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Análise

A maldição do documentário

Impulsionado pela série ‘Drive to Survive’, o meio do pelotão da F1 confirma uma disputa acirrada também em 2019. Renault e Haas ainda estão longe, mas devem brigar pelo posto de ‘quarta força’ ao longo da temporada, em um roteiro repetido até aqui

Coadjuvantes para o grande público da F1 pelo menos até o lançamento da série ‘Drive to Survive’, Cyril Abiteboul e Guenther Steiner já tiveram a rivalidade entre Renault e Haas renovada para a temporada 2019. Os GPs da Austrália e do Bahrein comprovaram não só que a disputa pelo meio do pelotão será intensa, como os igualmente caricatos chefões das equipes animaram a briga pela posto de ‘quarta força’ da categoria em um roteiro repetido, de declarações ainda mais brilhantes, que entregam uma espécie de ‘maldição do documentário’.

Na obra da Netflix — que em nenhum dos dez capítulos pôde contar com os bastidores dos trabalhos de Mercedes e Ferrari, que se disseram presas à disputa do Mundial em si com Lewis Hamilton e Sebastian Vettel — Abiteboul e Steiner se revezam no protagonismo que lhes sobrou. Se não propriamente forçada, as brigas entre as duas equipes são até que vibrantes e, em um salto para a atual temporada, continuam dramáticas.

O primeiro episódio da série mostra como pit-stops errados podem arruinar por inteiro o trabalho de toda uma equipe ao longo do final de semana. Pois em Melbourne, um mecânico novamente não conseguiu fixar corretamente a roda dianteira esquerda e Romain Grosjean foi obrigado a abandonar a prova inaugural. Por outro lado, Kevin Magnussen, que havia sofrido o mesmo problema 12 meses antes, passou ileso pela parada nos boxes e terminou na 6ª colocação.

Já como se falasse para as câmeras da Netflix, Steiner disse em entrevista ao podcast ‘Beyond the Grid’ que não teme justamente esse “carma do documentário”.

“Nós simplesmente não sabemos o que está acontecendo. Não temos ideia. Na realidade, deveríamos estar até mais para baixo, mas não estou nem triste por que estou impressionado com o desempenho”, disse o italiano, em sua entonação mais característica.

Ainda que já tenha conseguido alguma coisa com o carro, Magnussen não demonstrou a mesma animação do chefão e disse que simplesmente o conjunto não tinha o ritmo necessário para ser competitivo no Bahrein, ainda que entre os carros da ‘F1 B’. “Certamente nós temos um bom carro quando trabalhamos bem, mas é preocupante termos um dia como hoje”, disse o dinamarquês, após o GP do Bahrein, quando foi só o 13º. Se serve de consolo, Grosjean levou um toque de Lance Stroll pouco depois da largada e foi obrigado a abandonar.
(Reprodução/Instagram/@HaasF1)

Ricciardo e Hülkenberg tiveram problemas e abandonaram na mesma volta no GP do Bahrein (Reprodução/Instagram/@RenaultF1Team)
Um segundo episódio para ilustrar tamanho roteiro repetido, desta vez pelo lado da Renault, pode ser visto pelo lado dos motores franceses. Também tema de intrigas e polêmicas, principalmente por uma aparante falta de confiabilidade da Red Bull, os motores Renault voltaram a falhar. Desta vez, na mesma volta. Em Sakhir, já nos últimos giros, Daniel Ricciardo e Nico Hülkenberg foram obrigados a abandonar a corrida quase que simultaneamente e desperdiçaram pelo menos nove pontos importantes na corrida pelo campeonato.

Abiteboul, ao seu repetido estilo de afirmar, como ao longo de todo o documentário, que ‘não falta dinheiro para a Renault construir carros de F1’, adotou o discurso de “reagir e focar na reabilitação já na próxima corrida”.

“Estes são problemas que já havíamos encontrado no carro, mas algo que não conseguimos corrigir no Bahrein. Os problemas são cada vez mais frustrantes e inaceitáveis, já que ambos os carros mostraram uma competitividade muito boa tanto uma volta rápida como em corridas”, disse o francês, assim como Steiner, em um sotaque colorido.
(AFP)

Sétimo lugar na abertura da temporada, único resultado completo dentre os quatro possíveis para a equipe até aqui [Ricciardo abandonou nas duas corridas], Hülkenberg falou abertamente sobre a briga para a tal da F1 B. Atualmente, uma até surpreendente Alfa Romeo é a tal quarta força com 10 pontos (todos de Kimi Räikkönen), dois a mais que a McLaren [vindos da sexta colocação de Lando Norris no último GP].

"Sempre sinto que estamos em um pelotão. É tudo muito apertado. Talvez a Haas possa ser mais rápida, mas varia de pista para pista. A McLaren não parece longe, a Alfa Romeo está no bolo também, então são pequenas coisas que fazem a diferença. Certamente estamos em uma boa posição nessa briga, mas precisamos seguir evoluindo o carro”, disse o alemão abertamente.

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