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Alonso, o rei da mídia

Nas férias da F1, espanhol monopoliza atenção dos fãs e transforma as redes sociais em um verdadeiro reality show ao decidir (aos poucos) o futuro no automobilismo

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O futuro já estava decidido. Porém, ao escolher o caminho para comunicá-lo, Fernando Alonso demonstrou o quanto possui a mídia na mão – sejam as novas, como as redes sociais, como as mais tradicionais, como sites e veículos noticiosos em geral. O fato é que o piloto transformou a série de anúncios sobre o próprio futuro em um verdadeiro reality show pós-moderno, deixando claro que não só se tornou um campeão midiático, como também leva uma atenção de peso para a categoria na qual irá disputar em 2019, a Indy – com uma atenção talvez até maior do que quando disputou as 500 Milhas de Indianápolis, em 2017.

Em toda a história, talvez o único acontecimento parecido tenha sido quando Nigel Mansell trocou a Fórmula 1 pela Indy, na temporada de 1993. Campeão mundial da maior categoria do automobilismo, o Leão foi se aventurar na América em uma das grandes equipes do outro lado do Atlântico, a Newman-Haas, e acabou também sendo o número um por lá. A diferença é que agora, bom, é tudo diferente – e o espanhol soube como ninguém aproveitar isso para se reinventar.

(F1 2018; GP DO CANADÁ; MONTREAL; FERNANDO ALONSO; MCLAREN)

Foi na Indy 500 de 2017 que a nova imagem de Alonso se consolidou (Divulgação/McLaren)

Começou com a mudança de postura. Mesmo sendo considerado um dos melhores do grid da F1 (ou o melhor), Alonso nunca foi visto como o mais simpático. Além disso, ele nem foi um dos primeiros esportistas a perceber o poder das redes sociais. Porém, brincadeiras como aquelas do GP do Brasil em 2015 e 2016 não só atraíram para ele a atenção do público em um momento complicado da carreira do próprio piloto, como se transformaram uma grande fonte de memes e brincadeiras na internet. E esse foi só o começo.

Com a participação na Indy 500, no ano passado, o bicampeão finalmente cultivou uma imagem simpática. Os norte-americanos lhe estenderam o tapete vermelho, é verdade, mas Fernando devolveu sorrisos, gentilezas e tudo mais. Parece que, a partir dali, ele encontrou a fórmula ideal: empenhado de um lado, ainda que reclamando quando achava necessário, mas também comprometido e, de certa forma,  carinhoso com aqueles que lhe dão apoio.

Mesmo que não fosse público, Alonso sabia que 2018 tinha tudo para ser o último ano dele na F1 – só um foguete da McLaren-Renault poderia mudar isso. Por esse motivo, além de costurar um acordo com a Toyota na WEC, que lhe rendeu logo de cara a vitória nas 24 Horas se Le Mans, o espanhol resolveu usar a atenção que tem também por causa da própria F1 como plataforma para outros projetos. Ele lançou a Kimoa, marca própria de roupas, se transformando até em patrocinador da equipe de Woking. Também lançou um museu em sua terra natal, nas Astúrias, Espanha, e uma escola de kart. Até investimentos em um time próprio de e-sports foram feitos. 

Foi como se Fernando Alonso espremesse cada segundo que ainda tinha na F1 em projetos que fatalmente ganhariam maior projeção ao serem anunciados enquanto ele ainda estava na categoria.

O troféu que falta, o da Indy 500… (Fernando Alonso)

Bombar as próprias redes sociais também fez parte desse plano. Além de explorar essa imagem de Fernandinho Paz e Amor nelas, o piloto planejou cada passo da transição de categoria por lá, nos últimos dias. Para começar, publicou um teaser, informando quando faria um anúncio importante – que acabou se revelando o fim da passagem pela Fórmula 1. A decisão veio em outro vídeo, publicado em versões em inglês e espanhol. 

Em outros tempos, haveria apenas dois caminhos para um anúncio desses: um press release oficial da equipe, feito em conjunto com o piloto; ou o próprio piloto assumindo as rédeas da decisão, que seria anunciada em uma das coletivas oficiais da categoria. Esse último caso, por exemplo, foi o escolhido por Michael Schumacher em 2006. Repare como o mundo mudou muito em pouco tempo. 

A partir daí, veio um grande número de publicações que já estavam na manga. Entre elas, um emotivo vídeo feito pela própria F1, no qual Alonso traz uma carta para o seu “eu mais jovem”, ainda no começo de carreira na categoria. A Indy também entrou na brincadeira – por mais que não tenha sido feito nenhum comentário oficial sobre a ida para a categoria norte-americana, a equipe de social media de lá passou a brincar com a grande possibilidade para o futuro. Seria difícil imaginar isso acontecer se, obviamente, a própria IndyCar não esteja dentro do próprio planejamento de redes sociais traçado pela equipe de mídia do piloto.

Nesse processo, aliás, aconteceu algo curioso: percebendo as engrenagens se movimentando e o poder de Alonso nas mídias sociais, horas antes do anúncio da saída da F1, no dia 14 de agosto, surgiu uma conta fake da McLaren no Twitter – que não só “confirmou” a saída do bicampeão, como também "revelou" a ida para a Indy. Alguns veículos caíram na brincadeira, inclusive aqui no Brasil.

É óbvio que a próxima cartada será justamente o post sobre o que ele fará em 2019 – decisão já antecipada pelo GRANDE PRÊMIO, que envolve um acordo entre Andretti, Chevrolet, McLaren e a pequena equipe Harding. Uma grande engenharia de bastidores orquestrado por Michael Andretti, que deve vir acompanhada também por vídeos e conteúdos promocionais dos mais diversos,  Afinal, é um dos maiores pilotos do mundo indo para a Indy, sem falar na busca pela terceira parte da Tríplice Coroa no automobilismo mundial – Alonso já venceu em Mônaco e Le Mans, faltando apenas a vitória nas 500 Milhas para igualar o feito do grande Graham Hill. 

Os norte-americanos, claro, só tem a sorrir com isso. Por mais que a categoria esteja crescendo e retomando a posição que tinha lá nos anos 1990, ela ainda tem menos importância e atenção que a F1 – e, nos EUA, que a Nascar. Ter Alonso representa não só um nível maior de atenção do público, mas também amplia a conversa e o engajamento justamente nas redes sociais, que são, hoje, um termômetro de sucesso. Este é justamente o momento de Alonso capitalizar tudo o que ganhou de atenção e seguidores por correr na F1, jogando-os na Indy. 

Os dias de glória vão voltar? (GP do Brasil de 2005 Fernando Alonso Campeão Reprodução Twitter)

Resta saber, agora, qual será o impacto disso tudo nas transmissões aqui no Brasil. A Band, TV oficial da categoria  no nosso país, vem sofrendo uma longa crise, reflexo também da crise no jornalismo e nas mídias tradicionais – em parte, causado pelo crescimento justamente das redes sociais. A emissora paulista deixa o automobilismo em um segundo plano, mesmo em sua já combalida grade de programação. Porém, eles já perceberam que essas mesmas redes sociais podem ser um trunco, quando bem usadas – vice o sucesso de MasterChef Brasil. Com Fernando Alonso no mesmo time, urge a criação de uma estratégia para aproveitar essa força. Será que eles estarão preparados? 

Pois é, o futuro pode ser um mistério, mas, hoje, muita gente sairá ganhando não só com a decisão de Alonso, mas também com a forma como o espanhol a está executando. Fica, apenas, um único perdedor: a Fórmula 1.

Pois é, para alguém ganhar, outro precisa perder…

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