Polêmicas que marcaram carreira de Senna na F1

Visto por muitos dos seus fãs como um autêntico super-herói das pistas, Ayrton Senna vai estar sempre na galeria dos melhores pilotos da F1 em todos os tempos, mas também será recordado por fatos bastante controversos. O GRANDE PREMIUM lista dez deles

Fernando Silva, de Sumaré

Nesta próxima quarta-feira (1º), o mundo recorda os 25 anos da morte de Ayrton Senna. Tricampeão mundial de Fórmula 1, o brasileiro perdeu a vida com o grave acidente sofrido na curva Tamburello nas voltas iniciais do GP de San Marino, em Ímola.

Senna foi o autor de momentos que marcaram para sempre a história do esporte a motor e fizeram o povo brasileiro ter orgulho de si mesmo justamente por conta dos seus feitos ao redor do mundo.

Como não lembrar, por exemplo, da incrível primeira volta do GP da Europa de 1993, na pista molhada de Donington Park? E a reação no GP do Japão que o coroou pela primeira vez como campeão do mundo, em 1988? As vitórias épicas nos GPs do Brasil de 1991 e 1993, além dos triunfos nas ruas de Monte Carlo igualmente fazem parte do imaginário dos fãs de Ayrton e da F1 como um todo.

Contudo, ainda que tivesse sido genial nas pistas, Senna era tão humano, cometia suas falhas e tinha frustrações como qualquer um de nós, sendo que algumas delas são igualmente tão lembradas quanto seus feitos na carreira.

A seguir, o GRANDE PREMIUM lista dez fatos controversos da trajetória do tricampeão do mundo, sendo alguns bem conhecidos e outros pouco divulgados ao longo da história.


10 – “Puta merda, bem na minha vez cagaram no carro”
 

A frase foi dita por Senna ao jornalista Flavio Gomes, que fez a cobertura do primeiro teste do piloto na Williams, em uma fria manhã de janeiro de 1994 no circuito do Estoril, em Portugal. Depois de dois anos de incontestável domínio com o ‘carro de outro planeta’, a Williams lidava com o banimento de sistemas importantes como controle de tração e a revolucionária suspensão ativa.

A performance do FW16 escancarou a frustração do brasileiro, que naquele momento tinha a certeza que não teria um carro tão bom quanto tiveram Nigel Mansell e Alain Prost nos anos anteriores.

Guardadas as devidas proporções, Senna era um pouco como Fernando Alonso, sobretudo nos seus últimos anos de F1. Como o espanhol, Ayrton era extremamente competitivo e não tinha papas na língua, sobretudo para apontar problemas de performance. Naquele ano, o brasileiro começava sem sorrisos uma trajetória tão esperada com a Williams, mas que inesperadamente viria a ser muito curta.
 

9 – A famosa briga com Reginaldo Leme
 

As maiores polêmicas da carreira de Ayrton Senna aconteceram nos bastidores. E uma das que mais repercutiram envolveu o principal comentarista de F1 no Brasil, Reginaldo Leme. A briga aconteceu em 1990, ano do bicampeonato de Senna, e foi relembrada pelo jornalista em entrevista a Bruno Vicaria no GRANDE PRÊMIO, feita e publicada em 2008.

O GP* reproduz na íntegra a resposta de Regi sobre o caso.

Chegou no ouvido dele muita informação de coisa que tinha acontecido e não partido exatamente de mim. Por exemplo: em Monza, Monza [ressaltando o local], em 1990, terminada a corrida, fui jantar com um grupo de amigos num restaurante que íamos sempre, próximo ao hotel. E lá estavam várias pessoas: jornalistas, amigos do Ayrton e um ex-piloto, Mário Patti Jr., o Keko, que correu de F-3 com o Nelson Piquet. Ele não gostava muito do Ayrton. Quando falaram na mesa sobre as namoradas do Ayrton, esse Keko, que já estava meio alto, começou a falar: 'Que namorada, que nada'. Houve uma reação na mesa e vi que a situação ficou ruim. Peguei o Keko, tirei-o da mesa e falei: 'Keko, você está sendo indelicado. Tem muitas pessoas aí que são amigas dele'. Ele entendeu a situação, pegou um táxi e foi embora para o hotel dele. Ele foi parar ali não sei nem como.

Bom... Aí acabou essa parada toda, passou, e foi para a minha surpresa que, um dia, o pai do Ayrton, Seu Milton, e o primo dele, cujo nome esqueci agora, mas não tem a menor importância, me chamaram para conversar. Eles tinham umas dúvidas, tal, e comentaram sobre um programa em que eu tinha sido entrevistado pelo Marco Antonio Rocha na TV Record. Quando me perguntaram sobre o Alain Prost, respondi que ele era um cara decente, digno, rival do Senna, mas era um cara bacana, que dava atenção para a imprensa e bastante atenção para mim, um jornalista brasileiro. Só isso. Eles me disseram: 'Você é o único brasileiro que fala bem do Prost no país'. Eu falei: 'Bom, acho que é mérito meu, pois conheço melhor o cara do que os outros'. Os caras viraram bichos. Como se eu não pudesse falar bem do francês. Bom... Saí de lá meio estremecido com eles e, evidentemente, essa conversa foi relatada ao Ayrton. Em seguida, veio o GP da Espanha, em Jerez. A Globo resolveu fazer o 'Globo Repórter' com o Ayrton Senna e quem o fez foi o Ernesto Rodrigues, autor do melhor livro já publicado do Senna na história. Jamais haverá outro tão bom, tão fiel. E aí, o Ernesto, que era fã do automobilismo, curiosamente do Piquet, mas era um jornalista de verdade, fiel, correto, foi incumbido de fazer o programa. E ele me passou uma mensagem por telex dizendo que eu teria de deixar todas as matérias do 'JN' e do 'Sinal Verde' para o Galvão, e fazer as entrevistas e os textos do 'Globo Repórter'. O Galvão não gostou. Ele achou que ele tinha de participar. Direito dele de defender isso, mas era ordem da Globo. Estava seguindo ordens.

E aí, se ele tivesse conversado comigo ou mesmo se conversássemos ele, Ernesto, Senna e eu, a gente chegaria a um acordo, faria meio-a-meio, pois eu adorava fazer o 'Sinal Verde', não queria deixar de fazê-lo. Mas não teve isso. Imediatamente, a ala do Senna tomou a decisão de que ele não faria comigo a entrevista do 'Globo Repórter'. O Ernesto foi até o Ayrton para marcar a entrevista comigo. O Senna disse: 'Está bem, mas com o Reginaldo eu não vou fazer. Só faço se for com o Galvão'. Papel do Ernesto: comunicar à Globo de que o Galvão faria o programa. Para ele, não importava quem, ele precisava que a entrevista fosse feita. Foi correto, me chamou, relatou a situação e eu disse: 'É evidente que você precisa do Ayrton no programa, o resto não interessa, eu faço o resto e ainda fico com o 'JN' e 'Sinal Verde', quanto a isso está ótimo pra mim, mas é uma situação muito estranha o cara, seja quem for, começar a impor regras para jornalistas'. Ali foi decretado um rompimento.

A corrida seguinte era o Japão. E, no Japão, o Galvão talvez não fosse, o que acabou acontecendo. Naquela época, o avião saía de São Paulo e fazia uma escala antes no Rio. Estava esperando a ala carioca entrar, entre eles o Celso Itiberê, e o Galvão não entrou. Não sabia se ele iria, pois não estava falando com ele, e pensei: 'Bom, ele deve ir amanhã, ou já foi'. O Celso sentou ao meu lado no avião, ficamos conversando e ele me confirmou que o Galvão não estaria no Japão. Acabei sabendo também que o Ayrton não daria entrevista para mim. O Celso sabia disso, eu não. O Edgard Mello Filho também sabia, segundo me disse depois. Até então eu pensava que aquilo da Espanha tinha sido um caso isolado, coisa do 'Globo Repórter'. Pensei: quando chegar lá, resolvo o problema. Cheguei lá, olha a situação: teve o treino de sexta-feira, fiz todas as minhas entrevistas e, quando chegou a vez do Senna, com câmera e microfone, ele falou: 'Com você eu não falo'. E passou reto.

Ainda comentei: 'Não é comigo que você vai falar, é com o telespectador, com o brasileiro'. Ele nem respondeu. Fechei minha matéria sem ele, mandei o satélite e comecei a entrar em contato com a Globo, relatando o que aconteceu. Disse que teria uma solução e eles me perguntaram qual. Propus o Celso, que era do 'O Globo', da casa. Ele fez a entrevista e eu fiz o resto da matéria. Por sinal, o cinegrafista japonês cortou o boné do Banco Nacional. E, claro, o Senna acabou me culpando por isso. Eu que nem cheguei perto na hora da entrevista. Era mais uma das tantas que eles imaginavam e faziam virar verdade. E haveria ainda tantas outras, que passei a não me incomodar mais. Um dia talvez eles caíssem na real'.


8 – Treta com Eddie Irvine
 

A cena aconteceu no GP do Japão de 1993. Eddie Irvine teve da Jordan a chance de estrear na F1 em um circuito que conhecia bem, Suzuka. O irlandês fez um bom trabalho e, logo no seu debute, terminou em sexto, marcou um ponto e chamou a atenção do paddock. O novato também chamou a atenção de Ayrton Senna, mas por um lado negativo.

O brasileiro, que havia vencido aquela corrida — sua penúltima vitória na F1 —, acusou o irlandês de não ter aberto passagem quando se encaminhava para colocar uma volta no retardatário. A briga chegou às vias de fato, com socos e gritaria.

Senna e Irvine começaram a se estranhar ainda nos treinos livres, quando o brasileiro reclamou de ter sido atrapalhado em voltas rápidas. Na corrida, Eddie ‘tirou’ volta de Senna em duas oportunidades, custando tempo de volta ao brasileiro, então líder e futuro vencedor do GP. Ayrton se sentiu prejudicado injustamente e deu um soco em Eddie durante discussão acalorada.

28 anos depois, em janeiro deste ano, Irvine falou sobre o episódio à BBC. “Isso ofuscou minha estreia incrível, porque era a única coisa que as pessoas falavam”.

“Eu fiquei pensando ‘poxa, eu terminei em sexto na minha estreia com uma Jordan, que basicamente não tinha pontuado o ano inteiro’. Eu nunca abaixei a cabeça para outras pessoas, nem nunca vou fazer. Acho que é por isso que essa situação foi tão longe. Eu sempre estou pronto para um desafio, sempre pronto para fazer diferente. Nunca estive conformado. Quando o Senna tentou me colocar no meu lugar me bloqueando [nos treinos livres], eu simplesmente fui lá e o bloqueei de volta na volta seguinte”, recordou o piloto que, curiosamente, era grande fã de Ayrton e teve a pintura do seu capacete inspirada no de Senna.

“Eu não me importo com quem quer que você seja. Eu estou lá por mim, você está lá por você. Não tente me intimidar porque isso não vai funcionar. Mandei essa mensagem bem clara e ele ficou muito irritado. Depois fiz o que fiz na corrida, que foi a coisa certa. Damon Hill bloqueou o Senna, na verdade. Não fui eu, mas as coisas que aconteceram antes o deixaram tão enfurecido que eu acho que ele só queria uma desculpa [para brigar]. Eu não coloquei o rabinho entre as pernas, então no domingo ele tentou jogar a culpa em mim, sendo que era do Damon”, completou.

Na corrida seguinte, o GP da Austrália, Senna admitiu que “nada justifica bater em alguém”. Meses mais tarde, durante testes de pré-temporada da F1 no Estoril, Senna e Irvine voltaram a se encontrar. Desta vez, num clima bem mais ameno, os dois selaram a paz com um aperto de mãos.
 

7 – “Vê se aprende” – Senna ‘causa’ em Mônaco e leva invertida de Lauda
 

Outra passagem polêmica de Ayrton Senna aconteceu no fim de semana do histórico GP de Mônaco de 1984, a primeira grande atuação do brasileiro na F1. Na quinta-feira, quando tradicionalmente começam as atividades de pista no Principado, Ayrton vinha mais lento e atrapalhou uma volta rápida de Niki Lauda, com o austríaco a bordo da McLaren.

Em documentário publicado pelo Canal Brasil, Lauda recordou o episódio. “Ele estava andando devagar, olhando pelo retrovisor. Acabou destruindo minha volta. No box, disse a ele: ‘Por que você fez isso? Por que não cooperou? Você é novo na F1. Normalmente a gente se afasta para que os outros se classifiquem, é assim que funciona’”. Senna deu de ombros para Lauda e mostrou o dedo do meio.
 

 

Veio o sábado e, com ele, o troco. “Na hora da classificação para o grid, fiz o tempo mais rápido e fiquei na pista, andando devagar, olhando no retrovisor, esperando por Ayrton. Ele veio na curva como um louco e eu estava no meio da pista e parei o carro. Acelerei de novo e destruí a volta dele. Nos boxes, ele ficou louco. E eu disse a ele: ‘Aqui’”, retribuindo também o gesto obsceno antes de completar: “Vê se aprende”.

Daí em diante, os dois mantiveram uma relação harmônica. O primeiro ano de Senna na Fórmula 1 marcou a consagração de Lauda como tricampeão. O austríaco encerrou sua carreira como piloto no ano seguinte.

Massa foi o único brasileiro depois de Senna a vencer um GP de F1 em Interlagos
AFP

6 – O autógrafo negado a Felipe Massa
 

Felipe Massa, vice-campeão do mundo em 2008 e único brasileiro a vencer na F1 em Interlagos depois de Senna, viveu uma grande desilusão com o tricampeão quando ainda era uma criança. Quando tinha cerca de oito anos, Massa viu o ídolo de perto em um clube em Ilhabela, litoral de São Paulo.

E lá foi o menino, de papel e caneta nas mãos e mais dois amigos ao lado, todos prontos para pedir um autógrafo ao astro da Fórmula 1. No entanto, Ayrton se negou a atender Felipe. “Foi um golpe”.

“No dia em que o Senna não quis me dar um autógrafo, eu fiquei triste, mas aquilo me serviu de lição, me fez enxergar algumas situações. Às vezes acontece de eu não poder dar um autógrafo, por exemplo. Mas, quando é uma criança, dificilmente eu nego”, chegou a dizer o piloto anos depois, em entrevista coletiva.

Foi a única vez que Massa encontrou o tricampeão na vida. O menino chegou a passar a torcer para Nelson Piquet, um dos grandes rivais de Ayrton, mas sempre manteve sua admiração pelos feitos de Senna na pista.


5 – Senna descumpre acordo com Prost e detona guerra na McLaren
 

A história completou 30 anos exatamente há uma semana. Depois de ter sido parte de um incidente ao ser ‘espremido’ por Riccardo Patrese e Gerhard Berger na largada do GP do Brasil, prova que abriu a temporada 1989 da F1, Ayrton Senna propôs um acordo ao companheiro de McLaren, Alain Prost, para evitar que problemas nas largadas pudessem prejudicar a equipe. Era um tratado de não-agressão no qual um não ultrapassaria o outro na primeira curva após a largada. E esse acordo começaria a valer a partir da corrida seguinte, o GP de San Marino, em 23 de abril.

Senna e Prost, como já era esperado, dominaram os treinos e garantiram a primeira fila do GP de San Marino, com o brasileiro fazendo a pole com 1min26s010, superando o companheiro de McLaren por 0s225. Para se ter ideia do quanto a McLaren estava à frente das rivais, o ‘melhor do resto’, Nigel Mansell, de Ferrari, se colocou em terceiro lugar no grid, mas com diferença de 1s642 para Senna.

Senna fez boa largada e manteve a dianteira sem problemas Só que a corrida foi interrompida por conta de um terrível acidente sofrido por Berger, que bateu sua Ferrari contra o muro da curva Tamburello. Segundos depois, o carro vermelho foi consumido pelas chamas. Um incêndio de proporções bíblicas, com a temperatura dentro do carro chegando a 1.000ºC. Por sorte e toda a eficiência do macacão antichamas, Berger sobreviveu e escapou com apenas algumas queimaduras leves nas mãos.

Quando foi dada a relargada, Prost tracionou melhor que Senna e assumiu a liderança. Uma liderança que não durou muito tempo. O brasileiro pegou o vácuo na saída da curva Tamburello e encostou de vez na McLaren #2, colocando de lado na curva Villeneuve para fazer a ultrapassagem pouco depois, na Tosa. Estava quebrado o acordo que o próprio Senna havia proposto dias atrás. Nascia ali, definitivamente, a maior rivalidade da F1 em todos os tempos.

Prost sentiu-se traído por Senna. “Ele argumentou que não era a largada, era a relargada, então o acordo não se aplicava. Ele tinha suas próprias regras, e algumas vezes elas eram muito... bem, vamos dizer, estranhas. Foi ideia de Ayrton, para início de conversa, e eu não tinha problemas com ela. Depois, no entanto, eu disse que era o fim. Continuaria a trabalhar com ele, em assuntos técnicos, mas no que se referia à nossa relação pessoal, era o fim. E a atmosfera na equipe ficou muito ruim, claro”, disse o ‘Professor’.

Senna, em fala divulgada pela McLaren, se defendeu e julgou como correta a manobra sobre o companheiro de equipe. “Acho que há uma divergência de interpretação do conceito deste acordo e, acima de tudo, uma desproporção entre as consequências da manobra de ultrapassagem e a sua reação depois. Na relargada, ele partiu um pouco melhor que eu, mas estava imediatamente atrás para tirar proveito a partir do vácuo. Assim, ganhei velocidade e fiz minha manobra bem antes da zona de frenagem. Minha ultrapassagem foi iniciada, na minha opinião, bem antes da primeira curva e, como resultado, fora dos termos do nosso acordo”.

“O que eu deveria ter feito? Tirar o pé em linha reta porque eu estava indo mais rápido que ele? Estamos correndo, sim ou não? E eu freei mais tarde do que ele; eu estava melhor colocado, e isso é tudo. Jamais quis trair nosso acordo, nem por um segundo eu achei que isso foi desonesto. O acordo sempre foi de que nenhuma manobra de ultrapassagem aconteceria na freada da primeira curva. Minha ultrapassagem foram iniciada durante a reta e, na primeira curva, ficamos lado a lado”, declarou o então campeão do mundo.
 

4 – A guerra fria entre Senna e Piquet
 

Ayrton Senna e Nelson Piquet jamais chegaram a ser rivais propriamente ditos dentro das pistas, já que eram de gerações um tanto distintas. Ayrton estava chegando à F1 no momento em que Piquet era o bicampeão mundial. E um ano depois de Nelson chegar ao tri, o paulista iniciava uma história de três títulos mundiais com a McLaren.

Fora das pistas, os dois pilotos rivalizavam em termos de atenção de mídia e dos fãs, gerando a rivalidade entre os sennistas e os piquetistas. Rivalidade que foi incendiada no começo de 1988. Senna havia ‘sumido’ por algumas semanas antes de estrear pra valer com a McLaren.
 

 

Na chegada a Jacarepaguá, palco da prova inaugural daquela temporada, Ayrton deu uma entrevista ao jornalista Sérgio Rodrigues, do ‘Jornal da Tarde’ e aproveitou para dar uma alfinetada daquelas no rival: o piloto alegou que sumiu para que Piquet, tricampeão do mundo, pudesse aparecer.

A frase de Senna foi parar na manchete do consagrado jornal carioca e enfureceu Piquet, que apelou e disse ao jornalista Eloir Maciel que Ayrton havia sumido para não ter de explicar porque não gostava de mulher. A guerra estava declarada.

O clima sempre foi de provocação entre ambos, novamente em momentos bem distintos. Senna chegava ao auge da carreira com a conquista dos seus títulos, o último dos três alcançado no mesmo ano da despedida de Piquet da F1. Os dois jamais foram próximos, com algumas provocações, da parte de Nelson, acontecendo mesmo depois da morte de Senna.

Ayrton Senna e Nelson Piquet nutriam antipatia mútua
Reprodução

3 – O famoso veto a Derek Warwick na Lotus
 

Na mesma época em que Ayrton Senna despontava com sua carreira na F1, passando a ter grande destaque a partir de 1985, ano da conquista das suas primeiras vitórias, um prodígio britânico começava a chamar a atenção: Derek Warwick. O piloto correu pela Renault no fim do primeiro ciclo da escuderia francesa na F1, entre 1984 e 1985, faturando quatro pódios.

A performance de Warwick atraiu a Lotus, uma das mais fortes equipes do meio dos anos 1980, e que contava com os motores da Renault. Assim, o piloto fechou acordo com a escuderia para a temporada 1986. Mas Derek não chegou a pilotar para a Lotus. Tudo por conta do veto de Ayrton Senna.

O episódio, um dos mais polêmicos da carreira de Senna na F1, foi relembrado por Warwick em uma coluna escrita pelo piloto à revista britânica ‘Autosport’.

“Assinei com a Lotus no fim de 1985 para 1986 para pilotar junto a Senna e nos mesmos termos. Senna decidiu que eu era uma ameaça e trabalhou com os patrocinadores para romper meu contrato. Cheguei à Lotus e me disseram que não iam assinar sua parte no contrato e que Senna tinha pressionado os patrocinadores, de modo que não podiam ir contra isso”, escreveu.

“De modo que fiquei sem um cockpit porque nesse momento todos estavam ocupados. Para ser sincero, quando olho para trás me dou conta de que a decisão de Senna e da Lotus estagnou minha carreira”, lamentou. Warwick só voltou à F1 na sexta corrida de 1986, depois de ter fechado contrato com a Brabham. Mas o projeto do BT55 foi um fracasso, e Warwick jamais pontuou. No ano seguinte, foi para a Arrows, onde ficou até 1989.

“Nunca me recuperei realmente em termos de voltar a estar em uma equipe de ponta. Ainda que a Arrows em 1989 tenha sido brilhante e definitivamente tenhamos lutado acima das nossas possibilidades. Houve definitivamente chances de vencer, mas o pit-stop no Brasil e a quebra de motor no Canadá acabaram com elas”, acrescentou o ex-piloto, que curiosamente conseguiu correr pela Lotus, mas apenas em 1990, quando a equipe já havia entrado na fase decadente da sua história na F1.


2 – Duelo de titãs: a briga com Michael Schumacher
 

Senna já estava consagrado como tricampeão, enquanto Michael Schumacher fazia sua primeira temporada completa na F1. O brasileiro se mostrava impressionado com o talento do jovem alemão, que ‘chegou chegando’ e teve em 1992 um ano melhor que Senna no conjunto da obra.

A impetuosidade de Schumacher o levava a cometer erros, como no GP da França daquele ano. Na primeira volta, Michael perdeu o ponto da freada da sua Benetton e acertou o carro de Senna no hairpin, tirando o brasileiro da corrida. Durante o tempo de interrupção da corrida voltas depois, Ayrton foi tirar satisfação com o alemão, mas, diante das câmeras, não passou disso.

Foi em outro episódio, no mesmo ano, em que o tricampeão de fato ficou perto de agredir Schumacher. O ocorrido foi durante um teste realizado em Hockenheim. Senna, já ‘mordido’ pelas manobras do alemão corridas atrás, se irritou porque julgou ter sido bloqueado pelo piloto da Benetton e partiu para os boxes da equipe anglo-italiana para discutir com Michael.

Segundo relatos, Senna só não agrediu Schumacher porque a ‘turma do deixa disso’ apaziguou os ânimos.

Schumacher foi o último grande rival de Senna na F1.
 

1 – A batida proposital que confirmou o bicampeonato
 

No auge da rivalidade entre Senna e Prost, dois momentos foram especialmente marcantes e muito polêmicos. O primeiro deles decidiu o título mundial em favor do ‘Professor’ no GP do Japão de 1989, quando este ‘fechou a porta’ para Senna na entrada da chicane, evitando ser ultrapassado pelo brasileiro. Prost abandonou, enquanto Senna conseguiu voltar à prova, mas teve seu carro empurrado pelos fiscais de pista e cortou a chicane.

Senna fez uma incrível recuperação nas voltas finais em Suzuka: foi aos boxes para trocar a asa dianteira avariada, voltou, ultrapassou Alessandro Nannini, da Benetton, e partiu para uma vitória redentora. Mas antes de subir ao pódio, o brasileiro foi desclassificado pela direção de prova, que declarou o italiano vencedor. E Prost, com o resultado, era declarado tricampeão do mundo.

A ‘vendetta’ veio no ano seguinte, com Senna reinando na McLaren e Prost como piloto da Ferrari. A primeira fila ficou com os dois arquirrivais, com o brasileiro partindo da pole-position.

Senna, contudo, tinha severas críticas quanto ao lado destinado às posições ímpares, que era mais sujo e, portanto, pior para tracionar na largada. Assim, e ainda com as lembranças de 1989 na mente, Ayrton era claro: não havia a menor possibilidade de deixar Prost ultrapassá-lo na largada.

E assim aconteceu: Prost largou melhor que Senna e chegou a tomar a frente, mas foi acertado pela McLaren do brasileiro em alta velocidade. Os dois bateram e foram parar na caixa de brita da curva 1 do circuito japonês. A batalha entre os dois extrapolava qualquer limite ético e físico, com a integridade dos pilotos sendo colocado em risco. Por sorte, ninguém se feriu. Naquele momento, Senna conquistava o bicampeonato.

Em declarações à imprensa britânica 20 anos depois da morte de Senna, Ron Dennis, chefe do brasileiro na McLaren, lembrou com tristeza daquele momento. “Ele voltou para os pits, e eu falei: ‘Estou decepcionado com você’. Ele entendeu. Não precisei dizer mais nada”.

“Foi um dos seus raros momentos de fraqueza. Não acho que ele ficou orgulhoso daquilo, mas foi a gota d’água quando o pole-position foi colocado do lado errado da pista”, disse o dirigente britânico. “Ele falou que não havia maneira de [Prost] terminar a primeira curva na liderança: ‘Se eu chegar na primeira curva, ele estiver primeiro e eu não conseguir passar, não vou sair dele’. Não foi um grande momento”, descreveu Dennis.

A vendetta: um ano depois de ter sido fechado por Prost, Senna dá o troco e leva o bi da F1
AFP