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Análise

25 anos do tri de Senna, 25 anos sem títulos brasileiros na F1

Título de 1991 marcou o auge da presença do Brasil na categoria, além de determinar o fim de nossa fase de ouro. Mas será que há esperança para os próximos 25?

 

A poeira tomou conta de toda a caixa de brita da primeira curva do circuito de Suzuka, no Japão. Tinha sido levantada pela Williams-Renault com o famoso 5 vermelho, pilotada por Nigel Mansell, que, como um touro em uma Festa de São Firmino, perseguia até pouco antes a McLaren vermelha e branca de Ayrton Senna. Após derrotar o adversário na estratégia, o brasileiro assumiu a liderança da prova – aquela mesma da qual abriu mão nos últimos metros, dando a vitória para o companheiro Gerhard Berger. Da cabine de transmissão, Galvão Bueno gritava “eu sabia!”. Na pista, Senna era tricampeão mundial de Fórmula 1.

Aquele dia era 20 de outubro de 1991, há exatos 25 anos. De certa forma, foi o auge do Brasil na categoria máxima do automobilismo. Ayrton havia conquistado o terceiro título em quatro anos de McLaren, além de um vice em 1989. Entre 1981 e aquele dia, o nosso país conquistou seis campeonatos em 11 possíveis – Nelson Piquet, você sabe, foi campeão em 1981, 83 e 87. Um resultado incrível, que colocava o Brasil em segundo lugar na lista de países campeões mundiais. Com nove conquistas, perdíamos apenas para o Reino Unido, que na época tinha dez. Isso tudo para um país que, de certa forma, ainda era adolescente no automobilismo mundial.

Por mais que Chico Landi e Nano da Silva Ramos, entre outros, tenham participado de GPs nas primeiras décadas da F1, foi só em 1970, com Emerson Fittipaldi, que efetivamente entramos na categoria. Era um retrospecto incrível para pouco mais de 20 anos, com 70 vitórias no período. Isso colocava o automobilismo no alto das preferenciais nacionais, talvez até rivalizando com o imbatível futebol – que vivia um jejum de Copas do Mundo, sendo que o último havia sido conquistado justamente em 1970.

Só que… Quando você atinge o apogeu, dali em diante é só ladeira abaixo. Começou com o crescimento meteórico da Williams, que, com carros de outro mundo (e também pelo mérito de seus pilotos, é bom frisar), fez de Mansell e Alain Prost campeões em 1992 e 1993. Senna finalmente foi para a Williams em 1994 e, sem ver a equipe inglesa novamente com o melhor carro do grid, morreu em Imola. Pela primeira vez desde meados dos anos 1970 o Brasil ficou sem um campeão mundial na F1, criando claramente um vácuo na sucessão de pilotos do país. Coube a Rubens Barrichello, ainda na mediana Jordan, a responsabilidade de continuar com esse legado, com toda a pressão de uma geração acostumada a ver a bandeira nacional no pódio.

O resultado você sabe: nos últimos 25 anos foram quatro vices, sendo um de Senna e um de Felipe Massa, além de dois de Rubinho. No total, 31 vitórias vieram após o título de 1991. 

Há duas formas de você encarar isso. A do copo vazio verá que fizemos muito pouco quando comparado com todas as conquistas entre 1970 e 1991. Isso enquanto a Alemanha, que só teve o primeiro mundial em 1994, conquistou 11 títulos. Não tivemos mais um piloto capaz de movimentar as multidões, turbinar audiências ou coisas assim. A "nossa" última vitória foi no GP da Itália de 2009, há mais de sete anos. É um jejum considerável. 

Tem o copo meio cheio, também. Claro, estamos longe de nossa maior forma, mas não fizemos feio. Quatro vices e 31 vitórias são mais, por exemplo, do que países tradicionais fizeram no mesmo período. A Itália, por mais que alguém possa argumentar que eles gostam mesmo é da Ferrari, não conquista um título com um piloto local desde 1953, com Alberto Ascari. A França, também tradicionalíssima, até que venceu em 1993 com Prost, mas teve a última vitória em 1996 com Olivier Panis. De lá pra cá, chegou a ficar, em alguns momentos, sem pilotos na F1. A Austrália, que tem quatro mundiais, só conseguiu bater na trave com Mark Webber.

Até mesmo a Alemanha de Michael Schumacher e Sebastian Vettel nem sempre foi tudo isso. Em 1991, ano do tri de Senna, o pais acumulava apenas três GPs vencidos: um de Jochen Mass e dois de Wolfgang von Trips, sendo que esse último tinha tudo para ser campeão em 1961, mas morreu antes de conseguir.  O sucesso de 168 vitórias e 11 títulos foi justamente construído nos últimos 25 anos. 

Barrichello comemora a última vitória brasileira na F1, em 2009

O que preocupa, efetivamente, são os próximos 25 anos. Se você reparar bem, a presença brasileira na Fórmula 1 é geracional. A geração de Massa foi inspirada pela de Senna; a de Rubinho, pela de Senna e Piquet; Senna e Piquet foram inspirados por Emerson Fittipaldi e aqueles outros pilotos que foram para a Europa no começo dos anos 1970; Emerson não só instigou muita gente da própria geração, mas também foi inspirado pelas histórias de Chico Landi. Títulos e vitórias nunca foram resultado de políticas de estimulo ao esporte, investimentos ou coisas assim. Foram forjados por moleques que cresceram assistindo aos feitos de quem veio antes.

E é justamente o que estamos perdendo. Massa já anunciou que deixará a F1 no final da atual temporada. Não há, atualmente, nenhum outro brasileiro com possibilidades de entrar na categoria, e caberá a Felipe Nasr – provavelmente ainda na fraca Sauber – continuar com esse legado. Isso em um momento no qual os GPs são cada vez mais relegados à TV paga, mas esse é um outro assunto (e, acredite, uma tendência mundial).

Ao mesmo tempo, o automobilismo nacional de base definha. Nas últimas etapas da F3 Brasil, em Londrina e Curitiba, apenas sete carros participaram. Há ainda a defasagem técnica: são usados modelos da Dallara de 2009, enquanto a categoria Light é para carros de 2001. Ou seja, projetados há mais de 15 anos. Há a esperança da novata Fórmula Inter, que tenta misturar o formato de incubadora, categoria de aluguel e de base para formar uma nova geração com baixo custo. Porém, a iniciativa ainda é muito nova para trazer resultados concretos. 

F3 Brasil em 2016: quase vazia

O objetivo acaba sendo, mesmo, a F3 Europeia – só que a atual crise e a subida do dólar são barreiras. De acordo com estimativas, um lugar na categoria custa, por ano, algo por volta de € 700 mil em uma equipe de ponta, ou, na nossa moeda, R$ 2,4 milhões. Um investimento caro, que fica difícil bancar com patrocinadores ou mesmo com a fortuna de uma família rica. Atualmente, os brasileiros na categoria são Pedro Piquet e Sérgio Sette Câmara. O primeiro, bom, é um Piquet; o segundo faz parte da equipe de formação de pilotos das Red Bull. 

No momento, a melhor participação brasileira em terras europeias é na nova F3 Inglesa, que até o ano passado corria com carros considerado da F4 e não é a mesma que aquela velha e tradicional Fórmula 3 da Rainha. Foram dois os brasileiros correndo por lá em 2016, com o título ficando para o gaúcho Matheus Leist.

Se olharmos para a GP3, não há brasileiros desde 2014, com Victor Carbone. Na GP2 a última participação do nosso país foi ano passado, com André Negrão – que, hoje, é o único do Brasil na Indy Lights. Mesmo no longo prazo, as perspectivas não são animadoras.

Isso tudo levanta uma última questão: até que ponto a participação de brasileiros é importante para deixar um esporte interessante? Não é, e quem é apaixonado por automobilismo continuará acompanhando. Por outro lado, essa participação (e o sucesso dela) é importante para criar aquele zeitgeist que caracterizou o surgimento da maioria dos grandes pilotos que tivemos até hoje. Afinal, tirando o futebol, o Brasil nunca foi competente para ter uma base consistente em qualquer esporte. Sempre vivemos de eventos como o Fenômeno Guga, o Fenômeno Senna e por aí vai.

É, pensando assim, talvez os próximos 25 anos nos façam lembrar com saudade dos últimos 25… 

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