A despedida do ‘amigo da Globo’

Saída de Reginaldo Leme, quase um ano depois da demissão do também experiente Lito Cavalcanti, prova que novo jeito de pensar a F1 já está no ar: sem jornalistas e com ex-pilotos na cabine de transmissão. Galvão Bueno, com problema de saúde, não teve voz ativa

André Avelar, São Paulo

A saída de Reginaldo Leme do quadro de funcionários do Grupo Globo, assim tão lacônica quanto repentinamente, como a emissora fez questão de confirmar na última quarta-feira (27) em nota oficial, traz a reboque uma velada despedida ao velho e fiel ‘amigo da Globo’, como gostava de dizer o comentarista especializado em automobilismo. Com mais de 41 anos de casa, não seria um mero desacordo trabalhista que o afastaria da telinha. Um novo jeito de pensar a Fórmula 1 na TV aberta está no ar: o mesmo jeito que demitiu Lito Cavalcanti há quase um ano.

Bem ou mal, as transmissões de futebol já seguem esse padrão — já não mais exatamente o ‘Globo de qualidade’. Casagrande, Júnior, Caio Ribeiro e Roger Flores (uns bons, outros nem tanto), todos ex-jogadores, falam com conhecimento de causa o que acontece no campo. A cada quarta e domingo se revezam com comentários, análises e palpites de quem realmente muito viveu por vestiários, concentrações e estádios. Ao lado, um narrador, profissional da locução, que tem o papel de dar o fio da meada na história contada em 90 minutos e uns quebrados. São cada vez mais raros os casos, por exemplo, de Ana Thaís Matos, Bob Faria e Mauricio Saraiva, que seguem nos comentários.

Percebe que, descontados os repórteres de campo e, eventualmente, alguém na retaguarda da transmissão, quase não há jornalistas no ao vivo? Evidentemente que, em tempos de fake news, para dizer o mínimo, a profissão anda pra lá de desgastada e toda argumentação pode soar como reserva de mercado. Chororô mesmo. Não se trata disso. Buscar a informação, seja com jogadores de futebol ou com pilotos de F1, para sempre será importante, mas como é bom contar com alguém que tem nas veias o dever de informar independentemente da escola de jornalismo em que tenha sentado. Saber, e revelar, a verdade para sempre será fundamental.

Galvão Bueno e Reginaldo Leme ajudaram a construir paixão do brasileiro por automobilismo
Reprodução/Instagram/@regileme

Em revelar a verdade, Regi deu aula de jornalismo. Com sua fala tranquila, porém sempre segura, tirou a pulga de trás da orelha e revelou ao mundo o ‘Singapuragate’ — escândalo em que Nelsinho Piquet foi orientado pela Renault a bater de propósito e provocar a entrada de um safety-car no GP de Singapura de 2008 que deu a vitória ao companheiro Fernando Alonso. Notícia em primeira mão, coisa exclusiva… Um furo de reportagem. Foi esse profissional, cada vez mais em extinção, de mais de quatro décadas e 500 corridas, que a Globo abriu mão.

A versão oficial, contestada pelo próprio comentarista, que falou ao GRANDE PRÊMIO e, mais tarde, comentou com amigos a situação em uma confraternização no estádio do Morumbi, em São Paulo, é de que Regi não aceitaria voltar ao regime de CLT (registro em carteira assinada) em detrimento ao de PJ (em que o profissional emite uma nota fiscal, em geral da empresa em que abriu para prestar serviços). O profissional disse que ainda está em processo de negociação. Pelo que se sabe, no entanto, ele sequer participaria do derradeiro GP de Abu Dhabi, por coincidência, o último da temporada.

Lito, demitido em dezembro do ano passado do SporTV, foi o primeiro a alertar para uma revolução que estava acontecendo dentro do grupo, em entrevista exclusiva para o GRANDE PREMIUM. Ali, ele deixou no ar que a máxima de que jamais ex-atletas estariam comentando sem a presença de um jornalista em breve cairia por terra. Foi o que aconteceu. Desde 1994 no canal, desde os primórdios portanto, ele era o comentarista principal da Stock Car.

“Fiquei 24 anos lá dentro, os 23 primeiros foram um paraíso. No 24º, com esse takeover da Globo, o ambiente estava mudando. Nós vimos que isso estava se formando, a gente sabia que ia haver uma mudança dos cargos. Já tinha acontecido na 'Folha', no 'Estadão', e isso sempre dá em corte, é o mercado se estreitando”, disse. “Estava vendo minha geração ser mais encostada, apesar de ter gente de competência acima de qualquer dúvida.”

Se não houver uma reviravolta no caso então, os comentários da F1 devem ficar por conta de Luciano Burti e/ou Felipe Giaffone, esse último que inclusive substituiu Reginaldo, na 1000º corrida da categoria, no GP da China deste ano. O então comentarista titular, de 74 anos, ficou de fora por conta de uma pneumonia. De uma forma ou de outra, cedo ou tarde, já há uma revolução em curso.

A palavra de Galvão

Sobre quadros de saúde, a demissão, ou não-renovação, do contrato de Reginaldo aconteceu em um momento em que Galvão Bueno sequer está por perto já que se recupera de um quadro de infarto. O narrador, que ao lado do amigo ajudou a intensificar a paixão por automobilismo em gerações e gerações de brasileiros, estava escalado para cobrir a final da Copa Libertadores, no último sábado, mas sentiu-se mal dias antes e foi internado em Lima, no Peru, local da partida. Aos 69 anos, o narrador não cogitou aposentadoria desta vez, mas sabe-se que não narrará para sempre. Daí um problema ainda maior para substituir o homem do microfone. Hoje, Luís Roberto, Cléber Machado e Sérgio Maurício, não necessariamente nessa ordem, narram corridas no Grupo Globo.

Com ou sem o microfone nas mão, Galvão talvez viva o momento em que menos tenha voz ativa dentro da emissora que também é (ou foi) a sua própria cara. Em recente entrevista ao próprio canal, tudo bem, confirmou a história de que desde 2004 era proibido de narrar Stock Car, em razão do filho Cacá competir, mas que “estava com vontade de narrar umas corridinhas”. “Por mim, estaria lá até hoje”, disse. Estava lá na Corrida do Milhão, em agosto, se portou com o que se espera de um autoproclamado “Vendedor de Emoções” mas, internamente, não conseguiu reverter o afastamento do repórter Mauro Naves.

Galvão Bueno e Reginaldo Leme estiveram juntos no último GP do Brasil
Reprodução/Instagram/@regi

Pouco antes do início da Copa América para a seleção brasileira, em junho, veio à tona o suposto caso de estupro de Neymar contra a modelo Najila Trindade. Amigo pessoal de Neymar Pai, Mauro não revelou a informação e a omitiu da emissora em um primeiro momento alegando que queria apurar mais a história. A TV Globo, apesar do lobby de Galvão por seu repórter preferido, então com 31 anos de casa, entendeu que Mauro quis acobertar o caso e decidiu por seu afastamento. Depois, veio a não-renovação do contrato no que teria sido também uma derrota para Galvão. Para quem duvida da força da palavra do narrador, ele foi a principal pessoa na volta de Casagrande aos comentários após uma recaída com drogas, em 2009.

“Ele foi uma das pessoas que mais me ajudaram dentro da TV Globo depois do meu problema. Eu tenho um respeito grande pelo Galvão Bueno. Profissionalmente, ou no comportamento dele, nem tudo me agrada, nem tudo eu gosto. Mas, como ser humano, por tudo o que ele fez por mim, pode contar comigo para o resto da vida”, disse Casagrande à revista Placar, em 2011.

 

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