Quando a neve estraga a festa

A menos que o assunto seja rali, neve não combina com esporte a motor. Prova disso foram as 6 Horas de Spa-Francorchamps, corrida tumultuada pelo clima. Compilamos outros dez raros exemplos de neve afetando treinos, testes e corridas

Vitor Fazio, de Berlim

Spa-Francorchamps tem como uma de suas características mais famosas a instabilidade climática, com pancadas de chuva indo e vindo em velocidade recorde. A etapa do Mundial de Endurance do último fim de semana, todavia, trouxe uma nova faceta ao desafio: parte das 6 horas de corrida foi afetada pela neve. É algo raro, mas certamente não inédito: outras categorias de ponta do automobilismo mundial já tiveram problemas com tal fenômeno climático.

Seja em corridas ou testes, categorias como Fórmula 1, MotoGP e Nascar já tiveram que lidar com neve, que só é bem vinda no mundo do rali. Quando o assunto é correr no asfalto, vira motivo para adiamentos e cancelamentos.

Inspirado no auê das 6h de Spa-Francorchamps do último fim de semana, o GP* compila dez vezes em que a neve virou o esporte a motor de cabeça para baixo.

Fórmula 1, Corrida dos Campeões, 1975

Infelizmente, a F1 nunca teve um Grande Prêmio afetado por neve. O mais próximo disso foi a Corrida dos Campeões de 1975, etapa extracampeonato realizada em Brands Hatch. O já tradicionalmente ruim clima britânico resolveu caprichar em uma tarde de março: naquilo que deveria ser o começo da primavera, o que se viu foi um misto de ventania com neve e chuva.

Por óbvio, a corrida teve largada adiada. Era necessário esperar que ao menos a neve cessasse e derretesse, deixando o asfalto ‘só’ molhado. Por sorte, o adiamento não tomou tanto tempo, evitando mudança de data. Curiosamente, os pilotos que optaram por largar com pneus de pista seca se deram melhor. Foi assim que Jody Scheckter tomou a liderança, isso antes de o motor quebrar, deixando a vitória com Tom Pryce.

Mundial de Motovelocidade, GP da Áustria, 1980

Quando o assunto é neve, talvez a MotoGP – então apenas Mundial de Motovelocidade – tenha sido a mais azarada de todas. A temporada 1980 já havia começado com o pé esquerdo, com o GP da Venezuela cancelado por problemas financeiros. O GP da Áustria passava a abrir os trabalhos no campeonato. O plano era esse, pelo menos.

Faltou combinar com São Pedro. Antes mesmo do fim de semana começar, o Salzburgring já estava praticamente bloqueado por uma nevasca das mais fortes. Os caminhões das equipes não conseguiram sequer entrar no autódromo. A situação climática não viria a melhorar nos dias seguintes, o que forçou o cancelamento por completo – situação que só voltaria a se repetir no GP da Inglaterra de 2018, mas por conta de chuva. A temporada de 1980 só viria a começar mesmo em maio, com a etapa de Misano.

Fórmula 3000, Nürburgring, 1985

Toda a sorte que a F1 costuma ter com neve surgiu como azar para a F3000, categoria equivalente à atual F2. O campeonato formador nasceu em 1985 e, logo na quarta corrida de sua história, já lidou com um cancelamento.

O grid estava em Nürburgring – que ainda vai voltar a aparecer nesta lista –, onde foi recebido por um frio daqueles. No domingo de corrida, o frio ganhou a companhia da neve, que tomou conta de asfalto e áreas de escape. Ao contrário da Corrida dos Campeões de 1975, a nevasca não dava trégua. Desse jeito, restou aos pilotos fazer bonecos de neve e brincar na beira da pista enquanto a prova era cancelada.

CART, Indy 500, 1989

Talvez o caso mais tranquilo da lista, mas que se faz digno de menção. As 500 Milhas de Indianápolis carregam um histórico positivo quando o assunto é clima, mas o Indianapolis Motor Speedway já teve neve em um dia bem inconveniente.

Nada menos do que o primeiro dia de atividades para a Indy 500 de 1989, um 6 de maio, teve neve. O fenômeno veio fraco, representando mais um inconveniente do que um grande problema. O que complicava mesmo era a temperatura de apenas 7º C, servindo como ótimo motivo para os pilotos serem cuidadosos na pista. Arie Luyendyck foi o mais rápido com a velocidade de 213,657 mph. Para referência, em outro dia de treinos Rick Mears viria a superar a marca de 226 mph. De lá para cá, nunca mais nevou em dia de atividades para a Indy 500.

Nascar, Atlanta 500, 1993

Correndo em um único país de fevereiro a novembro, a Nascar não tem muito como escapar do rigoroso inverno americano. Isso normalmente implica em corridas afetadas por chuva, mas também é possível que algo mais sério aconteça – e definitivamente foi o caso em 1993.

A corrida de março de Atlanta foi atingida em cheio pela ‘Tempestade do Século’. Um ciclone formado no Golfo do México virou de cabeça para baixo o clima na costa leste americana, baixando drasticamente temperaturas. O misto de ventania com nevasca acabou com qualquer chance de a corrida de 500 Milhas acontecer na data original. Com um pouco de sorte, o adiamento em uma semana resolveu tudo.

Fórmula 1, pré-temporada, 2003

Barcelona não é um lugar conhecido pelo clima frio, mas trouxe uma surpresa desagradável para a Fórmula 1. Os testes de pré-temporada de 2003 na cidade catalã reservaram um dia com neve durante a madrugada.

Quando o dia amanheceu, as áreas de escape estavam brancas. A neve que caiu na pista logo derreteu e evaporou, apesar das temperaturas baixas. Foi suficiente para que alguns pilotos tentassem a sorte e somassem a tão desejada quilometragem.

24 Horas de Nürburgring, 2016

Quando o assunto é clima louco, poucas corridas podem superar as 24 Horas de Nürburgring de 2016. A largada começou com chuva – o que até é normal para a região. Problema mesmo foi quando, ainda na primeira hora de corrida, a chuva virou geada, e depois neve. Era tanta água se acumulando nas áreas de escape que barro começou a tomar conta do asfalto, causando diversos acidentes.

A bandeira vermelha foi, por óbvio, agitada. Passadas três horas de paralisação, foi possível seguir em frente com asfalto ‘só’ molhado. Para alívio da direção de prova, o clima se tornou estável, permitindo que a bandeira quadriculada fosse agitada com pista seca.

Fórmula 1, pré-temporada, 2018

Talvez o caso mais icônico dos últimos tempos. Fevereiro de 2018 foi um mês mais frio do que de costume em Barcelona, ainda trazendo reflexos do inverno que se aproximava do fim. Isso já seria suficiente para dificultar a coleta de dados sobre os carros, mas o pior ainda estava por vir.

O terceiro dia de testes amanheceu branco em Montmeló. A manhã inteira de atividades foi inutilizada. Na verdade, só a última hora da tarde teve carros na pista, quando a neve já tinha virado chuva. Fernando Alonso foi quem somou mais voltas, mas sem ir além dos 11 giros.

Fórmula 2, pré-temporada, 2018

Não foi só a F1 que teve surpresa desagradável no começo de 2018. A F2, que se preparava para um shakedown com a nova versão dos carros, se deparou com um circuito de Magny-Cours cheio de neve.

Dentro do possível, a F2 também teve alguma sorte. A neve caiu durante a madrugada e, durante o dia, o asfalto estava somente molhado. Ajudou também o fato de que, por ser um shakedown, o objetivo não era necessariamente coletar informações profundas, e sim checar o funcionamento dos carros. Para isso, calor ou frio dão na mesma.

Nascar, Martinsville 500, 2018

Se o calor tradicional da Georgia não foi suficiente para barrar a neve em 1993, quem dirá a Virgínia, estado mais ao norte dos Estados Unidos. Um dia mais frio em março de 2018 foi suficiente para Martinsville, que deveria receber uma corrida de 500 Milhas no domingo, acabar com os planos da Nascar.

A neve começou a cair ainda na noite de sábado. O domingo amanheceu com sol, mas a limpeza da pista precisaria acontecer em tempo recorde para evitar um adiamento – lembre-se que, além de tirar toda a neve da pista, dos boxes e do pit-lane, seria necessário secar tudo novamente. Sem calor, tudo ficava mais difícil.

A Nascar logo optou pelo mais fácil: a prova aconteceu na segunda-feira, quando o clima já estava mais propício para a prática de automobilismo.