Alegria em meio à tristeza

Charles Leclerc venceu a primeira corrida da carreira na F1, mas a conquista veio em um fim de semana de uma grande perda para ele e para todo o automobilismo

Renan Martins Frade, São Paulo

Foi um fim de semana de emoções conflitantes para Charles Leclerc. O monegasco dominou todos os treinos livres, a classificação, fez a pole e liderou boa parte do GP da Bélgica. Após as 44 voltas realizadas neste domingo (1º), o monegasco venceu a primeira corrida na carreira, encerrou o jejum da Ferrari de quase um ano e chorou.

Infelizmente, as lágrimas não foram só de alegria.

“Eu não posso acreditar. Descanse em paz”, postou o piloto no sábado, no Instagram. Ele era amigo de Anthoine Hubert, que morreu após um grave acidente também em Spa, na prova da Fórmula 2. “Eu cresci com Anthoine e eu dedico a vitória a ele”, disse o ferrarista nas entrevistas após o GP. A perda do amigo e companheiro de automobilismo foi mais um duro golpe na vida de Leclerc, que também era muito amigo de outra jovem promessa que perdeu a vida nas pistas: Jules Bianchi.

Apesar do coração pesado, foi uma vitória contundente para Charles. Tem mais: ainda que Sebastian Vettel tenha mais pontos na classificação do campeonato (169 a 157), foi Leclerc que teve os momentos de maior brilho na Ferrari no ano. Finalmente alcançar a primeira vitória representa, muitas vezes, um rito de passagem para os grandes pilotos. Tira-se o primeiro grande peso na F1, o que pode ajudar na tranquilidade e confiança para que as próximas conquistas aconteçam.

Charles Leclerc já havia dominado os treinos e precisava só se concentrar na corrida em Spa
Divulgação/Ferrari

Será que veremos o mesmo acontecer com Charles?

Ainda que sejam duras, as duas perdas não parecem ter tirado o foco do piloto do carro #16 - pelo contrário. Pelas declarações e empenho na pista, percebe-se que Leclerc não está correndo e sendo rápido apenas por si mesmo, mas também pelos amigos.

Agora, pensando de forma prática, o bom desempenho da Ferrari e de Charles Leclerc chegaram muito tarde na temporada. Lewis Hamilton lidera o campeonato com certa tranquilidade, com Valtteri Bottas em segundo no mundial - e o finlandês já mostrou que, ao menos em 2019, não tem bala na agulha para superar o pentacampeão. Max Verstappen, que está em terceiro, errou ao se chocar com a Alfa Romeo de Kimi Räikkönen, logo no começo da corrida em Spa. O holandês abandonou e teve a reação no campeonato barrada - ele vinha de duas vitórias e um terceiro lugar nos últimos quatro GPs.

Já Vettel está em uma de suas piores fases na F1. Sem vencer há um ano, viu o companheiro de equipe muito melhor em todo o fim de semana. Até por isso, foi obrigado a deixar o #16 passá-lo após receber a (aceitável, neste caso) ordem de equipe. Ou o alemão reage, ou corre o risco de, com razão, ser colocado em segundo plano dentro dos objetivos da equipe.

Para temperar o campeonato, vamos torcer para a Ferrari continuar no caminho das vitórias - que pareciam que seriam comuns após a forte pré-temporada da equipe, mas que demoraram a acontecer. Com sorte, os italianos usam um bom final de ano para recuperar Vettel e consolidar Leclerc, além de tentar dificultar o hexa de Hamilton.

Se não for assim, a FIA já pode mandar cravar o nome do campeão de 2019 no troféu da Fórmula 1...