A história de um campeonato perdido

Entre erros na pista e na tática, Vettel e a Ferrari desperdiçaram pontos preciosos em um campeonato onde finalmente conseguiram tirar a vantagem de desempenho da Mercedes. Quais são as lições que ficam para 2019?

Renan Martins Frade, de São Paulo

Quatro títulos seguidos no Mundial de Pilotos e no de Construtores. Quando começou a temporada 2018, a Mercedes era, claro, a favorita para alcançar o quinto campeonato nessas duas disputas. Porém, depois de um salto de desempenho em 2017, parecia que finalmente as Flechas de Prata teriam um verdadeiro adversário na Fórmula 1 atual: a Ferrari.

O prognóstico não era sem motivo. Os italianos finalmente tiraram a vantagem dos alemães nas unidades de potência, conseguindo os mesmos (e até mais) cavalos que os adversários. O SF71H, evolução do modelo do ano passado, foi bem-nascido. Ainda que a Mercedes não tivesse se perdido no desenvolvimento do seu carro, a Ferrari soube fazer a lição de casa.

No cockpit, o carro vermelho trazia o único outro piloto que poderia fazer frente ao arrojo, técnica e experiência de Lewis Hamilton: Sebastian Vettel, tetracampeão. Com a vantagem de ter, no segundo carro, Kimi Räikkönen, seguramente melhor que Valtteri Bottas.

Estava tudo lá para a Scuderia finalmente encerrar um jejum que vem desde 2007 - ou, ao menos, chegar próximo do título, certo? Bom, após 19 etapas do início do mundial 2018, estamos aqui, com mais um campeonato para Hamilton e para as Flechas de Prata.

O que será que deu errado?

O ano começou bem para Vettel, com vitórias na Austrália e Bahrein
AFP

O ano começou bem para Vettel, é verdade. O alemão venceu na Austrália e no Bahrein. No entanto, no Azerbaijão, já aconteceu o primeiro erro de Sebastian. O #5 dominou o começo da prova, mas, ajudado pela táttica e pelo safety-car causado pela batida entre as Red Bulls, Bottas conseguiu ficar à frente do adversário. Logo após a bandeira verde, o alemão foi ultrapassar o finlandês, travou pneus, errou feio e caiu para o quarto lugar. O #77 ainda teria um pneu furado, deixando a vitória com Hamilton - que, ali, assumiu a liderança do campeonato pela primeira vez.

Nada que fosse irrecuperável. Vettel manteve a consistência e, após a vitória no Canadá, a sétima etapa da temporada, ele reconquistou a dianteira por um ponto - 121 a 120.

No entanto, o segundo erro capital do ano veio em seguida, no GP da França. Não era uma pista para os vermelhos, mas, ao pressionar Bottas na largada, Vettel se envolveu mais uma vez em confusão, perdendo pedaços da asa e tempo. Acabou apenas com um quinto lugar ao final da corrida - e vendo Lewis reassumir a liderança do mundial.

A sorte ainda voltou a sorrir para a Ferrari: Hamilton teve um raro a abandono na Áustria, GP vencido por Max Verstappen, e Vettel retomou a ponta do campeonato. Com a vitória na Inglaterra, Sebastian tinha tudo para ampliar a liderança nas corridas seguintes, que favoreciam o time italiano. 

O desastroso erro na Alemanha
Reprodução/F1

Foi aí que veio aquele que pode ser considerada a pior falha do tetracampeão em todo o ano. Ele dominava com certa facilidade em casa, em Hockenheim, quando errou, escapou e bateu sozinho. Ali, Hamilton reassumia a liderança do Mundial de Pilotos para nunca mais deixá-la. Lá, também, a Mercedes ultrapassou a Ferrari no campeonato de construtores. 

O #5 voltaria a ser o primeiro na Bélgica, algo que tinha tudo para se repetir na Itália. Em Monza a pole foi de Räikkönen, mas as atenções estavam no segundo e terceiro lugares do grid, respectivamente Vettel e Hamilton. Logo após a largada, na primeira volta, os dois se tocaram e sobrou para o alemão, que não deu espaço para o adversário, ficou ao contrário na pista e perdeu várias posições.

O tetracampeão fez uma corrida de recuperação, mas o máximo que conseguiu foi um quarto lugar. Para piorar, Lewis correu como nunca naquele dia, tendo uma épica disputa com Kimi e vencendo a prova.

Naquela altura o inglês tinha 30 pontos de vantagem na ponta. Foi aí que começou a melhor fase dele no ano: foram mais três vitórias seguidas, em Singapura, Rússia e Japão. Enquanto isso, os italianos batiam cabeça.

Em Singapura, o próprio Vettel admitiu que poderia ser segundo em um GP que chegou a liderar, mas perdeu espaço quando a Ferrari optou por pneus ultramacios no primeiro pit stop contra os macios dos outros ponteiros. Acabou em terceiro.

Um dos raros momentos de felicidade de Vettel no segundo semestre, na Bélgica
Ferrari

Depois, em Suzuka, tentaram dar um nó tático, mas foram eles mesmos que acabaram enrolados. Tudo porque, com ameaça de chuva no Q3 da classificação, a Ferrari liberou seus pilotos com pneus intermediários enquanto todos os outros fizeram a primeira volta rápida com compostos slicks – justamente a condição que se provou a melhor naquele momento. Percebendo o erro, a Scuderia recolheu seus carros, trocou para pneus de pista seca e eles foram fazer a volta rápida já em um momento no qual uma leve chuva caia no autódromo. Timing completamente errado.

Resultado: Räikkönen fez apenas o quarto tempo, enquanto Vettel errou, saiu da pista e amargou um nono lugar no grid.

Já na corrida, quando fazia uma desesperada recuperação, o alemão forçou uma ultrapassagem em Max Verstappen. Os dois se tocaram, com o alemão ficando mais uma vez com a pior. Resultado final do GP: apenas um sexto lugar, muito pouco para quem lutava pelo título.

Quando a Fórmula 1 chegou aos EUA a fatura estava quase liquidada. Ainda assim, Mercedes e Ferrari tinham o ritmo parecido e Sebastian conseguiu o segundo lugar no Q3, atrás apenas de Lewis. Porém, o alemão foi penalizado por excesso de velocidade sob bandeira vermelha no primeiro treino livre e perdeu três posições. Na corrida, uma péssima largada e um toque com Daniel Ricciardo logo na primeira volta decretaram o desastre para o #5, que terminou o GP apenas em quarto. Hamilton foi terceiro é verdade, mas a vitória de Kimi mostrou que o alemão poderia sonhar com algo mais naquele domingo.

E aí chegamos no GP do México. Com o grande desempenho da Red Bull no Autódromo Hermanos Rodriguez, Vettel fez o máximo que poderia conseguir: foi segundo. Não era o suficiente para manter a briga do campeonato e, com um quarto lugar, Lewis Hamilton foi campeão.

Hamilton comemora o título no México: acabou
Mercedes

O desfecho teria sido outro se não fossem pelos erros de Ferrari e Sebastian Vettel? É provável que não. O agora pentacampeão pilotou muito em 2018, teve poucos erros e aproveitou todas as oportunidades que teve – características imprescindíveis para ficar com o título. Porém, se não fossem pelos erros do piloto da Scuderia na Alemanha e na Itália, a diferença a esta altura do campeonato poderia ser de apenas 12 pontos. Sem contar que, sem o mesmo desespero, Vettel poderia ter errado menos nos últimos GPs e ainda botado uma certa pressão no rival.

A decisão poderia vir, de forma emocionante, aqui para Interlagos, no GP do Brasil, ou até mesmo em Abu Dhabi.

Bom, se tem uma coisa que não existe na vida é o “e se...”. Fatos passados são inalteráveis e temos, todos nós, que aprender com as escolhas erradas que fizemos para que elas não se repitam. Se 2018 já praticamente se encerrou, ficam as lições para que a Ferrari tenha melhor sorte na próxima temporada. Resta saber qual será o impacto da saída de Kimi Räikkönen e a entrada de Charles Leclerc nessa equação. Será que o monegasco se contentará, ao menos no começo, com a função de escudeiro, ou tentará superar o companheiro de equipe?

Tal atitude poderia ser desastrosa, pois, do outro lado, a Mercedes inteira corre por apenas um piloto... E o hexa poderia ficar mais próximo do que qualquer um imagina.