Análise: a nem tão óbvia batalha estratégica do GP do Canadá

Se o GP do Canadá foi decidido na estratégia, natural dizer que a Ferrari cometeu um erro ao optar por dois pit-stops. Acontece que as decisões tomadas ao longo da prova não foram tão preto-no-branco quanto o resultado pode indicar

Renan do Couto, de São Paulo

Corridas estratégicas são, na maioria das vezes, de difícil compreensão. As razões para as decisões tomadas ao longo da prova ficam escondidas nas entrelinhas e menos expostas no resultado em si. Foi o caso do GP do Canadá deste fim de semana.

Obviamente, a Ferrari ter optado por tirar Sebastian Vettel da ponta para fazer uma tática diferente de boxes salta aos olhos como um erro crasso, tendo em vista que o alemão perdeu a vitória para um Lewis Hamilton que trocou de pneus só uma vez. E naturalmente que, se a estratégia decidiu a parada, podemos considerar que a Ferrari errou. Mas é preciso ir um pouco mais além para entender o que realmente se passou em Montreal.

A largada fantástica de Vettel deu um novo contorno para a corrida
Red Bull/Getty Images

A temperatura mais baixa e a previsão da Pirelli

 

A temperatura do asfalto estava na casa dos 12ºC antes da largada em Montreal, indicando que seria mais difícil aquecer os pneus, bem como o desgaste seria menor. Para a prova, seria obrigatório o uso de pelo menos um jogo de pneus macios.

No sábado, a Pirelli sempre manda sua previsão de estratégia ideal para a corrida. O recado: “Se estiver frio, devemos esperar uma troca: largando com ultramacios, é parar na volta 25 e ir com os macios até o final”. Seriam 45 voltas com os pneus ‘amarelos’. Nos treinos de sexta, com a temperatura mais alta, Jolyon Palmer chegou a dar 42 — não em sequência.

Ainda assim, ninguém estava realmente confiante de que isso seria possível no domingo. Nem mesmo a Mercedes.

A ‘estranha’ parada de Vettel

 

Toda a briga pela vitória, é claro, muda quando Vettel toma a ponta nos primeiros 100 metros da corrida. Rapidamente, virou um duelo entre ele e Hamilton, que foram abrindo do resto do pelotão. O ritmo dos dois era semelhante, e quando a McLaren de Jenson Button quebrou e o safety-car virtual foi ativado, a Ferrari decidiu chamar Vettel.

Sem o benefício de poder olhar em retrospecto: foi uma decisão ousada e bastante inteligente. Explico.

Ainda na dúvida, mas propensa a fazer duas paradas, a Ferrari viu ali uma janela de oportunidade.

Arte: Grande Premium

Entrando nos boxes com todo mundo andando em velocidade reduzida na pista, Vettel ganharia tempo e possivelmente ficaria até mesmo à frente das duas Red Bull. Mas, já depois que ele estava no pit-lane, veio o aviso de que o SCV acabaria em dez a 15 segundos: o lucro foi menor, mas ainda assim ele saiu ganhando em relação a um pit-stop ‘normal’. E, em um circuito em que ultrapassar é mais do que possível, abrir caminho sobre Max Verstappen e Daniel Ricciardo não foi um problema.

A prova definitiva de que a Ferrari acertou ao menos no timing deste pit-stop, independentemente do resultado final? A diferença entre Vettel e Hamilton na volta 10 era de 1s310. Quando o inglês parou, estava 13s atrás. Em uma tática de dois pit-stops, a vitória ficava nas mãos de Vettel. Se são dois pit-stops ‘normais’, ele não vê a bandeirada a apenas 5s do britânico.

O ERRO GRAVE DA FERRARI: neste meio tempo, a Ferrari teve um erro que. sim, pode ser tratado como grave: fazer o pit-stop de Kimi Räikkönen na mesma volta de Vettel. Isso, novamente levando em conta o timing do SCV.

O aviso de que a bandeira verde voltaria foi dado quando o finlandês ainda estava saindo do hairpin. Era tempo de sobra para mandá-lo ficar na pista e dividir as estratégias — quem sabe Kimi consegue fazer uma parada só? Ou então ao menos esperar um momento melhor?

Esse pit-stop, sim, veio muito fora de hora. Kimi acabou só em sexto.

A reação da Mercedes

 

Paddy Lowe, diretor da Mercedes, disse depois da corrida: “Optamos por colocar os dois carros em uma estratégia de uma parada depois que a Ferrari se comprometeu muito cedo a fazer duas”. 

Toto Wolff corroborou: “Quando Sebastian parou com o safety-car virtual, ficou claro que fazer só uma parada era a nossa melhor chance de vitória, e então ia depender do Lewis conseguir poupar os pneus, alongar os stints e imprimir o ritmo de que precisávamos”.

Ou seja, teve um quê de reação da Mercedes à tática da Ferrari, o que não deixa de ser relevante.

A Red Bull também queria fazer só uma parada, mas não conseguiu. Bottas levou vantagem
Red Bull/Getty Images

A duração dos pneus

 

“Tentamos tirar proveito do safety-car virtual, que durou bem menos do que esperávamos. Poderia ter sido uma boa jogada, levando em conta a previsão do desgaste dos ultramacios, mas este desgaste não se concretizou no final”, admitiu Maurizio Arrivabene, chefe da Ferrari.

Na verdade, dos dez primeiros colocados, apenas dois conseguiram chegar ao fim fazendo só um pit-stop: Hamilton e Valtteri Bottas, o terceiro. Felipe Massa tentaria, mas abandonou, e Rosberg teve um furo de pneu.

Não é a primeira vez neste ano que a Mercedes consegue fazer os pneus durarem mais do que o esperado. Foi assim que o time derrotou a mesma Ferrari no GP da Austrália e que, há duas semanas, Hamilton bateu Daniel Ricciardo no GP de Mônaco.

Todavia, diante do que aconteceu com as outras equipes no GP do Canadá, é para se tratar muito mais como mérito da Mercedes e da Williams do que como demérito alheio.

Ok, Vettel chegou ao fim com a impressão de que os seus próprios pneus aguentariam mais. Se a Mercedes consegue entender isso tão bem, quem quer vencê-la, tem de conseguir também.

Mas vamos olhar para outros exemplos.

“Infelizmente, não tivemos o alcance para fazer só uma parada, então tivemos que fazer duas”, falou Christian Horner, chefe da Red Bull.

“Começamos a corrida esperando que fôssemos dar conta de uma estratégia de uma parada, mas com os pneus esfarelando muito e um alto desgaste, optamos por mudar para duas”, consentiu Bob Fernley, diretor-adjunto da Force India, uma equipe que historicamente gasta menos os pneus.

 

A briga nas voltas finais

 

Vettel ia se aproximando de Hamilton até cometer um erro na volta 57, passar reto na última curva e perder 2s. Dali em diante, não foi mais capaz de ameaçar o britânico, conformando-se com a segunda posição. Tanto ele como Kimi vinham travando bastante o dianteiro direito em todo o fim de semana.

Se Vettel consegue chegar — a diferença parou na casa dos 4s —, Hamilton seria obrigado a atacar mais e tirar o resto de vida que restava em seu jogo de pneus. A chance de seus tempos subirem drasticamente no final da prova era boa.

E aí podemos pensar de outra forma também: se os dois brigam do início ao fim com uma tática de só uma parada, algum deles chegaria ao fim? O desgaste certamente seria maior.

O abraço de Vettel e Hamilton após o bom GP do Canadá
Mercedes

A conclusão

 

A Ferrari tomou sua decisão antes, e acabou que o plano não vingou.

Se a estratégia de uma parada foi vencedora, a equipe errou por não conseguir aplicá-la. Fato. Por outro lado, se era para fazer duas paradas, ao menos com Vettel o trabalho foi o melhor possível. E é por isso que não tinha ninguém de cara feia depois da corrida, apesar de mais uma derrota em um momento em que o time está sob pressão.

Às vezes, essas variáveis estratégicas de um GP passam despercebidas ‘a olho nu’, mas quando dissecadas, tornam-se bem mais interessantes — assim como a corrida em si. E o que de melhor se tira do Canadá? Mais uma vez em 2016, a Mercedes precisou dar duro para vencer: a F1 de fato está ficando mais equilibrada.

Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.

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