Os recordes mais inusitados da F1

Max Verstappen conseguiu ser tornar o mais jovem piloto a fazer uma volta rápida na Fórmula 1, uma marca que está bem longe de ser a mais estranha da categoria

Renan Martins Frade, de São Paulo

O último GP do Brasil de Fórmula 1 foi emocionante por diversos fatores, apesar de nenhum deles ter envolvido a liderança da corrida. Na pista, o grande ponto alto foi Max Verstappen, que empreendeu um ritmo espetacular no final da prova. Foi o suficiente para colocar o nome do holandês mais uma vez nos livros de história, agora como o mais jovem a conseguir uma volta mais rápida na categoria. 

Ok. Legal. Mas provavelmente teve muita gente se perguntando: "Qual é a aplicação real de tal marca?". Bom, se você considerar que, atualmente, a volta mais rápida é apenas a união de fatores como pneus novos e carro com pouco combustível no taque ao final de um GP, nada é nada. Ainda mais porque Verstappen já tem o recorde de piloto mais jovem a conseguir uma vitória, o que é muito mais representativo. Mas tá lá, registrado. E não é só isso, não.

Por ser uma categoria sexagenária – o primeiro mundial foi disputado em 1950 – a Fórmula 1 possui uma lista longa de recordes, alguns deles estapafúrdios e sem qualquer  embasamento para definir quem foi o melhor ou o pior na história. Mas, ao menos, são uma ótima fonte de curiosidades. Ou de alguns risos, se preferir assim.

Que tal, então, conhecer alguns desses recordes pouco lembrados?

 
Button no GP do Canadá de 2011
Divulgação / McLaren

1) GP mais lento e com mais safety cars

O GP do Canadá de 2011 é famoso por ter sido aquele que ficou parado por cerca de duas horas, por conta da chuva pesada que caía em Montreal, além de ter sido a corrida que Jenson Button venceu liderando apenas uma volta – a última.

Essa corrida marca também dois recordes curiosos da F1. O primeiro é que este foi o GP com a menor velocidade média para o vencedor, com 74,864 km/h. O tempo de bandeira vermelha também conta para o tempo de prova e essa velocidade é apenas uma média aritmética entre a distância percorrida e o tempo total de corrida. Além disso, também houve o recorde de safety cars: seis.

Há ainda outros recordes que marcam a prova canadense, mas esses são mais famosos ou não tão bizarros assim. O GP foi o mais longo da história, com 4h04min39s (motivando, inclusive, uma nova regra na qual as provas da F1 só podem ter um máximo de quatro horas de duração total), e aquele que teve o maior número de pit stops para um vencedor, seis. 

Cevert vencendo o GP da Alemanha de 1971
Arquivo

2) GP com o menor número de voltas

O circuito original de Nürburgring era um monstro. Em sua configuração original mais longa, chamada de Gesamtstrecke, eram 28.265 metros. O Nordschleife, usado na F1 entre os anos 1950 e 1970, compreendia 22,8 km, que eram contornados em cerca de sete minutos pelos pilotos da categoria.

A segurança já era uma preocupação importante naqueles tempos e, para 1971, melhorias foram feitas no circuito, além do GP da Alemanha ter a extensão diminuída de 14 para 12 voltas – o que deu 274 km no total. Essa foi a corrida mais curta, em número de voltas, da F1 e foi vencida por François Cevert, da Tyrrel.

No ano seguinte a corrida alemã voltou a ter 14 voltas – ou 319 km. Com o acidente de Niki Lauda em 1976, o velho traçado de Nürburgring foi abandonado no mesmo ano.

3) O vencedor e o pole position mais velhos de um GP

Max Verstappen representa, de certa forma, uma era na qual os jovens se destacam na Fórmula 1, mas nem sempre foi assim. Lá nos 1950, quando os pilotos não eram tratados como atletas, a história era outra. Eram os velhinhos que dominavam.

O piloto mais velho a vencer um GP foi o italiano Luigi Fagioli, que tinha 53 anos e 22 dias quando cruzou a linha de chegada em primeiro na França, em 1951.

Essa foi a primeira e última vitória de Fagioli, além de ter sido a última corrida da carreira dele. Na verdade, o italiano nem venceu sozinho. Ele dividiu a Alfa Romeo com Juan Manuel Fangio, que tinha 40 anos na época. Foi a primeira das três vezes nas quais dois pilotos venceram, juntos, um GP da F1. Outros tempos.

Outro “velhinho” que mandava bem naqueles tempos era Giuseppe Farina, o campeão mundial de 1950. É dele o recorde do piloto mais velho a conseguir uma pole position. Nino tinha 47 anos e 79 dias ao ocupar a posição de honra do GP da Argentina de 1954. 

Larini correndo pela Ferrari
Ferrari

4) O piloto que mais demorou para marcar pontos

Esse aqui é um recorde perigoso, por diversos motivos. Para começar, nos primeiros anos da F1, apenas os cinco primeiros pontuavam. Depois, por muito tempo, eram os seis primeiros. Só em épocas mais recentes passamos para esta farra que é hoje, com pontos para os dez primeiros. Além disso, conquistar este recorde significa que o piloto, por mais que tenha demorado, conseguiu algum ponto na F1 – são diversos os casos de competidores que se aposentaram sem conseguir nenhum.

Ainda assim, é um recorde. E ele é de Nicola Larini, que conseguiu o primeiro pontinho no GP de San Marino de 1994, o 44º da carreira do italiano que, a esta altura, estava na Ferrari substituindo um machucado Jean Alesi. Sim, foi a mesma corrida que vitimou Ayrton Senna.

Na verdade, nem dá pra dizer que foi um pontinho: foi um segundo lugar, o melhor resultado da carreira do piloto, que se aposentaria com 75 GPs e sete pontos no currículo.

O 'maior' piloto no quesito 'mais GPs sem pontos' é outro italiano com história na Ferrari: Luca Badoer. Foram 58 corridas fora da zona de pontuação, mas, se o critério de hoje já estivesse valendo nos anos 1990, Badoer teria conseguido a marca em sua quarta prova na categoria. 

Amon pilotando pela Tecno
Arquivo

5) Quem pilotou pelo maior número de construtores

Chris Amon é famoso entre os fãs de automobilismo por ser um azarado. O neozelandês, que morreu agora em 2016, acumulou problemas em diversas corridas, culminando com uma carreira sem vitórias em provas válidas pelo mundial. Ele só venceu em duas provas extracampeonato.

Até por isso, Amon tem o recorde de maior número de voltas lideradas em toda a carreira sem nunca ter tido uma vitória: 183. Ele também tem o maior número de poles de um piloto que nunca venceu, cinco.

Só que tem outro recorde de Amon, que talvez explique um pouco essa falta de vitórias. O piloto é aquele que dirigiu pelo maior número de construtores diferentes na história da F1, 13. Lola, Lotus, Brabham, Cooper, Ferrari, March, Matra, Tecno, Tyrrel, BRM, Ensign, Wolf-Williams e a sua própria Amon construíram os carros dirigidos pelo francês. Isso numa época na qual 'equipe' e 'construtor' não eram palavras intercambiáveis na categoria, com Amon, por exemplo, pilotando carros da Lotus para a Reg Parnell Racing.

Vettel correndo pela BMW-Sauber em 2006
BMW

6) Menor tempo entre a estreia na F1 e a primeira infração

Em 2008, Sebastian Vettel se tornou o mais jovem piloto a vencer um GP – feito já superado por Max Verstappen. Em 2010, o alemão se tornou o mais jovem campeão da história da categoria. Hoje, ele ainda é o tetracampeão mais jovem da F1.

Só que tem outro recorde do cara, esse bem menos conhecido.

Em 2006 Vettel foi chamado pela BMW-Sauber para ser o “piloto de sexta-feira”, com direto a andar pelo circuito no primeiro dia de atividades, no GP da Turquia. A promoção ocorreu após Robert Kubica, que tinha essa função anteriormente, substituir Jacques Villeneuve no time titular.

Na primeira saída de pista do primeiro treino livre do primeiro GP que participou, Seb ultrapassou o limite de velocidade dos pits. Ao todo, a carreira do alemão tinha NOVE segundos quando cometeu a primeira infração. Tá aí um recorde bem difícil de ser quebrado, também.

Masahiro Hasemi no GP do Japão de 1976
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7) O piloto que teve 100% de voltas mais rápidas – sem ter feito a volta rápida

Nem sempre a F1 foi essa organização e ápice da tecnologia que conhecemos hoje. Já foi, no passado, palco para iniciativas aventureiras e erros homéricos.

Em 1976, ano do primeiro GP do Japão, o construtor local Kojima Engineering resolveu colocar o próprio carro na pista para participar da prova. Pode parecer estranho imaginar isso hoje em dia, mas o Kojima KE007 não fez feio, colocando o piloto Masahiro Hasemi na décima posição do grid.

A façanha não acabou por aí: Hasemi conseguiu a volta mais rápida na prova. Como ele nunca mais voltou a pilotar na F1, foi um aproveitamento de 100% em voltas mais rápidas na carreira. 

Ou quase isso. É que, vários dias depois, a organização da corrida reconheceu que houve um erro na aferição dos tempos e que, na realidade, Jacques Laffite, da Ligier, tinha feito a volta mais rápida. Só que, num mundo bem mais distante do que o de hoje, a informação quase não teve repercussão fora do Japão. Por muitos anos, a FIA continuou creditando Masahiro Hasemi com a façanha dos 100% de voltas mais rápidas na carreira. Apenas recentemente a informação foi corrigida no site oficial da categoria. 

Andrea de Adamich no GP da África do Sul de 1968
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8) A temporada que começou mais cedo – e aquela que terminou mais tarde

Outro reflexo da desorganização de tempos passado – ou, melhor dizendo, da falta de preocupação com televisão e coisas assim – era o calendário. Por muito tempo, por exemplo, o GP da Inglaterra foi disputado aos sábados. Era a tradição.

A tradição também determinava que o GP da África do Sul fosse disputado junto comas festividades do Réveillon. Por isso, quando a prova passou a ser parte do mundial de F1, em 1962, ninguém se opôs a isso. E assim a categoria fechou aquela temporada em 29 de dezembro, sendo até hoje aquela que foi encerrada 'mais tarde' no ano.

Em 1964 não houve GP da África do Sul. Na verdade, pilotos e equipes até que foram para o circuito de East London naquele ano, mas a corrida aconteceu em 1º de janeiro de 1965 – isso mesmo, no primeiro dia do ano seguinte. O feito foi repetido em 1966 e 1968, fazendo destas três as temporadas que 'mais cedo' começaram no calendário.

Lorenz Dietrich, Schorsch Meier e Ernst Loof, os criadores do Veritas RS
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9) A carreira mais curta – literalmente

Ernst Loof é um nome que está longe de figurar nos livros de história, mas tem a sua importância. Engenheiro que já havia trabalhado na BMW, ele se aventurou a construir os próprios carros no pós-Guerra, sempre ao lado dos ex-companheiros na fábrica bávara. Em 1953 o alemão alinhou um Veritas RS -- do qual ele foi o engenheiro responsável pela construção -- em seu GP natal. Largando em 31º, o piloto teve problemas no carro e andou por apenas dois metros. Ele nunca mais participou da F1, ficando com o recorde de carreira mais curta na história da categoria, literalmente.

Em 1993, Marco Apicella chegou perto de bater este recorde. Ele pilotou pela Jordan apenas no GP da Itália e abandonou na primeira curva. Ao menos ele completou mais de dois metros. 

GP da Inglaterra de 1959
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10) Maior número de Taylors em um só GP

A F1 já teve diversos sobrenomes de sucesso, compartilhados por vários membros de uma mesma família. Hill, Villeneuve, Rosberg, Senna, Andretti e Brabham são alguns exemplos. Mas nenhum deles irá superar o sobrenome Taylor em um quesito.

Trevor Taylor, Mike Taylor, Henry Taylor e Dennis Taylor participaram do GP da Inglaterra de 1959, marcando o recorde de pilotos com o mesmo sobrenome num fim de semana da categoria – ou, como eu prefiro registrar, o GP com mais Taylors na história da Fórmula 1. O curioso é que nenhum deles era parente do outro!

Agora, considerando as estatísticas mais tradicionais, o sobrenome de maior sucesso foi mesmo Hill. O norte-americano Phil Hill se aposentou com um título mundial, enquanto o britânico (sem qualquer parentesco) Graham Hill teve dois. Damon, filho de Graham, levou mais um pra casa nos anos 1990. Assim, são quatro mundiais para eles. Nada mal.