O longo caminho da McLaren

Pela primeira vez desde 2014 o time britânico ultrapassa a marca dos 100 pontos em uma temporada - um estágio importante em uma longa trajetória de recuperação

Renan Martins Frade, de São Paulo

Oito títulos mundiais de construtores. Doze campeonato de pilotos. No total, são 182 vitórias, 155 pole positions. O currículo e a história da McLaren na Fórmula 1 são impecáveis. No entanto, esses números ficaram no passado. A equipe fundada pelo neozelandês Bruce McLaren amarga a sua pior fase em toda a história - mas começa a ver uma distante luz no fim do túnel. Pela primeira vez desde 2014, o último ano da parceria com a Mercedes, o time superou a barreira dos 100 pontos. O feito aconteceu no último GP da Rússia, quando o 6º lugar de Carlos Sainz e o 8º de Lando Norris fizeram com que os carros laranjas chegassem à marca de 101 pontos.

Momento de parar, respirar fundo e ver que a McLaren passou por um longo inferno para chegar até aqui. Mas é, também, um resultado ainda fraco perante tanta história.

Sainz ainda na Áustralia: a marca dos 100 pontos parecia inatingível naquele momento
McLaren

A má fase começou, na realidade, em 2009. Então equipe oficial da Mercedes na F1, a McLaren viu uma equipe cliente criada dos restos da Honda - a Brawn - ser campeã com a marca da estrela de três pontas. O feito acabou valendo a compra do time novato pela própria Mercedes, rebaixando a antiga parceira ao posto de equipe cliente. A relação entre os alemães e Ron Dennis, então chefão da McLaren, foi azedando. 

Ainda assim, o time de Woking foi vice campeão de construtores em 2010 e 2011. Terceiro em 2012. As vitórias, ainda que mais raras, aconteciam. Em 2013, Lewis Hamilton foi para a própria Mercedes. Em 2015, a unidade de potência alemã foi trocada pela Honda. Foram apenas 27 pontos naquele ano, 9ª no mundial - emntre dez equipes. Fernando Alonso gritava no rádio para todo mundo ouvir: “motor de GP2!”, citando a então categoria de acesso à F1. 

Era o fundo do poço. 

Muita coisa mudou desde então. Ron Dennis foi tirado da equipe - história contada na série ‘Grand Prix Driver’. Veio uma nova gestão, que também teve seus percalços - o diretor de corridas Eric Boullier foi contratado e já saiu, por exemplo.  O casamento com a Honda chegou ao fim, substituída pela Renault - e, desde então, os japoneses já tiveram duas vitórias com a nova parceira, a Red Bull. Até na Indy tentaram a sorte, com Fernando Alonso causando uma boa impressão nas 500 Milhas de 2017, mas sem se qualificar para a edição de 2019. Por fim, o bicampeão mundial deixou os carros (agora) laranjas da F1. 

E aí chegamos em 2019.

Até vexame na Indy 500 a McLaren resolveu passar
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Depois de uma série de carros ruins, a equipe parece ter se reencontrado com o MCL34. O bólido terminou na zona de pontuação em 17 oportunidades em 32 participações (16 GPs). Ajuda, também, a queda de rendimento da Haas (que foi a quinta colocada no ano passado) e o ano difícil da Racing Point, que precisou se reestruturar após o fim melancólico da Force India. 

Por outro lado, é preciso destacar a atual dupla de pilotos. Carlos Sainz, que foi buscar novos ares após anos dentro dos muros da Red Bull, parece ter se encontrado em Woking, agregando muito mais ao time que seu antecessor - e é, hoje, o melhor do “resto” na tabela de classificação. Já Lando Norris é uma forte aposta para o futuro, além de ser muito mais rápido e consistente do que Stoffel Vandoorne. Com tudo isso, a McLaren está à frente justamente da equipe de fábrica da Renault no campeonato, perdendo apenas para as atuais “três grandes” (Mercedes, Ferrari e Red Bull).

O problema é que o lugar da McLaren é justamente dentro desse grupo dos ponteiros.

Para chegar lá, a equipe precisará fazer muito mais do que superar a barreira dos 100 pontos. O caminho passa pela melhora financeira, inclusive. Sem patrocinador master desde o final de 2013, os carros laranjas até que estão mais preenchidos com marcas de patrocinadores em 2019, mas ainda é pouco. Para você ter uma ideia, em 2018, de acordo com o ‘Auto Bild’, o orçamento do pessoal de Woking foi de €250, contra €450 da Mercedes e €430 da Ferrari

Ainda há espaço para a evolução do carro. Não que as unidades da Renault sejam as melhores do grid, mas com elas a Red Bull fazia muito mais até o ano passado (foram quatro vitórias dos taurinos em 2018).

Em 2021, a McLaren vai procurar reviver as glórias da parceria com a Mercedes
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Uma perspectiva positiva é que os motores da Mercedes já estão garantidos para 2021. A tendência é que o novo casamento com os alemães seja menos conturbado que o fim da união anterior, e o novo regulamento técnico previsto para aquela temporada pode mudar um pouco o equilíbrio de forças. 

Como já apontamos no Grande Prêmio, o novo acordo é obra de Andreas Seidl, engenheiro alemão que entrou para o time inglês como diretor-geral em maio passado. Em parte, porque a Mercedes, enquanto equipe, é a grande referência em desempenho da categoria na década. 

Seidl afirma também ter um planejamento para 2020, dando um passo além na próxima temporada. "Temos um plano em vigência com o que queremos fazer esse ano, e outro sobre o ano que vem. É assim que abordamos essas questões”, disse o engenheiro em setembro. 

Que o planejamento, então, leve a McLaren a engordar os números de poles, vitórias e, quem sabe, de títulos. Só um número não pode crescer muito mais: o de jejum de vitórias - o primeiro lugar do pódio não acontece desde o GP do Brasil de 2012.