O segundo título perdido de Di Grassi

O erro primitivo e crasso da Audi ABT no México tirou novamente uma vitória e, com meio campeonato pela frente, a chance real de Lucas Di Grassi ser campeão da F-E

Victor Martins, de São Paulo

No fim de maio do ano passado, Lucas Di Grassi conseguiu se desvencilhar do surpreendente pole-position Jarno Trulli (2014/2015-2015/2016, em termos de vida na F-E) em três curvas para conquistar uma tranquila vitória em Berlim e abrir uma distância confortável na liderança do campeonato. Faltavam mais duas provas para a conclusão do mesmo, mas uma inspeção dos comissários encontrou uma estrutura de metal para reforçar as aletas da asa dianteira que estava em desacordo com o regulamento. O triunfo foi tungado do brasileiro e entregue a Jérôme D’Ambrosio

Mais do que isso, ali Di Grassi via ruir suas chances de título. O rival Nelsinho Piquet passava à ponta da competição, seguido de perto por Sébastien Buemi. Na rodada dupla de Londres, Piquet contou com a ajuda de Bruno Senna, providencial para barrar o suíço em pista. Lucas já não podia fazer nada por si só.

Quase dez meses depois, a história se repete. Di Grassi ganhou belamente a prova no autódromo Hermanos Rodríguez empurrado pelo FanBoost que lhe fez tirar D’Ambrosio da frente. Quatro horas depois, a notícia de sua desclassificação pegou a todos de surpresa: o problema, agora, estava na pesagem do carro, abaixo do limite permitido. 

 

O primeiro lugar não mais pertence a Lucas Di Grassi nem no eP do México nem no campeonato
Getty Images, com arte Grande Premium

O concorrente direto pelo título, Buemi, que conseguiu passar D’Ambrosio de forma ilegal e teve sua posição perdida porque D’Ambrosio foi peitudo o suficiente para cortar caminho e se postar ali na frente, retomou o primeiro lugar na classificação que havia perdido para Di Grassi.

Em ambas as situações, o erro se volta sobre a equipe Audi ABT.

O rigor da inspeção do ano passado fez Di Grassi urrar de raiva. O que uma peça fixadora poderia influir no desempenho de um carro que havia vencido uma corrida de forma tão acachapante? Mas o campeonato é um conjunto de regras, e não exceções, e por menor ou inexistente a vantagem que tenha obtido, tem de ser obedecido e cumprido.

Justamente por ter a ‘ficha suja’ que a Audi ABT deveria passar a ter um controle mais do que rigoroso em todas as suas ações desde então. Checar, ver, rever, checar de novo. 

Tem coisas no regulamento – e isso vale para todos os campeonatos – que levam a exclusões e deixam os leigos com pontos de interrogação grudados na testa. Na F1, Daniel Ricciardo perdeu o pódio do GP da Austrália de 2014 por uma falha no fluxômetro, uma peça que passou a entrar em voga justamente naquele ano. Lewis Hamilton quase perdeu a vitória no GP da Itália – possibilidade aventada nas voltas finais da prova – porque seus pneus tinham uma pressão abaixo do permitido quando foi feita a medição – antes da largada. Neste caso, trata-se de uma determinação válida para qualquer campeonato que tenha quatro rodas.

A vitória e as chances do título de Di Grassi viraram fumaça
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Perder uma vitória, tal como foi, em um certame mais difícil do que o da temporada passada, por um erro grosseiro como este, só pode deixar Di Grassi tão ou mais puto do que a primeira vez. Naquela, a diferença para Buemi ia para 10 pontos; agora, com exatamente meio campeonato andado, já são 22.

“Ah, mas falta meio campeonato ainda”, há de lembrar o atento leitor diante da conclusão óbvia. OK, Buemi não é dos pilotos mais constantes e precisos, mas tem na e.dams Renault um precioso meio de chegar ao título sem atalhos. Precisaria que o suíço fosse uma toupeira e/ou a equipe de Alain Prost cometesse uma ‘Abtice’ semelhante a de ontem para dar chance a Di Grassi. Que fica também numa encruzilhada: Lucas é piloto Audi, que, por enquanto, não deve se desfazer da parceria.

Como no primeiro ano da história da F-E, o erro – de novo, crasso, patético e primitivo – do time vai tirar o título de Di Grassi. E sem ter muito o que fazer, a Lucas vai sobrar o papel de chato que vai cobrar dia e noite que a equipe ande dentro da linha. Porque se houver uma terceira vez, além de ser demais, a música que o brasileiro teria de pedir é a aquela cujo verso diz ‘adeus, eu vou partir’.