Räikkönen: o último de uma geração

Substituído por Charles Leclerc na Ferrari, Kimi Räikkönen ganha nova vida na Sauber — e, em 2020, vai encerrar uma geração que contou com Fernando Alonso e Jenson Button

Renan Martins Frade, de São Paulo

Na identidade, 21 anos. No currículo, 23 corridas de monopostos. Só que era um começo avassalador: o piloto havia vencido 13 dessas 23 provas, incluindo sete de dez da F-Renault inglesa, de onde foi campeão. Em pouco tempo, o jovem conquistava o coração de Peter Sauber, que trouxe o menino finlandês para correr na sua equipe na Fórmula 1. Uma atitude que sofreu duras críticas pela falta de sua experiência — incluindo do então presidente da FIA, Max Mosley.

Assim começou a carreira de Kimi-Matias Räikkönen, um dos grandes pilotos de sua geração — em uma era na qual nomes como Fernando Alonso, Jenson Button (ambos campeões mundiais), Nick Heidfeld, Juan Pablo Montoya e Mark Webber, entre outros, começavam a sua trajetória na maior categoria do automobilismo mundial. Geração essa que se encerra, pelo jeito, em 2020.

Nesta terça (11), a Ferrari anunciou que Räikkönen será substituído pelo monegasco Charles Leclerc. Já a Sauber confirmou que vai contar com o 'Homem de Gelo' nas próximas duas temporadas, com o finlandês certamente encerrando a carreira onde tudo começou – e aos 41 anos de idade.

Um ciclo de 20 anos. Não é pouco. Por isso, este é o gancho perfeito para relembrar os resultados de Kimi na F1.  

Räikkonen pilotando uma Sauber C20 em seu primeiro ano de F1, em 2001
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Para Räikkönen, o lugar na categoria não veio tão fácil assim quanto o começo deste texto pode transparecer. Além dos resultados meteóricos na base, Kimi passou pelo crivo de Peter Sauber – foram duas baterias de testes, a primeira ainda em 2000, em Mugello, e a segunda em Jerez. Tudo isso fez com que o dirigente peitasse o principal patrocinador do time, a Red Bull, que queria ver Bernoldi ocupando um dos carros azuis, ao lado de Nick Heidfeld.

O curioso é que o evento desencadeou a série de eventos que tirou a Red Bull da Sauber, adquirindo logo em seguida a Jaguar.

Se a teimosia de Sauber acabou por gerar um time que conquistou quatro títulos mundiais, também deu à F1 a chance de conhecer a capacidade de Kimi na pista. O finlandês não superou Heidfeld em 2001, é verdade: foram 12 pontos para o alemão, contra 9 do companheiro, mas foi o suficiente para chamar a atenção de outro chefão da categoria: Ron Dennis.

Dennis, para 2002, teria que lidar com a aposentadoria de outro finlandês, Mika Häkkinen. A lógica na McLaren foi trocar um piloto frio por outro, com a vantagem de que Kimi era uma aposta em longo prazo. O começo foi tímido: Kimi sofreu com a confiabilidade do MP4-17, abandonando nada menos que dez das 17 corridas – enquanto o companheiro, David Coulthard, usou a experiência para contornar os problemas e pontuar de forma mais constante. No final, o escocês ficou com 41 pontos, contra 24 do finlandês.

Só que o jogo não demoraria a virar.

2003, o ano do primeiro vice
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O ano de 2003 não parecia que seria fácil. A McLaren apostou todas as fichas no revolucionário MP4-18, mas o modelo sofreu com os mais diversos problemas (incluindo acidentes nos testes e reprovações no crash test da FIA) e nunca foi usado em um GP. Por consequência, a equipe inglesa recorreu a uma versão atualizada do carro do ano anterior, o MP4-17D. Se faltava velocidade em relação às Ferrari, a Flecha de Prata havia conquistado toda a confiabilidade que faltara em 2002. Foram nada menos que dez pódios em 16 corridas com Kimi, incluindo a primeira vitória do finlandês, no GP da Malásia. 

Coulthard, que venceu a corrida de abertura naquele ano, na Austrália, foi engolido pelo companheiro. Kimi levou a disputa do título até a última etapa com apenas uma vitória, se valendo da constância que tinha, mas acabou perdendo o título para Michael Schumacher por apenas dois pontos.

Para o azar de Räikkönen, os problemas de confiabilidade voltaram em 2004 com o MP4-19 e o MP4-19B, que eram os sucessores do MP4-18. Porém, quando o carro permitia, os resultados vinham, incluindo uma vitória na Bélgica e um segundo lugar na Inglaterra e no Brasil, já com a versão B do carro.

O final de temporada foi um prenúncio de 2005: toda a via crúcis dos carros anteriores foi recompensada com o ótimo MP4-20, que era muito superior às Ferrari. Só que a McLaren não contava com a ascensão da Renault e de Fernando Alonso, que vinham com o carro a ser batido. No final, Kimi fez o seu melhor ano até então: sete vitórias, mas mais uma vez o finlandês teve que se contentar com o vice.

Kimi pelas ruas de Mônaco, em 2005 - o ano do segundo vice
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Com a oportunidade perdida, 2006 foi outro ano longe da disputa do título: a Ferrari havia se recuperado – e a Renault continuava dominante. Sobrou um quinto lugar ao final do ano, junto com um contrato para justamente se aliar ao lado vermelho da força em 2007. Kimi assinou para substituir o recém-aposentado Schumacher na Ferrari a partir do ano seguinte, pilotando ao lado de Felipe Massa. A fila também andou na McLaren, que substituiu não só o finlandês, mas também o companheiro, Juan Pablo Montoya, e formou a famosa dupla Alonso-Hamilton.

E 2007 não poderia ter sido melhor para Räikkönen. Havia um grande equilíbrio de forças entre Ferrari e McLaren, mas os desentendimentos da dupla da equipe inglesa começaram a tirar pontos das Flechas de Prata. Sorte para Kimi, que começou mal o ano, é verdade, mas engrenou uma grande fase a partir do meio do ano. Quando o mundial chegou na última prova, no Brasil, Hamilton liderava com 107, contra 103 de Alonso e 100 de Räikkönen. Com a vitória valendo dez pontos, o título parecia um sonho distante. Parecia.

A Ferrari dominou aquela prova, fez jogo de equipe e Massa abriu mão da vitória, que ficou com o companheiro. Enquanto isso, Alonso foi apenas terceiro e Hamilton, depois de largar em segundo, fez um GP lastimável e acabou apenas em sétimo. Kimi era o campeão, tirando uma diferença de 17 pontos em apenas duas corridas – e ficando apenas um ponto à frente da dupla da McLaren, que morreu abraçada.

O título finalmente veio na temporada 2007
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Em 2008 foi a vez de Massa disputar o título, perdido na última volta no Brasil. Já em 2009, com as mudanças no regulamento, a Ferrari sofreu com um pior desempenho – a primeira metade do ano foi dominada pela Brawn GP, que, sem dinheiro, deu espaço para o crescimento de Red Bull e McLaren na segunda metade da temporada, algo que os italianos não aproveitaram.

Há quem diga que Kimi estava desmotivado naquela época – apesar que o “jeitão” desinteressado foi sempre uma marca do piloto. Com Fernando Alonso disponível, a Ferrari preferiu assinar com o espanhol e dispensou Räikkönen, que tinha contrato válido para 2010. Sem um lugar para correr, o finlandês foi se divertir no rally. 

Só que esse não foi o fim.

 

O retorno triunfal com a Lotus
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Na temporada 2011, a Renault foi gradualmente se desligando da F1 – parte do time foi vendida ao fundo de investimentos Genii, que trouxe a marca Lotus de volta, via patrocínio. Para a nova Lotus, eles foram atrás do melhor piloto sem contrato naquele momento: Kimi Räikkönen. O finlandês assinou por duas temporadas, retornando à categoria.

Com o Lotus E20, em 2012, foram nada menos que sete pódios, incluindo uma vitória, em Abu Dhabi – isso mesmo, aquela da famosa conversa do Kimi com o engenheiro, da frase “apenas deixe-me sozinho, eu sei o que estou fazendo”. Em uma temporada na qual notoriamente Red Bull e Ferrari tinham os melhores carros, o finlandês foi terceiro no Mundial de Pilotos.

A temporada 2013 começou ainda melhor: Räikkönen venceu logo na Austrália, liderando o comecinho do campeonato. Obviamente isso não durou, com a Red Bull dominando o campeonato e a Lotus sendo ultrapassada, em desempenho, também pela Mercedes e até pela Ferrari. Desinteressado e com novos rumos para a temporada seguinte, Kimi alegou problemas nas costas para não correr os dois últimos GPs. Acabou aquele campeonato em quinto.

O novo rumo era, na realidade, um antigo: a Ferrari. Foi substituir Massa, em algo extremamente raro na equipe italiana, que é chamar de volta pilotos dispensados anteriormente. O ano do retorno foi extremamente complicado, com os italianos sofrendo com o novo regulamento. O F14 T não só ficou longe do desempenho da campeã Mercedes, mas também de Red Bull e até da Williams. Ainda demoraria algum tempo para o time achar o rumo dos novos motores híbridos, como sabemos.

Os bons resultados na Lotus valeram um convite para voltar à Ferrari
Ferrari

A vítima do fim de 2014 foi Alonso, que voltou para a McLaren – e foi substituído, de forma surpreendente, por Sebastian Vettel. Ao lado do alemão, Kimi acabou se resignando ao posto de segundo piloto. As vitórias não vieram mais, as poles se tornaram raras, mas Räikkönen conquistou os pontos necessários para fazer a Ferrari disputar o título de construtores com a Mercedes em 2017 e 2018. 

Curiosamente, o anúncio da saída do veterano chega naquela que é sua melhor temporada no retorno à Ferrari: até agora ocupa o terceiro posto no campeonato, perdendo apenas para Hamilton e Vettel. Na Sauber, mesmo com todo o apoio técnico da Ferrari e com a marca Alfa Romeo na tampa do motor, vai ser difícil imaginar algo assim nas próximas duas temporadas. 

Se poles e pódios parecem difíceis a partir de 2019, ao menos vamos continuar com o ar despojado do piloto, de quem pouco está se importando, os óculos escuros, os rádios engraçados e o famoso “bwoah”, com o qual responde as mais variadas perguntas. A partir de 2021, provavelmente, isso terá acabado. Outros pilotos virão, é verdade, a vida segue. Mas, quando Räikkönen finalmente pendurar o capacete, vai ser possível dizer que uma geração inteira chegou ao fim.

Que venham as próximas, inclusive representadas na figura de Leclerc — e que sejam tão divertidas e interessantes quanto esta que caminha para o seu encerramento.