final e precisaria fazer um splash and go para completar as últimas quatro voltas, ou torcer para uma longa bandeira amarela. Já Unser Jr. havia reabastecido pouco antes e podia acelerar livremente. 
 
O #31 então descontou a volta atrás, com o norte-americano dando tudo de si para ultrapassar o bicampeão mundial no momento da eventual parada. Foi aí que Fittipaldi errou, talvez desconcentrado pela necessidade de economizar combustível, pela pressão colocada pelo companheiro de equipe ou pelo torque excessivo do novo motor Mercedes. Seja qual for o motivo, o brasileiro acabou acertando o muro. A vitória estava perdida. O leite do vencedor era de Al Unser Jr.
 
Aquela acabaria sendo a última vez de Emerson no Speedway. Como você já leu, a Penske não se classificou para a edição de 1995. Em 1996, último ano do brasileiro na categoria, a Indy 500 foi para o calendário da rival IRL. 
A improvável final da Indy 500 de 2011
IMS

1) J.R. Hildebrand batendo na última volta da Indy 500 de 2011

A edição 2011 das 500 Milhas de Indianápolis foi uma das mais empolgantes da história. Nas últimas voltas, o rookie J.R. Hildebrand, então na Panther Racing, liderava à frente de Dan Wheldon, já na Bryan Herta Autosport. 
 
Faltando duas voltas para o fim, Hildebrand tinha 2,8s de vantagem em relação a Wheldon, o que é uma distância relativamente confortável no oval. O norte-americano manteria a liderança até a curva quatro da última volta, quando foi ultrapassar um extremamente lento retardatário Charlie Kimball. J.R. errou o cálculo, pisou na parte suja da pista, perdeu o controle e acertou o muro em cheio.
 
Hildebrand continuou acelerando o carro mesmo após a batida, tentando controlar no volante enquanto raspava no muro e recebia a bandeira quadriculada. Não adiantou: Wheldon o ultrapassou e venceu com 2,1s de vantagem, tendo liderado apenas uma volta - para ser mais exato, os últimos metros da última. Uma conquista surpreendente, a segunda do inglês - que morreria meses depois, em um trágico acidente em Las Vegas. Também foi a única vitória da Herta no Brickyard. Hoje, a equipe continua existindo apenas por conta de uma parceria com a Andretti.