Alex Albon, um humilhado exaltado

Tailandês passou um ano no programa de jovens pilotos da Red Bull, a mesma equipe que tende a contar com seus serviços para o projeto de fazer de Max Verstappen um campeão mundial. Disputa pela vaga com Pierre Gasly, agora na Toro Rosso, vai até GP do Japão

André Avelar, São Paulo

Quando acertou a entrada na Fórmula 1, Alexander Albon assinou também a volta ao maior ‘moedor de pilotos’ do automobilismo nos últimos tempos. O tailandês, que havia sido dispensado de tão exigente quanto desordenado programa de talentos lá atrás, viu a chance de realizar o sonho de uma vida inteira justamente na Toro Rosso. Só doze corridas depois, não só demonstrou sobreviver, como ainda foi promovido à Red Bull e, mais, tem chances reais de continuar na equipe principal para a temporada 2020. Segundo a alta cúpula da equipe dos energéticos, o veredicto sai em duas no máximo duas corridas, depois do GP do México.

Albon, de 23 anos, que hoje concorre com o francês Pierre Gasly — esse por sua vez rebaixado, pelo menos momentaneamente, à Toro Rosso — já foi vítima da avidez dos próprios dirigentes da Red Bull. Lá em 2012, no afã de formar a qualquer custo novos Sebastian Vettel, o time o dispensou. Depois de ser vice-campeão do Mundial de Kart, o jovem foi acolhido pelo guarda-chuva da equipe, mas não foi bem em sua estreia nos monopostos pela F-Renault. Sobrou então uma chance no programa de desenvolvimento da então Lotus. E, por ali as coisas começaram a dar certo, e o talento voltou a aparecer a partir de 2014.

Os anos seguintes foram de temporadas, no mínimo, consistentes na Fórmula 3 Europeia (sétima colocação geral) e na GP3 (vice-campeão, tendo perdido o título para Charles Leclerc, na última corrida da temporada). A partir daí, o caminho para a F1 parecia traçado. Faltava-lhe, como para a maioria dos pilotos, garantias financeiras para voos mais altos na carreira. A bandeira tailandesa, nacionalidade da mãe, teria sido inclusive uma estratégia para desde início angariar mais patrocinadores para o menino que, filho de pai inglês, nasceu em Londres.

Albon garante não ter ressentimentos de Marko por passagem relâmpago no Junior Team em 2012
Divulgação/Red Bull Content Pool

Como o próprio Albon disse ao site oficial da F1, não há ressentimentos daquela época com o consultor Helmut Marko, homem que o dispensou e o contratou sete anos depois.

“Naquela época, não estava guiando tão bem. Não havia razão para me deixar a bordo do programa, então, não há o que contestar daquele tempo”, afirmou o piloto, na oitava posição do campeonato, com 52 pontos, 17 a mais que o sexto colocado Gasly.

Sisudo como de praxe, Marko não se rende em elogios ao tailandês. Em recente entrevista para a austríaca Servus TV, o consultor disse que “todas as corridas dele foram boas”.

Hoje companheiros, Verstappen e Albon já foram rivais nas categorias de base do automobilismo
Divulgação/Site Oficial/Alexander Albon

 

“O que ele fez até agora é uma boa recomendação para a próxima temporada” disse Marko, sem colocar Daniil Kvyat, o outro piloto da Toro Rosso e que já esteve na Red Bull, no páreo. “A única solução para nós é termos dois pilotos fortes para competirmos pelo Mundial de Construtores em 2020.”

Em seu primeiro ano de F2, Albon demonstrou outra vez precisar de um pouco mais de tempo para amadurecer. Os resultados pela ART demoraram a sair e, já no circuito da F1, as expectativas em torno dele foram freadas, com dois segundos lugares e a décima colocação geral. Em contrapartida, seu antigo rival Leclerc começava a encantar o mundo com o título do último degrau antes da principal categoria do automobilismo. Em 2018, pela DAMS, a coisa mudou de figura. Albon venceu quatro corridas, brigou pelo título, mas terminou na terceira colocação — os ingleses George Russell e Lando Norris, assim como ele, todos na F1 no ano seguinte, ficaram com as primeiras colocações. Nesse ano, o hoje campeão Nick de Vries, que o havia batido no kart e na F-Renault, foi o quarto.

Mais tarde, depois de ter sido passado para trás no programa da Red Bull, o piloto tailandês parecia estar contente com sua iminente ida para a Fórmula E pilotar pela Nissan E.DAMS. Mas aí Daniel Ricciardo havia decidido buscar seu lugar ao sol fora da equipe austríaca e tudo mudou de repente. Como prova de que o programa de talentos é falho, o time de Milton Keynes novamente se viu sem um piloto para assumir o cockpit da Toro Rosso e foi atrás de Albon. No final de 2017 e para ao longo de 2018, a equipe já havia importado, sem o sucesso esperado, o neozelandês Brendon Hartley do WEC.

Diante dos esforços de Marko e Christian Horner para garantir sua contratação já que esses também estavam com as costas na parede sem pilotos, o #23 sofreria talvez ainda mais pressão que os demais. E ele tratou de fazer tudo corretamente. Com uma Toro Rosso que só lhe propunha brigas por uns e outros pontos, conseguiu seus objetivos. Ainda com uma dose de sorte aqui e outra ali, foi até o sexto lugar no GP da Alemanha. Em contrapartida, Gasly rateava de Red Bull com resultados inexpressivos para o desejo dos chefes. Mais do que isso, o francês ainda queria perdeu muito tempo querendo pilotar a sua maneira em uma equipe que abertamente sonha em ver Max Verstappen campeão mundial. Não demorou muito e então veio a já conhecida troca de pilotos entre as equipes.

Com a consciência de que deveria ajudar Verstappen a desenvolver o carro do ano que vem, aquele que será capaz de bater Mercedes e Ferrari e ainda fazer o campeão mundial (desde que seja o holandês, é claro), Albon começou com muitíssimas glórias seu trabalho na nova equipe sendo que a ele só havia sido pedido para não cometer erros. Depois de uma classificação caótica, em que Verstappen chegou a alegar falta de potência, o tailandês estranhamento poupou equipamento, caiu no Q2 e foi parar na 17ª posição. Na corrida, com algumas ultrapassagens de levantar os mecânicos, coisa que Gasly nem de longe vinha fazendo, ele terminou na quinta colocação.

A quinta colocação, seu melhor resultado na carreira, foi repetida também no último GP da Rússia. Desta vez com largada ainda pior, do pit lane, depois de uma batida no Q1 — esse sim, o seu primeiro grande erro na nova equipe. Erro que foi compensado. A atuação do tailandês pelas esquinas do Parque Olímpico Sóchi foi soberba, arrumando pontos de ultrapassagem onde antes não havia. A progressão das posições permitiu ao jovem piloto uma corrida pelo menos divertida, ainda que tivesse torcido por algo mais calmo.

Albon demonstrou amadurecimento e entendeu que precisa ajudar Verstappen para temporada 2020
Divulgação/Red Bull Content Pool

“Acredito que foi uma boa corrida. A quinta colocação era o melhor que nós poderíamos alcançar. Queria muito me recuperar depois da batida no classificatório e fiquei muito feliz como a corrida acabou. Foi divertido ultrapassar o pelotão, mas não quero que todas minhas corridas sejam assim. Espero um fim de semana mais limpo e calmo no Japão”, disse Albon depois da prova, limitando-se a Suzuka para falar do seu futuro.

Se em determinado momento da carreira faltou amadurecimento ao jovem piloto, Albon mostrou em quatro corridas, dentro e fora das pistas, que está disposto a agarrar a oportunidade que lhe foi tirada lá atrás na própria Red Bull. Mais do que contribuir com o projeto de um título para Verstappen, o talentoso piloto tem a chance de em breve fazer o hino tailandês tocar pela primeira vez na F1 em clara prova de que um humilhado pode ser exaltado.

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