Pesos e medidas no tapetão mexicano

Daniel Ricciardo cruzou a linha de chegada do Autódromo Hermanos Rodríguez na quinta colocação, subiu para quarto depois da punição de Max Verstappen, mas acabou o dia mesmo em terceiro após a sanção dada a Sebastian Vettel em uma verdadeira novela. Lewis Hamilton e Nico Rosberg acrescentaram um novo capítulo na briga pelo título da F1

André Avelar, São Paulo

A F1 passou por situações, no mínimo, constrangedoras até a noite do último domingo (30), depois de um sonolento GP do México. Se manobras de corrida ou malandragens de pilotos, decisões dos comissários deixaram margens para diferentes pesos e medidas e, ainda pior, a classificação final da prova levantou um clima de tapetão que não seria propriamente o melhor desfecho ainda que para uma novela mexicana.

Só quando prefeitos eleitos no segundo turno de cidades brasileiras já eram conhecidos, foi possível precisar o terceiro, quarto e quinto lugar da corrida. Ao que parece até aqui, Daniel Ricciardo foi quem se deu melhor. O australiano da Red Bull cruzou a linha de chegada em quinto, logo subiu para quarto depois da punição aplicada a Max Verstappen, até ser proclamado o terceiro com a sanção aplicada em Sebastian Vettel.

Os comissários entenderam que Verstappen, de novo ele, e a reincidência em casos polêmicos pode ter sido um agravante, cortou caminho ao defender sua posição na volta 68. O holandês viu Vettel crescer no retrovisor, retardou a freada, travou as rodas e só manteve a posição porque passou pela grama. E aí é preciso retroceder à primeira volta, mais especificamente, à primeira curva. O episódio em questão envolve Lewis Hamilton e Nico Rosberg, que terminaram em primeiro e segundo, respectivamente, sem punições. 

Sebastian Vettel se apressou à toa para tomar o lugar de Max Verstappen no pódio do GP do México
Divulgação/Mercedes

A dupla da Mercedes, de freios e pneus frios, também utilizou um bom pedaço de grama para não perder posições na largada. Mas na largada, ao que parece, a tolerância é um pouco maior. Hamilton travou o dianteiro direito e deixou o carro rolar pela grama mesmo, com o cuidado de não estragar os pneus, tampouco prejudicar a aerodinâmica. Rosberg, ainda que mais timidamente, também se valeu da parte verde para não ser ultrapassado. Naquele momento, pouca gente exigiu que os postulantes ao título cedessem suas posições.

Passada a corrida, já na sala que antecedeu a bonita festa do pódio no pulsante Autódromo Hermanos Rodríguez, mandaram um rádio para tirar Verstappen dali. O holandês havia sido punido com 5s e, naquele momento, caído para a quinta posição. Fez pouco caso de tudo e de todos, gostem ou não, e deixou a sala. Do outro lado, Vettel, que havia vociferado contra inclusive Charlie Whiting, diretor de corridas da F1, exigindo a troca de posições, apareceu esbaforido para subir ao pódio. Só não contava mais uma vez com a astúcia dos comissários.

Mais de três horas depois do acontecido, quando o público que foi ao autódromo, sem falar nos milhões que assistiram à corrida pela televisão, estava crente que aquele era o resultado definitivo, apareceu a notícia de que Vettel havia sido punido com 10s por sua “mudança anormal de direção” em uma manobra “potencialmente perigosa” na volta 70, a penúltima da corrida. A atitude não só mudou o resultado da prova, mas também trouxe à tona uma mudança no regulamento mesmo com o campeonato em curso.

Baseada em vídeos e na telemetria, a direção entendeu que Vettel, para se defender do ataque de Ricciardo, alterou sua trajetória já durante a freada. O movimento — muito por culpa da agressividade de Verstappen, sobretudo, no GP do Japão quando por pouco não tirou Hamilton da briga pelo título — foi proibido no briefing dos pilotos já no GP dos Estados Unidos e foi batizado de punição 'anti-Verstappen'.

Sebastian Vettel perdeu a terceira colocação mais de três horas após o final do GP do México
Divulgação/Ferrari

Há tempos a principal categoria carece de brigas dentro da pista. Seria demais pedir para voltar à década de 1980 quando, não raro, carros dividiam curvas roda a roda. Para os dias atuais, foi preciso inventar o DRS, a tal asa móvel, para que as corridas tivessem alguma emoção ali mesmo diante das câmeras e dos olhos do público. Se depois de quase 70 voltas, uma ultrapassagem pela grama e uma fechada no rival são as coisas mais interessantes que possam ter acontecido, então que deixem os pilotos correr. Essa certamente é a vontade deles próprios. Reclamam porque estão nos seus direitos, mas adorariam resolver tudo na pista.

Ainda assim, se manobras forem contra os valores de esportividade que, pelo menos a F1, mereça um campeonato com pesos e medidas devidamente esclarecidos desde o início e, principalmente, sem tapetão ou novela mexicana.