Siga-nos

Análise

António Félix da Costa

‘Fica a frustração por não poder dar à minha família, aos meus amigos, a mim próprio, às pessoas que me apoiam, a seguinte resposta: o que poderia ter feito o António na F1?’

Hoje com 24 anos, António Félix da Costa pintou no começo da década como um dos possíveis grandes nomes da nova geração do automobilismo. Nascido em Lisboa e morador da cidade de Cascais, o luso mostrou com resultados que tinha totais condições de chegar lá: em 2009, por exemplo, foi campeão da F-Renault Norte-Europeia e terceiro na F-Renault Europeia. AFC, ou ‘Formiga’, seu apelido desde a época do kart, também se consagrou ao vencer o desafiador GP de Macau de F3, em 2012, e se tornou membro do Red Bull Junior Team no ano seguinte.

Ali, parecia que seu caminho rumo ao topo do automobilismo estava traçado. Presença constante nos paddocks da F1 e figurando como reserva de Sebastian Vettel e Mark Webber, Félix da Costa mostrava que seria o próximo português do grid desde Tiago Vagaroso Monteiro.

Mas aí, a cúpula da Red Bull surpreendeu o mundo do esporte quando anunciou o jovem Daniil Kvyat, que viria a ser o campeão da GP3 em 2013, como novo piloto da Toro Rosso no ano seguinte, preterindo António. Ali, Félix da Costa sabia que, na prática, seu sonho em fazer parte do grid da F1 havia se acabado.

Fecha-se um ciclo, abre-se outro, já diria o poeta. Amante do automobilismo, muito mais do que meramente da F1, António lá foi trilhar seu caminho por outras fronteiras. A porta que se fechou na categoria representou a abertura de não uma, mas duas: em 2014, Félix da Costa estava contratado como um dos oito pilotos da BMW no grid do DTM. De quebra, ainda passou a fornecer seu talento para a Aguri na revolucionária F-E.

E os resultados não tardaram a aparecer. Na temporada 2014/15 da F-E, Félix da Costa venceu a etapa de Buenos Aires, nas ruas de Puerto Madero. Uma vitória que o luso ficou bem perto de repetir neste ano, não fosse por uma quebra enquanto era um dos ponteiros da prova. No DTM, depois de um ano de aprendizado correndo de turismo, 2015 foi bem mais razoável, com a conquista de uma vitória em Zandvoort após largar na pole, num fim de semana de sonhos para a BMW.

Entre suas jornadas no DTM e na F-E, Félix da Costa veio pela segunda vez ao Brasil como convidado da equipe Full Time para a Corrida de Duplas, prova que abre a temporada da Stock Car. No ano passado, em Goiânia, AFC garantiu um bom terceiro lugar como parceiro de Allam Khodair. Assim, o ‘Japonês Voador’ não teve dúvidas em repetir a parceria bem-sucedida, de modo que António o ajudou a terminar em segundo lugar em Curitiba.

Entre as atividades de pista na prova que marcou o adeus da Stock Car ao autódromo de Pinhais, Félix da Costa falou ao GRANDE PREMIUM sobre sua trajetória no esporte, disse que não há espaço para mágoa, apenas para gratidão perante a Red Bull e revelou admiração por um piloto que foi uma espécie de mestre enquanto foi piloto reserva do time tetracampeão do mundo.

Félix da Costa veio pela segunda vez ao Brasil como convidado da Full Time para correr ao lado de Allam Khodair (António Félix da Costa em ação em Curitiba na Stock Car (Foto: Miguel Costa Jr.))

GRANDE PREMIUM: Como você lida encara essa sua segunda passagem pela Stock Car?

António Félix da Costa: É um dos finais de semana mais divertidos que tenho no ano todo. É um ambiente tranquilo, não há toda aquela pressão do DTM. Claro que é sempre tem a vontade de andar bem, mas é muito bom estar aqui.

GP*: E o que você achou de Curitiba? Soube que ela está para fechar?

AFC: É uma pena, né? Eu já conhecia a pista de simulador, da época que o WTCC vinha pra cá, por exemplo, há muitos anos, então já sabia perfeitamente como eram as curvas. Mas sentar num carro e guiar é totalmente diferente: você sempre sente uns bumpings aqui e ali… É uma pista muito particular, é muito difícil encontrar o acerto correto. Você tem freada forte, curva lenta, curva média e longa, curva rápida, então fica muito difícil encontrar um acerto 100%, de modo que é um grande desafio para os pilotos e para as equipes, sabe? Encaixar a volta certa, a volta do pneu, é muito complicado.

Mas sabe? É isso o que está faltando hoje no esporte a motor. Hoje em dia é tudo muito fácil. Você vê hoje uma corrida de F1: as pistas são todas planas, largas, com grandes áreas de escape, então fica fácil para qualquer cara chegar, sentar e acelerar. E acho que o esporte está precisando disso: de pistas mais antigas, mais ‘no braço’, então eu gosto de sempre de fazer essas coisas.

GP*: Há muita diferença na condução do Stock Car em relação ao DTM?

AFC: É um ‘bocadinho’. Nem tanto assim. Na verdade, este carro aqui da Stock Car até se adapta mais ao meu estilo de condução do que o do DTM. Aqui, ele é mais natural, mais afeito à maneira como eu gosto de pilotar. Por isso gosto muito de vir, sentar aqui neste carrão e andar.

Em 2015, Félix da Costa venceu sua primeira corrida no DTM num fim de semana de sonho para a BMW (António Félix da Costa vibra com vitória em Zandvoort ao lado de Augusto Farfus e Bruno Spengler (Foto: BMW))

GP*: Você teve um ano bem bom no DTM, ganhando corrida…

AFC: Médio, pra falar a verdade. De médio para bom. Não é que eu esperava mais. No DTM, todo mundo tem seus altos e baixos, mas quanto menos ‘baixos’ você tiver, mais na frente do campeonato você vai estar. Este é o segredo. É ser constante. Por exemplo: quando você tem um fim de semana ruim para seu carro, para sua marca, você tem de pontuar.

Aconteceu muito isso: teve dia em que fiz pole, ganhei corrida, e em outro fim de semana estava em 15º, então isso não pode, não pode acontecer. Quando você lutar pelo título, em um fim de semana ruim você tem de estar entre os dez. Esse é o segredo. É isso o que temos de melhorar: tirar o melhor do carro em pistas que não são tão boas para nós. Esse é o nosso maior foco para este ano.

GP*: E como é conciliar o DTM com a F-E?

AFC: É um pouco complicado. Nem tanto pelo conflito de datas, mas vou te dizer… Cara, a F-E está ficando muito séria. Então, quando faltam duas semanas para a corrida, o pessoal quer que você vá à equipe fazer simulador, conversar, planejar. Quanto ao DTM, nem preciso dizer o quanto é sério aquilo ali: é a mesma coisa, você vai, faz o banco, conversa, analisa o ano anterior.

Os dois campeonatos exigem muito tempo fora da pista. Ano passado, por exemplo, fiz 180 voos. Esse ano eu também não paro. Agora em março vou ter um fim de semana de folga. É complicado, mas é tranquilo, cara, é o que eu gosto de fazer. Tenho 24 anos, tenho a sorte de viajar o mundo correndo de carro, não posso nem reclamar.
 

GP*: Falando em F-E, a corrida na Argentina foi uma enorme frustração, não?

AFC: Cara, foi duro de engolir. Já foi a segunda em que estávamos na frente. Na Malásia foi quase a mesma coisa. Estava em segundo, atrás do Lucas… não ia buscar a vitória, mas terminaria tranquilo em segundo lugar. Mas o carro parou, e depois, em Buenos Aires, foi a mesma coisa: uma boa largada, boas ultrapassagens, passei para segundo e o carro parou a meia volta de entrar nos boxes para fazer a troca de carro. Acabou que um cabo ali dentro partiu. Foi muito azar. Por isso que foi duro de engolir, porque essa eu senti que dava para ter vencido.

Então já são duas corridas que poderíamos pelo menos ter chegado ao pódio, mas o carro acabou quebrando. Mas estamos em equipe: ganhamos juntos e perdemos juntos. São nesses momentos em que a equipe é construída, nas dificuldades. 

Em 2015, Félix da Costa venceu nas ruas de Puerto Madero na F-E. Em 2016, ficou no quase… (António Félix da Costa comemora vitória em Buenos Aires na F-E em 2015 (Foto: Getty Images))

GP*: Você falou pouco antes que está muito fácil hoje pilotar um F1. Você sentiu um pouco isso quando esteve lá?

AFC: Quando comecei a andar na F1, acho que a categoria já estava indo um pouco nesta direção. Tive a sorte de fazer um teste em 2010 com a Force India. Foi, se não me engano, o último teste da F1 com pneus Bridgestone, e aquele pneu… Vou te dar um exemplo: na curva Copse, em Silverstone, com o Bridgestone a gente chegava, só tirava um pouco o pé e fazia a curva. No outro ano, com o Pirelli, mesmo sem qualquer grande mudança no regulamento, você tinha de reduzir uma marcha.

A direção em que o automobilismo está indo com os circuitos… até entendo a questão da segurança, hoje as pistas são mais seguras. Mas por exemplo: se você comete um erro numa curva,  o que acontece? Você não vai bater em nada, você vai passar pelo asfalto e vai seguir. E eu acho isso errado. Tudo bem, evita safety-car, mas não é automobilismo puro. Veja Suzuka, isso é automobilismo puro. Veja a dificuldade que é lá. E aqui o Brasil me faz lembrar um pouco isso: pistas mais antigas, mas que tem esse caráter mais puro. Gosto muito das pistas americanas também. É diferente.

GP*: Recentemente você saiu do programa de F1 da Red Bull. Existe ainda algum tipo de frustração por você ter sido preterido pelo Daniil Kvyat para 2014 na Toro Rosso?

AFC: Fica uma certa frustração, claro, mas jamais contra alguma pessoa em especial. Fica a frustração por não poder dar à minha família, aos meus amigos, a mim, às pessoas que me apoiam, a resposta: o que poderia ter feito o António na F1? Vai sempre ficar aquela pergunta. Depois vejo caras com quem lutei e até bati fazendo coisas boas na F1. Mas fica sempre aquela pergunta. Veja o que o Kvyat fez, ele que estava no lugar certo na hora certa, e acabei perdendo a carruagem, infelizmente.

No ano passado fui piloto reserva, e sempre era questionado sobre isso, então foi muito duro. No fim das contas, era muito cansativo, muitos voos, então decidi cancelar, encerrar este capítulo. Mas sou muito grato à Red Bull, por ela ter me ajudado em tudo o que eu sou hoje em dia. E no mesmo dia em que falaram que eu não ia para a F1, consegui estar no DTM. E não é fácil estar no DTM, é muito complicado. Então, tudo o que sou hoje, devo muito à Red Bull.

É assim que as coisas são. É um mundo político, um meio complicado, tive de saber jogar esse jogo, mas acho que sou uma pessoa melhor depois de ter aceito isso e não ter nenhuma grande frustração.

GP*: O que você acha que poderia ter alcançado na F1?

AFC: Eu nunca escondi que sou um piloto muito ambicioso. Já dividi curva com Kevin Magnussen, Daniel Ricciardo, Jean-Éric Vergne, com esses caras todos. Eu não iria para a F1 se não achasse que seria bem sucedido e tivesse como vencer corridas na F1. Mas é tudo sobre estar no lugar certo e na hora certa, estar numa equipe em que você tem chances.

Mas vou te falar: o Vettel é muito bom. Tive a sorte de acompanhar de perto. Todo mundo ali é rápido, mas o foco que ele tem, a dedicação que ele tem… Vejo aqui o Rubinho Barrichello, tive a chance de trabalhar com ele e conhece-lo melhor aqui, e ele é muito parecido com o Vettel nessa coisa de que eles adoram o automobilismo, eles vivem as corridas, e isso está como número 1 na vida deles, acima de tudo. No fim das contas, não basta ser bom: é preciso ter o trabalho fora da pista, a dedicação, o amor que você tem pelo esporte que vai fazer você ganhar corridas e ser campeão. E eu sinto que também tenho isso.

Se deixar, largo tudo para fazer uma corrida de carro, então lamento por não ter tido a chance de ver o que eu poderia ter feito na F1. Mas não adianta dizer ou especular sobre o que fui ou não fui. É olhar para frente.

Félix da Costa não esconde sua admiração pelo ‘mestre’ Sebastian Vettel (António Félix da Costa ao lado de Sebastian Vettel em Monza, 2014 (Foto: Getty Images))

GP*: Você falou do Vettel como um aluno fala do seu mestre. O que você mais aprendeu com ele nesse tempo de convivência?

AFC: A capacidade dele quando é para brincar ou quando é hora de levar a sério; a forma como ele motiva cerca de 800 funcionários numa fábrica de F1 a acreditar que ele pode vencer mais que seu companheiro de equipe; a capacidade dele de transformar tudo, de moldar um time à sua volta… foi um pouco do que eu tive dessa experiência de conviver com ele. Como disse, rápido na F1 todo mundo é. Obviamente que há alguns caras acima da média: Vettel, Alonso, Hamilton, Rosberg, Button, muitos caras… Ricciardo… Mas digo para você, no dia em que o Vettel tiver carro para bater o Hamilton, na hora isso vai acontecer, não tenho dúvidas disso. Então é isso o que eu tiro de aprendizado e o que eu vejo no Vettel em relação aos outros.

GP*: Saindo um pouco do automobilismo de pista, a gente vê que Portugal tem grandes nomes e grande tradição no Dakar: Paulo ‘Speedy’ Gonçalves, Hélder Rodrigues, Carlos Sousa. Você pretende um dia tentar algo assim na sua carreira?

AFC: Cara, tive a sorte de crescer numa fazenda lá em Portugal, então sempre andei de moto, sabe? Quadriciclo, moto, mesmo… Meu sonho é fazer um Dakar, mas não de moto porque aí tenho certeza que vou morrer [risos]. É muito perigoso. Dou muito valor ao que o pessoal de moto faz: acelera, navega, é muito difícil. Mas nos próximos cinco anos quero ver se consigo um Mini e vou fazer um Dakar.

GP*: E por que ‘Formiga’?

AFC: É uma história boa [risos]. Na minha primeira corrida de kart, lá no ano 2000, eu ainda era muito pequeno. Usava capacete branco, luvas brancas, e só dava para ver o capacete e a luva lá… e aí começaram a me chamar de Formiga, e foi impressionante a repercussão na época, capa de jornal, ‘Formiga vence’, isso por muito tempo. Mesmo quando era piloto de testes da Red Bull, esta alcunha me acompanhou, então pegou [risos]. Agora já cresci, não sou tão pequeno, mas é engraçado pela proporção que tomou na minha carreira.

© 1995 - 2020 - GrandePremio.com.br - Todos os direitos Reservados.

Connect