O mais do mesmo da Alfa Romeo

Questionáveis Antonio Giovinazzi e Kimi Räikkönen estão presos no tempo: um como o que pode oferecer depois de um primeiro ano fraco, outro com o que fazer em sua provável turnê de despedida. Enquanto isso, Nico Hülkenberg fica a pé no grid da Fórmula 1 2020

André Avelar, São Paulo

Agora é oficial! Depois de algumas incertezas, uma ou outra sondagem no mercado de pilotos, a Alfa Romeo decidiu fechar uma das poucas, e cobiçadas, vagas para a Fórmula 1 2020. Antonio Giovinazzi, que renovou contrato, e Kimi Räikkönen devem fazer na próxima temporada só um pouco de mais do mesmo, apenas com um ano a mais de experiência. A passagem do tempo, no entanto, é diferente para um e outro. O que para o italiano pode significar uma certa bagagem acumulada, para o finlandês deve representar a sua turnê de despedida da categoria.

Este será o segundo ano da questionável dupla na Alfa Romeo. Ninguém esperava, nem tampouco deve esperar para o próximo ano, a herdeira da Sauber brigando por pódios. Mas a equipe tem o compromisso de figurar mais bem ranqueada na tabela de classificação de Construtores, entre os dez melhores carros em toda a temporada. Hoje, o time suíço tem modestos 35 pontos (31 de Räikkönen) e ocupa a oitava colocação, à frente apenas de Haas (28) e Williams (1).

“Estávamos esperando mais, mas acho que foi uma temporada de altos e baixos”, disse o chefe de equipe Fréderi Vasseur à Autosport. “Acho que fizemos um trabalho muito forte na primeira parte da temporada, para ser consistente, sem erros, e muito oportunista.”

A primeira metade do quarentão Kimi foi bastante satisfatória. Mais do que isso, no alto da experiência de campeão mundial, aparentemente conseguiu desenvolver o carro (talvez continuação até do que tinha feito Charles Leclerc em 2018) e frequentou a zona de pontos nas quatro primeiras corridas. Um problema e outro, mas conseguiu fazer o que dele era esperado até a parada para as férias de verão da F1, no GP da Hungria. De lá para cá, ou nada encaixou para o finlandês ou ele mesmo passou a pensar só no contra-cheque do quinto dia útil do mês. Isso para não dizer da provável despedida na temporada em que fará 41 anos.

Com Giovinazzi, a situação parece ter sido a contrária. Até a metade da temporada, o piloto de 25 anos, já nem tão jovem assim para os padrões atuais do automobilismo, se candidatava como alguém definitivamente substituível. Quando a corda já estava no pescoço — sendo ameaçado inclusive por Mick Schumacher, filho do heptacampeão, membro da Academia Ferrari e com papel só modesto na F2 — enfim veio o primeiro ponto no GP da Áustria. Como promessa, as madeixas foram cortadas em forma de comemoração, que deveria ser mais uma punição por tão pouco efeito prático para a equipe. Já na segunda metade do ano, pelo menos deixou erros bobos de lado, foi ao Q2 e conseguiu pontos. O nono lugar no GP local da Itália foi uma festa para ser mesmo curtida. Daí a renovação de contrato…

“Estou muito feliz em continuar com a equipe para 2020. Sou agradecido pelo incrível apoio que recebi nesse primeiro ano completo na F1. Todos na equipe ficaram ao meu lado desde que entrei e estou ansioso em continuar nossa jornada juntos. Aprendemos muito esse ano e estou confiante em dar um passo à frente na próxima temporada. Não serei mais um estreante, então não terei desculpas”, disse o #99, pelo menos consciente de que não pode repetir a primeira metade da temporada.

“O Antonio está indo muito bem nesse ano e eu estou extremamente feliz por poder confirmar que ele segue na Alfa Romeo em 2020. A forma com que ele se integrou à equipe e melhorou ao longo de sua primeira temporada no esporte é muito promissora. Mal podemos esperar para usar seu potencial por completo, isso conforme seguimos trabalhando juntos”, disse Vasseur, aparentemente, contente com a opção ‘boa e barata’.

Nico Hülkenberg foi preterido por Esteban Ocon na Renault e chegou a ser cogitado na Alfa Romeo
Reprodução/Instagram/@renaultf1team

Opção boa e barata por que o time tinha a chance de fechar com Nico Hülkenberg, preterido na Renault por Esteban Ocon para o próximo ano. O alemão não teve o seu contrato renovado com o time francês e, com as vagas de Red Bull e Toro Rosso encaminhadas, lhe sobraria apenas a Williams. Por mais que nunca tenha conquistado um pódio sequer em 177 GPs, o piloto alemão, de 32 anos, tem credenciais de quem entende mais de carro do que o italiano. Só mesmo a alta pedida salarial pode ter afastado o #27 de um acordo com a Alfa Romeo.

Como uma volta para a Williams (pilotou em 2010 uma equipe completamente diferente dessa que se arrasta pelas pistas) seria hoje um retrocesso, o piloto merece uma chance em um grande carro que nunca teve na F1 — teria a chance de assumir a Mercedes de Valtteri Bottas, depois da aposentadoria de Nico Rosberg, mas já estava embarcado no projeto Renault em 2017. O vencedor das 24 Horas de Le Mans em 2015 deveria ter o WEC como um objetivo ao invés se rebaixar tanto só para, em tese, estar entre os 20 melhores pilotos do mundo.

Antonio Giovinazzi conquistou apenas quatro pontos na atual temporada da Fórmula 1
Divulgação/Alfa Romeo

Mas não é de hoje que a categoria vive de bons pilotos. O questionável Giovinazzi, muito mais que o ex-campeão Räikkönen, claro, ainda tem o guarda-chuva da Ferrari sobre seu capacete. Como se não bastasse, o italiano é hoje o único piloto representante de uma das bandeiras mais tradicionais da história das corridas. A renovação com ele, então, acabou sendo uma opção conservadora, mas não propriamente errada ou maluca. Um desempenho não comprometedor, perto do satisfatório em determinados momentos, com um quê de politicagem no ar, pode muito bem manter um piloto na atual F1.

Com uma dupla aparentemente descompassada no tempo, a Alfa Romeo já deu o recado de que espera fazer só um pouco mais do mesmo para a temporada 2020. Talvez apenas com uma pitada a mais de regularidade, ao longo do ano todo, e não só em uma metade com Räikkönen e em outra metade com Giovinazzi.

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