A briga que a Fórmula 1 precisa (ou quase isso)

Sem um rival para Hamilton dentro da pista, seria bom para o produto alguém que medisse forças pelo menos fora dela. Vettel chegou perto no GP do Canadá mas, no atual grid, Verstappen é quem mais se aproximaria do verdadeiro papel de vilão

André Avelar, São Paulo

Se na pista ninguém será capaz de destronar Lewis Hamilton, que ao menos fora dela alguém consiga rivalizar com o iminente hexacampeão mundial. A frieza da lei na punição a Sebastian Vettel, no último domingo (9), no GP do Canadá, foi o mais claro exemplo da briga que a Fórmula 1 precisa (ou quase isso) para deixar o seu produto um tanto mais atraente. Em tempos de poucas ultrapassagens, a velha narrativa do mocinho contra o bandido parece ser a mais sedutora na sétima corrida da temporada.

Não que os ‘malvados’ comissários no circuito de Montreal tenham dado os cinco segundos de punição ao ‘bonzinho’ piloto da Ferrari porque querem ver o da Mercedes na frente ou qualquer outra teoria da conspiração. Por mais que os tifosi tenham protestado nas redes sociais — e a conta no Twitter do comissário Emanuele Pirro, por exemplo, foi infestada de mensagem de descontentamento para dizer o mínimo —, não há qualquer sinal de trapaça na decisão tomada. O próprio Vettel chegou a falar, no rádio, seguramente no calor do momento, “estão roubando a corrida de nós”. Mas para por aí.

A rivalidade ainda faz bem ao esporte por mais que atualmente tenha sido escrita sem os costumeiros anti-heróis. Cristiano Ronaldo e Lionel Messi (futebol), Rafael Nadal e Roger Federer (tênis), Kawhi Leonard e Stephen Curry (basquete) se abraçam e se cumprimentam, talvez até se gostem, mas ora ganha um, ora ganha o outro. Com Hamilton e Vettel isso não acontece. Só um lado ganha. Por isso seria interessante para o enredo que pelo menos então um odiasse o outro. Mais do que isso, que um apontasse o dedo na cara do outro, falasse impropérios nos microfones e até tirasse a placa de primeiro lugar da posição correta.

Com as reações à punição, GP do Canadá teve algo a mais para contar depois da bandeirada final
Reprodução/Twitter/@F1

Vettel fez só a última dessas cenas que atraí o público além da F1, prende os fãs diante da TV e faz os mais apaixonados correr para a internet para comentar o que bem entender. Acabado o GP do Canadá, todos esses estão aguardando a próxima corrida e o novo embate dentro e fora das pistas se possível. Evidentemente que saber perder é uma arte, e daí todo o respeito ao alemão que, como tal, pediu para que não vaiassem o também cordial inglês na entrevista pós-corrida. Foi ótimo do ponto de vista humano que um tenha puxado o outro, ainda que timidamente, para o lugar mais alto do pódio, mas melhor ainda foi ver a irritação de um ao se sentir injustiçado. O #5 revelou que teve de ser convencido a ir para o pódio.

Quem mais se aproxima da figura de vilão no atual grid é, sem dúvida, o holandês Max Verstappen. Desde pelo menos o GP do Brasil, em novembro do ano passado, quando deu empurrões em Esteban Ocon por um acidente de corrida, o jovem de talento e sangue quente vem demonstrando que pode assumir esse papel. Falta-lhe não exatamente um detalhe: um carro competitivo ao longo de toda a temporada. A Red Bull é sem dúvida uma grande equipe e já demonstrou evolução nos últimos anos. Impulsionada pela Honda, aos pouco, vai reencontrando os caminhos e não está longe de uma vitória ou outra. Até a disputa pelo título, no entanto, vai tempo.

Ainda assim, sempre que pode, Verstappen demonstra essa pré-disposição a bancar quem está em falta na F1. E não para vender mais energético ou ganhar dinheiro do documentário da Netflix no ano que vem. O holandês parece mesmo ter essa natureza. Assim como o alemão, ele também não entendeu a punição, no toque com o mesmo Hamilton, no último GP de Mônaco. Por estar fora da disputa pelo título, não partiu para o confronto direto, mas imagine só se ali cada ponto fosse valioso para o campeonato.

Verstappen já demonstrou que pode fazer o papel de anti-herói que tanto a F1 precisaria
Divulgação/Red Bull Content Pool

É realmente difícil esperar que Verstappen tenha realmente uma briga para valer com Hamilton — esse aliás, nos tempos de Nico Rosberg na mesma garagem e, mais atrás ainda, com Fernando Alonso na McLaren já demonstrou que também gosta de um confronto um tanto mais apimentado. Mas, no momento, ninguém o vence o inglês dentro da pista e não vai comprar briga à toa fora dela. Em termos práticos, sem condições de título, Vettel não jogará o carro para cima de Hamilton, como fez no GP do Azerbaijão, em 2017. Ali valia o troféu. Perdeu, mas usou todas as suas forças para vencer.

Vettel à parte, os potenciais adversários de Hamilton, todos de reações orquestradas, seriam o chocho Valtteri Bottas, também de Mercedes; e quiça Charles Leclerc, até aqui, sabotado o quanto pode pela própria Ferrari. Como é possível notar, não há rival na pista e tampouco fora dela. As reações à punição pela ‘volta não-segura à pista’ transformaram o que seria uma boa corrida em uma prova memorável, com uma imagem inesquecível para os próximos bons anos. Como por falta de competitividade isso está longe de acontecer de novo ainda esse ano, a F1 fica em sua maior parte do tempo sem competição corrida a corrida e sem história para contar depois da bandeirada.

Ainda assim, com ou sem mocinhos e bandidos, que se aguardem cenas para os próximos capítulos.

 

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