O chilique que de novo não deu em nada

Leclerc se comporta como primeiro piloto, mas ainda encontra dificuldades em convencer a Ferrari frente a Vettel. Assim como em Singapura, o monegasco foi preterido na estratégia e demorou para retomar a ordem das coisas na Rússia. Hamilton ganhou com alguma sorte

André Avelar, São Paulo

Pode ser dos novos tempos da Fórmula 1, pode ser da natureza do próprio piloto. Mas as excessivas reclamações de Charles Leclerc, o terceiro colocado neste domingo (29), no GP da Rússia, no rádio da equipe são chatíssimas. Mais do que isso, beiraram o chilique e não adiantaram de nada na primeira metade da corrida em que Lewis Hamilton foi o primeiro, com Valtteri Bottas em segundo.

Desta vez, o piloto de só 21 anos, e um inegável talento atrás do volante, reclamou pelo rádio do que havia entendido ser uma “injustiça” da Ferrari pouco depois da largada. Pela quarta vez consecutiva na pole-position, o monegasco aceitou ceder o vácuo para ajudar seu companheiro Sebastian Vettel (abandonou com problemas na unidade de potência na volta 27) a ultrapassar Hamilton e conquistar a segunda e também a primeira posição no quase um quilômetro até a curva 1. Teria faltado, no entanto, uma rápida devolução dessa primeira colocação.

“Vou sempre confiar na equipe, mas a tática que me foi dada era deixar o vácuo para chegar um a um ao final da reta, o que aconteceu… Eu não sei. Preciso conversar com a equipe e entender melhor a situação”, disse Leclerc, ainda antes do pódio.

Leclerc ajudou Vettel na largada, mas entendeu ter sido prejudicado ao não receber a posição de volta
Divulgação/Ferrari

Vettel, que também adora se valer de uma vantagem mesmo sobre o seu colega de garagem, seguiu na frente como se nada estivesse acontecendo. Muito bom na argumentação, o alemão chegou a dizer que não haveria uma distância confortável para fazer a troca 1-2 e iria esperar as paradas nos boxes. Mais do que isso, mantinha uma margem de segurança e não deixava o jovem se aproximar. Pronto. Foi o bastante para Leclerc — assim como já havia acontecido em Singapura, quando perdeu a vitória nos boxes para Vettel — ouvir aquele já conhecido “conversamos depois da corrida”. Se vai cumprir a estratégia, não adianta reclamar ao ponto de perder a razão.

O #16 não só não conseguiu acompanhar o companheiro de carro vermelho, como também não encostou nos prateados depois da saída do safety-car. O argumento do jovem, que pode ser levado em consideração, é que ele próprio estaria mais à frente se tivesse seguido na primeira colocação. Vettel evitou entrar em polêmica e pouco comentou sobre as mensagens trocadas no rádio. Como na Ferrari, o que vale é o time, a discussão deu-se por encerrada até pelo menos o próximo atrito.

A intriga, ainda não pode ser caracterizada como uma real briga, entre Leclerc e Vettel veio mais claramente a público naquele conturbado Q3 do GP da Itália. Naquela oportunidade, depois de vencer sua primeira corrida na carreira, no GP da Bélgica, Leclerc estava empolgado em também brilhar na frente da torcida ferraria e não cumpriu a ordem de dar o vácuo para Vettel fazer o melhor tempo. Resta saber como a situação ficará para o ano que vem já que, com ainda mais apetite em seu segundo ano em uma grande equipe, o monegasco deve brigar pela vitória desde as primeiras etapas.

Hamilton trabalhou duro e também contou com um pouco de sorte para conseguir a 82ª vitória
Divulgação/Mercedes

Seguir um carro nas morosas esquinas do Parque Olímpico de Sóchi não é mesmo das coisas mais fáceis. Tanto que na Era Híbrida da F1, apenas a Mercedes venceu a prova russa (com Hamilton em 2014, 2015, 2018 e agora em 2019; Nico Rosberg em 2016 e Bottas em 2017). Além do carro mais bem ajustado nos últimos tempos, Hamilton encontrou o que precisava fazer para superar as velocidades da Ferrari em retas. O curioso foi o que o safety-car provocado pelo próprio Vettel beneficiou o inglês na parada dos boxes para colocar os pneus macios.

Se não foi daquelas corridas brilhantes, com ultrapassagem, disputa roda a rodada e tudo mais que pode se esperar, ao menos Hamilton refez as pazes com a vitória depois de quatro corridas e subiu no lugar mais alto do pódio pela 82ª vez. Um pouco (muito) de sorte, sim, mas também de trabalho de quem não desistiu e acreditou que a vitória seria possível até o final.

“É um resultado inacreditável considerado o quão rápido esses caras [Ferrari] foram desde a largada. Só acompanhá-los já era muito difícil, mas não desistimos e continuamos acompanhando. Isso me inspira”, valorizou Hamilton, na entrevista logo após a corrida.

Certamente com novas mensagens quentes no rádio, como já faz parte do jogo dos pilotos, a F1 volta para a 17ª das 22 corridas com o GP do Japão. A prova acontece em 13 de outubro, no tradicional circuito de Suzuka.

 

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