O rival é de prata

Bottas demonstrou consistência mais uma vez, bateu Hamilton no Azerbaijão e reassumiu a ponta do Mundial de Fórmula 1. Se será o ‘novo Rosberg’, ainda é cedo para dizer, mas certo é que a passiva Ferrari está longe de ser sequer uma ameaça para o hexa do britânico

André Avelar, São Paulo

Sebastian Vettel é o adversário histórico, Charles Leclerc é o rival em potencial, mas quem brigará mesmo com Lewis Hamilton pelo título da Fórmula 1 2019 não é nenhum desses, tamanha a passividade da Ferrari, sobretudo, com as estratégias de corrida. Valtteri Bottas, o vencedor do GP do Azerbaijão neste domingo (28), é quem neste momento parece poder atrapalhar os planos do hexacampeonato do piloto britânico. Tudo isso em uma Mercedes impecável, que inclusive bateu o recorde da Williams de 1992 de dobradinhas nas quatro primeiras corridas do campeonato.

Com o líder Bottas, que chegou a 87 pontos, um a mais que Hamilton, o Mundial agora entra naquela fase das suas corridas mais tradicionais, com o GP da Espanha em duas semanas, em 12 de maio.

A percepção da luta de Bottas vem, evidentemente, dos consistentes resultados do finlandês, mas também pelo excesso de conservadorismo na Ferrari. Se Leclerc, o que se diz “estúpido” a cada erro, desperdiçou a pole-position no classificatório e consequentemente comprometeu a sua corrida, a escuderia italiana confiou tão e somente na entrada do safety-car nas apertadas ruas de Baku para propiciar a troca de pneus do monegasco no momento exato. Como o safety-car demorou um pouquinho, o jovem piloto deve de se contentar com a quinta colocação. A busca pela volta mais rápida a quatro giros do fim deixou tudo ainda mais ridículo para quem deveria brigar por mais.

Vettel não ultrapassou, não foi ultrapasso e terminou com outra corrida medíocre pela Ferrari
Divulgação/Ferrari

Também pela Ferrari, Vettel nem para isso. O fim de semana do alemão, neste momento o tetracampeão mais apagado da história do automobilismo, fez outra corrida medíocre desde a largada. Não ultrapassou ninguém, não foi ultrapassado. Tampouco foi ao rádio para reclamar de alguma coisa ou ainda chamar a atenção para alguma bobagem que tivesse cometido. Tudo bem que o SF90, inegavelmente veloz por natureza, deu esperanças exageradas nos testes de pré-temporada (o W10 também evoluiu mais do que aparentava), mas é preciso se reinventar imediatamente se ao menos quiser fazer uma temporada decente. A dificuldade com os pneus frios não cola mais.

Já Bottas, não custa lembrar, é aquele mesmo piloto que não venceu no ano passado e, pior, sequer foi ao pódio nas últimas cinco corridas — até aí tudo bem, isso se ele não estivesse com o melhor carro do grid. O pífio desempenho era tanto que o finlandês teve seu contrato renovado por apenas mais esta temporada, ao ponto da própria Mercedes levar a tiracolo o promissor Esteban Ocon para a sua garagem. Hoje já não se vê sequer o sorriso amarelo do francês nos boxes para os bons resultados do piloto para o qual em tese faz sombra.

“Como um time, é incrível ver o nível de performance que temos agora. Para mim é só a minha quinta vitória e acharia ótimo se o bom momento continuasse”, disse Bottas.

“O Hamilton pressionou o tempo todo, então eu não poderia errar.” “Parabéns ao Bottas. Ele guiou muito bem e não cometeu nenhum erro. Esse tinha mesmo que ser o melhor começo de temporada por que essa equipe merece e sou muito grato de fazer parte disso”, completou Hamilton que, ainda que tivesse cometido alguns erros ao longo do fim de semana, tem enorme talento e condições de não se abater com a segunda vitória do companheiro na temporada, quando ele mesmo também tem duas vitórias.

Ao contrário de Rosberg em 2016, Bottas consegue brigar com Hamilton de forma mais limpa
Divulgação/Mercedes

Apesar do resultado, da liderança no Mundial, ainda é cedo para ver em Bottas o ‘novo Nico Rosberg’. Evidentemente que os resultados o permitem sonhar em repetir 2016, quando o alemão levou o título. Desta vez, pelo menos, o clima na garagem da Mercedes parece ser um tanto mais ameno do que três anos atrás e, além disso, o time de Toto Wolff parece permitir uma briga mais sincera lá na frente. O mais próximo que Bottas e Hamilton vão brigar vai ser como na largada deste domingo, em que os dois dividiram a curva 1, com as rodas ‘quase' se tocando.

A Ferrari então se apoia na ida da F1 para Barcelona, a pista de testes em que se deu tão bem ainda antes do início da temporada, e mais algumas peças no carro para tentar reverter a situação. Mais do que isso, também seria preciso um pouco mais de ousadia durante as corridas para superar a Mercedes. Do contrário, o rival para outro título de Hamilton continuará sendo prateado.