Sobre boicote, sabotagem e cretinice

Para que a Sauber vai sujar seu nome só para prejudicar um piloto, brasileiro? A acusação é um desrespeito ao público, ao piloto e à inteligência. Porque ele pode ficar por lá, já que a "vaga certa" na Force India não deve rolar

Victor Martins, de São Paulo


Felipe Nasr é melhor que Marcus Ericsson. Creio que seja a única afirmação nesta análise que deva ser incontestável a A ou B. Felipe Nasr tem sido ou está melhor que Marcus Ericsson? Não.

'Não está por quê?' é a questão de tudo isso. Desde já, a explicação para isso não está num complô maquiavélico de Monisha Kaltenborn e seus comandados para prejudicar Nasr. Ou, usando das palavras dos componentes da transmissão brasileira da F1, ampliado pela apropriada ASCOM, boicotando ou sabotando.

Primeiro que acusar algo ou alguém de boicote ou sabotagem me soa grave. A quem acusa, cabe a necessidade da prova. Quais os elementos claros e as razões evidentes que se tem para imputar semelhante acusação? Dizer que Nasr andou 1s1 mais lento em um treino livre, com a explicação da equipe de que foram dois acertos diferentes, não parece plausível. Replicar argumentando que isso só acontece no caso de Nasr dá uma sensação mais de coitadismo do que boicote. Coitadismo de quem acusa por não ter o discernimento, por não dizer inteligência, de seguir um raciocínio minimamente racional e se deixa levar pelo pulsante coração verde e amarelo.
 


Alguns pontos para elucidar a realidade. A Sauber é a pior equipe do campeonato – nem conto como a afirmação mais unânime possível porque os pontos dizem isso. Zero ponto. A F1, com a entrada da Haas, passou a ter 11 equipes, de modo que a última colocada há de sofrer e penar por não receber todas as benesses financeiras de terminar entre os dez primeiros na classificação. Assim, a Sauber precisa ficar na frente da Manor, pelo menos.

Considerando que há uma regressiva pulsante, um sinal de alerta cada vez mais alto na cara da equipe fundada por Peter Sauber, qual é a explicação plausível para que a equipe deliberadamente prejudique seu piloto – que leva patrocínio para os cofres paupérrimos –, deixando apenas o outro, que é pior, Ericsson, sueco cujo patrocínio não aparece, para tentar alcançar tal meta?

A massa de manobra é levada a pensar numa outra linha: a de que Nasr está acertado com a Force India e que vai levar seu dinheiro para lá. É importante salientar outros tantos pontos que talvez seriam desnecessários. 1) Nasr não é o único piloto do mundo que leva patrocínio; 2) a Force India, se estiver procurando um piloto com patrocínio, sabe que o dinheiro de Nasr/Banco do Brasil vai ser menor no ano que vem; 3) a Force India tem débitos com a Mercedes; e 4) a informação de Nasr na Force India é só ventilada por um jornalista alemão e pelo grupo Globo/SporTV.

A informação que é mais é verossímil é a de que Ocon ocupe este lugar de Hülkenberg. Isso tem sido dado na imprensa espanhola e do mesmo pessoal que deu como certa a vaga de Nasr.

 Nasr mesmo disse, em entrevista ao ‘UOL Esporte’, que preferiria “nem comentar” este papo de boicote & sabotagem e que era “ir longe demais”. Claro que quem crê nisso joga com o fator “mas ele não pode falar isso abertamente”. Uai, se ele está sendo boicotado e está acertado com outra equipe, quitado com seu patrocínio com a Sauber, o que o impediria de falar? 

Nos EUA, Nasr andou bem melhor e a equipe copiou o acerto para colocar no carro de Ericsson. Muita gente viu como um acinte. Agora, o brasileiro usou o set-up de Ericsson na classificação no México. O argumento é de tinham dado o pior para ele. É preciso ter coerência e equilíbrio nos argumentos. 

Outro ponto: falam que Bernie Ecclestone tem uma preocupação com o Brasil por amplos motivos e que está trabalhando para ajudar Nasr. Se Bernie tem tanta preocupação com o Brasil, por que diabos de três em três meses solta pílulas de ameaça ao futuro do GP que é administrado por seu amigo Tamas Rohonyi, dizendo que a corrida pode não acontecer? Até agora, tem um asterisco lá brilhando. Se Bernie tem essa preocupação com piloto brasileiro e há um episódio de sabotagem, por que caralhos não chegou lá na porta da Sauber para botar na mesa, saber o que acontece e resolver em três tempos?

De repente, surgiu um lapidar argumento de que a Sauber está atrapalhando Nasr justamente para que não seja contratado por outras equipes. Comparo isso ao surto de Janaína Paschoal e seu temor de que a Rússia invada o Brasil pela Venezuela.
 


No fim das contas, é um profundo desrespeito que este tipo de informação seja propagada desta forma. É desrespeitoso com o público, que cada vez mais tem tratado as coisas com a dicotomia e o maniqueísmo exacerbado pelas questões políticas, que deixa de pensar e analisar para simplesmente apoiar um lado e dele não se desgarrar, com muito orgulho e com muito amor. É desrespeitoso com a inteligência. Partam do princípio: a troco – sem lado financeiro nisso – do que a Sauber teria intenção de atrapalhar a vida do piloto sendo que isso também lhe atrapalha? É tipo a falácia que é importante ter desigualdade social no país porque a inveja motiva a buscar mais, é isso mesmo? Outra: a Sauber acabou de ser comprada por um grupo financeiro suíço. Acham realmente que alguém que trabalha neste meio e que acaba de fazer um negócio desta magnitude quer ter o rótulo de sabotador?

E a informação é desrespeitosa também com o piloto. É uma acusação que o prejudica demais. Digamos que mele o negócio com a Force India — existiu mesmo esse negócio de vaga certa lá? — e ele fique na Sauber. Como é que ele explicaria renovar com uma equipe que o sabota? Digamos que não seja Ocon e que ele vá para a Force India. Se ele tomar tempo de Sergio Pérez no ano que vem, o que é perfeitamente plausível, qual a chance de se imaginar que Nasr estaria sendo sabotado por Carlos Slim injetar mais ‘plata de México’ e que Vijay Mallya é um sujo e que deveria estar preso? Vai ficar um carimbo na testa de Felipe que ele simplesmente não merece ter, e ele mesmo deveria refutar veementemente e ter a noção de que houve pilotos brasileiros que recentemente receberam este verniz – e não ajudou em absolutamente nada. 

Não é pecado algum qualquer brasileiro, de qualquer esporte, estar atrás de um rival ou companheiro de equipe. Nasr é um bom piloto. Ponto. Não é brilhante. Ponto. Pode ser? Pode, ué, quem é que consegue ser brilhante numa equipe que não tem condições exatas de mostrar seu brilhantismo? – mas que pode, por outro lado, evidenciar algumas carências. Que vá para a Force India, depois para uma equipe ainda maior, se tiver e mostrar condições, que vá para qualquer lugar. O pior desta história é o cretinismo de se arrumar uma desculpa igualmente cretina para explicar seus resultados.