O #14 magnífico do GP dos EUA

Espanhol, que já foi chamado de Samurai, recebeu o espírito dos cowboys do Velho Oeste em plena pista de Austin, no Texas

Renan Martins Frade, de São Paulo

Em 1960, o diretor e produtor John Sturges teve uma ideia que, em um primeiro momento, não parece ser lá muito inteligente: pegar um filme japonês chamado Os Sete Samurais, do mítico Akira Kurosawa, e gravar uma versão americana sem qualquer crédito ao original. Mais do que isso, ele trocaria toda a ambientação, originalmente no Japão Feudal e cheia de samurais, pelo Velho Oeste dos EUA, com seus cowboys e foras-da-lei. Não só deu certo como nasceu um clássico instantâneo, chamado Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, no original).

Yul Brynner, Eli Wallach, Steve McQueen, Charles Bronson, Horst Buchholz, James Coburn… Inesquecível.

Neste domingo (23), em Austin, justamente no Texas, Fernando Alonso teve uma viagem parecida. O piloto espanhol, que assumiu a alcunha de “Samurai” nos tempos de Ferrari e chegou a tatuar a histórica figura japonesa nas costas, resolveu também adaptar todo a garra e aplicação orientais para fazer uma grande corrida naquele que já foi o "oeste selvagem" dos Estados Unidos, largando em 12º e chegando em quinto.

Pois é, Alonso não foi o grande vencedor da prova, mas foi a estrela em terras texanas. Até porque, se você olhar bem quem chegou à frente dele, verá que Lewis Hamilton nunca foi incomodado na liderança; Nico Rosberg, na outra Mercedes, correu com o regulamento na mão e, mesmo tendo ficado em quarto por alguns momentos, beliscou o necessário segundo lugar; Daniel Ricciardo, da Red Bull, fez a melhor corrida possível, mas conseguiu apenas ser o “melhor do resto”, em terceiro; por fim, em quarto, Sebastian Vettel vive um ano para esquecer na Ferrari e o GP dos EUA foi mais um capítulo nessa trajetória.

Na real, Fernando Alonso não foi, sozinho, “os Sete Magníficos”, mas levou o #14 – justamente o dobro do numeral que dá título ao western – para boas brigas na pista, com um total de seis ultrapassagens (sendo apenas duas com o uso do DRS).

A prova do bicampeão começou com uma boa largada. Se valendo da sorte, arrojo e dos enroscos das Force India de Nico Hülkenberg e Sergio Perez, além da Williams de Valteri Bottas, o piloto da McLaren já era o nono ao final da primeira volta. Nesse começo de prova, o espanhol passou a perseguir Carlos Sainz, da Toro Rosso. Só que ele não conseguiu muita coisa nessa disputa caseira antes da primeira parada, na 12ª volta.

Quando a primeira rodada de pit stops se estabilizou, Fernando estava em décimo — atrás de Daniil Kvyat, que fazia um primeiro stint mais longo e ainda não havia parado. Não demorou para o espanhol passar pelo russo, completando a 17ª volta novamente no nono posto.

Mais uma vez Alonso voltou à caça de Sainz, na briga doméstica da Espanha. Só que aí a sorte sorriu para ambos na volta 30: Max Verstappen, da Red Bull, teve problemas no câmbio e passou a se arrastar na pista, sendo ultrapassado pelos dois. Em seguida, por conta da posição no qual o carro ficou parado e pela necessidade do uso do guincho para retirar o carro rubro-taurino da pista, os comissários preferiram lançar mão do Virtual Safety Car. Com o VSC, você sabe, não só estão proibidas as ultrapassagens, como também os pilotos são obrigados a manter uma velocidade menor e as mesmas distâncias entre os carros. Hora perfeita para o segundo pit stop de Carlos e Fernando, que perderam pouco tempo em relação aos outros competidores.

Com essa jogada, Sainz ultrapassou Felipe Massa, enquanto Fernando acabou em oitavo, mas agora colado no brasileiro. Já na volta 39, outra sorte: uma atrapalhada da Ferrari na parada de Kimi Räikkönen tirou o finlandês da prova. A essa altura, Alonso já era sétimo.

Ao que parece, o espanhol passou as voltas seguintes guardando equipamento e procurando estar próximo dos adversários que estavam à frente. Foi mostrar as garras no finalzinho, ultrapassando Massa no 51º giro. Os dois carros se tocaram, com o brasileiro acabando com um pneu furado. “Eu já estava contornando a curva e ele simplesmente mergulhou por dentro”, disse o piloto da Williams depois do GP. "Eu estava entrando na curva e ele veio e bateu no meu carro. Aí eu tive um furo de pneu". O espanhol, claro, defendeu a manobra após: “Acho que eu estava lado a lado com ele. Não é como se eu estivesse vindo do fundo fazendo maluquices. Eu já estava lado a lado e não havia espaço para contornar a curva”.

Apesar da polêmica, não houve qualquer punição aos dois pilotos.

Alonso perseguindo Sainz em Austin
Divulgação / McLaren

Em seguida, o #14 partiu para resolver de vez as contas com o compatriota com uma bela ultrapassagem na penúltima volta, inclusive com a McLaren espalhando na saída da curva e indo além dos limites da pista. A disputa entre os dois foi tão emocionante nos metros finais que, de certa forma, a direção de TV deixou quase que praticamente de lado a chegada do vencedor Lewis Hamilton. Vimos apenas o prateado da Mercedes saindo da última curva e recebendo a bandeira quadriculada logo em seguida.

Dessa forma, Fernando Alonso conquistou um suado quinto lugar. Ainda assim, o piloto não parecia totalmente contente com o desempenho do carro. “Foi um grande resultado para nossa motivação, estou feliz com o quinto lugar, mas sei que ganhamos alguns lugares por problemas dos outros. Nosso ritmo não era tão bom assim, precisamos entender o que houve", disse o espanhol.

Quer saber? Tanta reclamação deve ser só para cumprir o protocolo. Afinal, logo após ultrapassar a Toro Rosso, Fernando mandou um belo “yeehaw” pelo rádio. Uma comemoração bem ao estilo cowboy.

Contente ou não, Fernando agora está em 10º no Mundial de Pilotos, com 52 pontos — três a mais que Massa e 31 a frente do companheiro Jenson Button. Falando no inglês, aliás, é bom dizer que ele não fez uma corrida de se jogar fora: depois de uma classificação problemática, largando apenas em 19º, o #22 beliscou um nono lugar nos EUA, com dois pontinhos a mais na mala despachada para o México.

Apesar de uma temporada de 2015 horrível e um começo de 2016 ruim, a McLaren-Honda parece estar, aos poucos, se encontrando. Ainda falta muito, é verdade, mas pelo menos a motivação de Fernando Alonso finalmente parece estar lá em cima. Se tudo der certo, quem sabe a equipe consegue se tornar a quinta ou a quarta força do campeonato na próxima temporada. Sim, Alonso ainda tem o sonho de ser campeão, mas é preciso dar um (longo) passo de cada vez. Resta saber se ele vai ter paciência (e idade) para isso.

Quer saber? Dane-se o futuro, nem que seja só por alguns dias. O que vale é que temos um samurai cowboy na F1. Ok que Steve McQueen morreu em 1980, mas o ator, famoso por ter sido o “anti-herói” em Hollywood e pela paixão pelo automobilismo, teria sorrido com a referência.