O rótulo que não encaixa

Poucos pilotos conhecem tão intimamente as dores e agruras do esporte quanto Dani Pedrosa. Aos 32 anos, espanhol optou pela aposentadoria, mas sai de cena como um dos mais habilidosos pilotos que passaram pela MotoGP. Mesmo que sem o título

Juliana Tesser, de São Paulo

Um capítulo da história da MotoGP chegará ao fim junto com o encerramento da temporada. Quando a bandeira quadriculada tremular em Valência para marcar o encerramento do campeonato de 2018, também chegará ao fim a carreira de Dani Pedrosa.

Aos 32, o #26 decidiu pendurar o capacete depois de ver chegar ao fim uma relação de quase 20 anos com a Honda. O espanhol de Sabadell até teve a oportunidade de guiar uma YZR-M1 em uma equipe satélite da Yamaha, mas optou por colocar um ponto final em uma carreira brilhante.

Em 18 temporadas na MotoGP, 13 delas na classe rainha, Pedrosa conquistou 54 vitórias, 153 pódios, 49 poles e três títulos mundiais ― um nas 125cc e dois nas 250cc. Levando em conta apenas a classe rainha, Dani é presença certa nos rankings de pilotos com mais vitórias, mais poles, mais pontos, mais pódios e etc., mas nem os expressivos números foram capazes de calar os críticos.

Titular da Honda por 13 temporadas, Pedrosa chegou perto do título em três ocasiões: 2007 ― quando a taça ficou com um dominante Casey Stoner ―, 2010 ― ano da primeira conquista de Jorge Lorenzo ― e em 2012 ― ano em que o #26 conseguiu seu maior número de vitórias (7), mas viu a sorte mudar ao ser derrubado por Héctor Barberá em Misano e cair na Austrália.

A partir de 2013, coincidentemente o ano da chegada do prodígio Marc Márquez na Honda e na classe rainha, Pedrosa deu início a uma fase mais discreta. No primeiro ano como companheiro do #93, Dani fechou a disputa com o terceiro posto no campeonato, mas foi quarto, quarto e sexto nos anos seguintes. Em 2017, o espanhol foi presença mais frequente no pódio e, com duas vitórias, voltou para a quarta colocação na classificação.

Neste ano, porém, Pedrosa faz um Mundial bastante abaixo de suas capacidades. Nas oito primeiras corridas de 2018, o #26 não subiu uma única vez no pódio e esteve na primeira fila em só duas oportunidades ― quando foi segundo nos GPs da Argentina e das Américas. Pior, nas três corridas mais recentes, só esteve no top-15 do grid uma única vez, registrando o 18ª lugar na Holanda e o 20º na Itália, seus resultados mais fracos na divisão principal.

Dani Pedrosa merece ser lembrado com um dos maiores pilotos da MotoGP
(Foto: Repsol)

Embora o momento seja dos piores, dar a Pedrosa o rótulo de ‘ruim’, ‘meia boca’, ‘fraco’ ou qualquer outra variação é injusto e irreal. Dani sempre fez por merecer a alcunha de ‘alien’, usada por muito tempo para pilotos como Valentino Rossi, Casey Stoner e Jorge Lorenzo, por exemplo. Ele só não venceu o título. Acontece. É do jogo. É da vida.

A constituição física de Dani nunca foi lá uma grande ajuda. Com 1,60 metros e 51 kg, o espanhol sempre foi o menor da turma, o que representou por muitas vezes uma barreira a mais. Desde a chegada da Michelin, por exemplo, o #26 tem muitas dificuldades para fazer os pneus funcionarem. Mas, além disso, poucos conhecem as dores do esporte tão bem quanto o piloto da Honda.

Ao longo da carreira, Pedrosa sofreu 19 lesões de maior importância, com fraturas nos pés e mãos, no rádio, no fêmur e nas clavículas. Muitas destas, aliás, o tiraram da briga pelo campeonato.

O título nem sempre é a melhor régua para medir a grandeza de um atleta. Randy Mamola nunca foi campeão da MotoGP, mas é costumeiramente lembrado entre os melhores ― ele figura, inclusive, no rol das lendas. Agnieszka Radwanska ― que, coincidentemente, sempre foi menor que suas rivais ―, por exemplo, nunca venceu um grand-slam, mas é também indicada como um dos principais nomes do tênis feminino. James Harden e Chris Paul são dois astros do basquete, mas tampouco alcançaram a glória na NBA.

Puxando para um cenário nacional, Rubens Barrichello é criticado por muitos por não ter conquistado o título da F1, mas, ao longo das 19 temporadas que disputou no Mundial, somou 11 vitórias, 14 poles e 68 pódios. São, sim, números expressivos.

Resultados à arte, Pedrosa merece, sim, ser lembrado entre os melhores pilotos que já estiveram no grid da classe rainha do Mundial de Motovelocidade. Ele conquistou esse direito. 

Os títulos podem ser a medida do sucesso de um atleta, mas jamais de seu talento ou capacidade.