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O dono do primeiro milhão

Ao GRANDE PREMIUM, Valdeno Brito se emociona ao relembrar a trajetória vitoriosa em Jacarepaguá e mostra força para reagir após tempos difíceis: “Tenho muita lenha para queimar”

A manhã daquele domingo nublado no Rio de Janeiro em 31 de agosto de 2008 mudou para sempre a vida e a carreira de Valdeno Brito. O paraibano, já destacado como um dos melhores pilotos do grid da Stock Car à época, foi alçado a um novo patamar depois de vencer pela primeira vez na principal categoria do automobilismo brasileiro. E não foi uma vitória qualquer. Não foi mesmo…

Pela primeira vez, a Stock Car realizava a Corrida do Milhão, prova que se consagrou como a principal do calendário da categoria. A premiação era um recorde na história do automobilismo nacional: US$ 1 milhão, algo em torno de R$ 1,63 milhão na cotação da época e mais de R$ 4,1 milhões nos dias de hoje. Um prêmio jamais pago pela Stock Car ou qualquer outra categoria nacional desde então.

Coube a Valdeno a conquista da vitória milionária, cercada por dificuldades na primeira parte da prova. Dificuldades que se converteram em performance e também um belo brinde da sorte quando restavam poucas voltas para o fim, e diante das arquibancadas cheias de Jacarepaguá, o paraibano passou Cacá Bueno, líder de praticamente toda a corrida, mas traído em razão de uma pane na bomba de combustível.

A carreira de Valdeno, que havia sido interrompida por bons anos justamente pela falta de combustível financeiro, deu um salto significativo. Hoje, reconhecidamente, o piloto de 44 anos tem uma trajetória de sucesso marcada por oito vitórias, oito poles, 30 pódios e o quarto lugar no campeonato de 2016 — empatado em pontos com o terceiro lugar, Daniel Serra —, como sua melhor posição em uma temporada.

Ao GRANDE PREMIUM, Valdeno deu um depoimento emocionado e puxou pela memória detalhes daquela campanha que resultou na vitória da primeira Corrida do Milhão da Stock Car. No fim das contas, o piloto busca nas glórias vividas no passado, mais distante e também recente, o impulso a mais para retomar a trilha do sucesso depois de dois anos particularmente bastante complicados no esporte.

Uma vitória para sempre
 

Foi inesquecível. Esses dias assisti duas vezes à corrida inteira. Estava no meu quarto ano na Stock Car, já tinha conquistado alguns pódios, mas ainda não tinha vencido. Estava andando por uma equipe muito boa, chefiada pelo Andreas Mattheis e patrocinada pela Medley, com três carros: eu, Ricardinho [Maurício] e Marcos Gomes. Fui quem melhor fez o treino classificatório — estava chovendo — e larguei em terceiro. O Ricardinho e o Marquinhos ficaram um pouco mais para trás. Lembro bem que no hotel, dias antes e conversando com Deus, disse que, se Ele quisesse, poderia me dar aquela vitória. Estava numa equipe boa, tinha condição de fazer boas corridas e vencer na Stock Car, e acabou que tudo convergiu para aquela vitória.

A equipe se preparou muito bem nos pit-stops. Hoje em dia é uma porca só em cada roda; naquela época, eram quatro ou cinco. Então, era mais difícil ainda. A equipe, lembro bem, treinou incansavelmente. Poucas equipes tinham o desempenho que a de Andreas tinha na troca dos pneus. Lembro que foi contratado um pessoal da Nascar para treinar a equipe, então fizemos uma boa preparação. Tinha um carro rápido, estava largando numa boa posição. No começo, recordo que tinha chovido, e meu carro saiu com a calibragem um pouco alta. Todo mundo saiu com pneus de chuva, e o carro estava muito difícil de guiar, estava segurando uma fila imensa atrás de mim… Sei que as coisas foram acontecendo até que, faltando poucas voltas, estava em segundo, tirando a diferença para Cacá. O carro estava muito rápido.

Até que Cacá teve um problema de poucos segundos ali, na bomba de combustível, e aí acabei pegando a vitória. Foi tudo maravilhoso mesmo, foi uma corrida única. A única Corrida do Milhão em Jacarepaguá, a primeira Corrida do Milhão e a única com o prêmio de um milhão de dólares. Até hoje existe a Corrida do Milhão, mas a única corrida do milhão de dólares na Stock Car Deus me deu a honra de vencer. Sou muito grato e serei eternamente. Depois daquilo ganhei mais sete corridas, tenho muitos pódios, mas aquela vitória realmente é inesquecível, única. Deus foi muito bom comigo.
 

(Luca Bassani/Arquivo Stock Car)

Do começo ao fim: confira como foi a primeira Corrida do Milhão da Stock Car

Valdeno largou em terceiro, atrás de Allam Khodair e do pole, Cacá Bueno (Luca Bassani/Arquivo Stock Car)

Glória e reconhecimento
 

Como é de praxe em corridas e premiações do tipo, piloto e equipe entram em acordo sobre a divisão do dinheiro conquistado em caso de vitória. O milhão de dólares foi dividido entre Valdeno e a equipe chefiada por Andreas Mattheis e, claro, foi muito importante para as duas partes.

Fosse aplicada a cotação atual, o prêmio em reais seria quase o triplo. “É como se eu tivesse vencido quatro Corridas do Milhão em relação a hoje [risos]. Em termos de premiação, pode-se dizer que, até hoje, fui eu quem mais ganhou. Claro, foi bom pelo prêmio, e fiquei com parte desse prêmio, qualquer fatia desse US$ 1 milhão é muito boa. Mas também foi bom pelo reconhecimento, pela consagração de uma carreira aqui no Brasil vindo de um estado que até hoje não tem tanta tradição no automobilismo”, conta o piloto, que construiu sua carreira na Stock Car com o carro #77.

Valdeno destaca a evolução da Paraíba como um centro de desenvolvimento de pilotos dos mais importantes do país, sobretudo depois da construção de um kartódromo de excelência localizado em Conde, próxima à paradisíaca João Pessoa.

“Depois da minha entrada, estão surgindo alguns pilotos bons. E lá na Paraíba tem um kartódromo que é referência mundial, o Kartódromo Paladino, um dos melhores do Brasil… foi construído um autódromo lá também, o pessoal gosta de automobilismo. E naquela época não existia isso. Saí de lá da Paraíba para entrar na principal categoria do país, e depois ganhar uma corrida importante dessas e também outras, brigar por campeonatos, muitas vezes entre os dez primeiros nas corridas…”

Valdeno e o anel da primeira Corrida do Milhão da Stock Car (Duda Bairros)

“Ainda tenho muita lenha para queimar”
 

Desde que venceu a Corrida do Milhão em Jacarepaguá, Valdeno posicionou-se com frequência no rol dos pilotos mais fortes no grid da Stock Car. Conhecido pela pilotagem aguerrida, Brito foi quinto colocado no campeonato daquele ano e teve campanhas de destaque particularmente em 2012 e 2013.

Depois de longos anos de serviços prestados à equipe Mattheis, por onde conquistou suas últimas vitórias na Stock Car, Valdeno encontrou lugar na TMG, equipe chefiada por Thiago Meneghel. Na raça, com uma estrutura que se desenvolveu ao longo da temporada, Brito fez uma campanha memorável e marcada por cinco pódios e muita regularidade, sendo um dos protagonistas do campeonato. Por um capricho do destino o top-3 não veio, já que o vencedor daquela última prova do ano foi Daniel Serra, que empatou em pontos com Valdeno. Pelo critério de desempate, Serrinha ficou em terceiro justamente por ter vencido uma corrida.

A chegada da Shell Racing como patrocinadora-máster da TMG representou também as vindas de Ricardo Zonta e Átila Abreu ao time baseado em Americana para 2017. Na dança das cadeiras da Stock Car, o paraibano teve de buscar nova casa e assinou com a equipe chefiada por outro ícone da Stock Car, Carlos Alves.

No entanto, desde então Valdeno teve poucos motivos para comemorar na Stock Car. No ano passado, o #77 conquistou um segundo lugar, seu melhor resultado, depois de ter largado em terceiro na corrida 2 no Velopark. Depois, algumas boas posições no grid, como o quinto posto na corrida 1 na cidade onde vive atualmente, Londrina, e o quarto no alinhamento inicial em Buenos Aires. Mas desde Nova Santa Rita, Brito não voltou mais ao pódio.

E 2018 vem sendo ainda mais difícil para o ‘Expresso da Paraíba’, que vem lidando com muitos problemas e também com azares. Em Campo Grande, na última corrida disputada até agora no campeonato, Valdeno terminou a corrida 2 em terceiro. Seria o retorno ao pódio. Só que o dono da ‘Locomotiva Negra’ foi um dos excluídos na esteira de uma grande confusão a respeito do pit-stop obrigatório quando os boxes estavam fechados em razão da entrada do safety-car.

Até agora na temporada, Valdeno somou apenas três pontos. Um resultado que nem de longe condiz com seu potencial e talento já mostrados durante tantos anos de Stock Car. Mas é nas glórias já vividas ao longo de uma carreira vencedora que Brito se apega para dar a volta por cima e retomar a melhor fase nas pistas.

“A gente também passa por momentos difíceis, como eu estou passando agora com minha equipe. Mas a gente tem de acreditar que é passageiro, e no automobilismo existe muito isso, de você às vezes não estar num casamento muito bom, mas creio mesmo que posso dar bons resultados à Carlos Alves para acabar minha fase aqui dentro, acredito na equipe. Mas não tenho como negar que foram dois anos difíceis para nós. E creio, sim, que ainda tenho muita lenha para queimar. Sinto que a velocidade está em mim e a vontade de vencer ainda é muito grande”, diz.
 

(Fernanda Freixosa/Stock Car/Vipcomm)

Valdeno tem grandes exemplos diante dos seus olhos para acreditar que é só questão de tempo para que os bons ventos voltem a soprar.

“Vejo Rubinho [Barrichello] aí, mais velho que eu; Max [Wilson] também, mais velho que eu, ganhando corrida, disputando títulos… Tenho certeza que na Stock Car, quando um piloto se prepara bem fisicamente, é possível ir até os 50 anos sendo competitivo. Lembro bem do Ingo Hoffmann, que, aos 54 anos, anunciou a aposentadoria fazendo a pole-position em Interlagos. Então isso é uma referência muito boa para nós, e tenho certeza de que Deus vai me dar a chance de ter bons resultados na Stock Car”, finaliza.

Dez anos depois da sua maior conquista, Valdeno Brito garante que há muito o que buscar no automobilismo. Cheio de lenha para queimar, o ‘Expresso da Paraíba’ lembra que é preciso seguir em frente. E que o fim da linha ainda vai levar um bom tempo para chegar.

Dono do primeiro milhão, Valdeno Brito garante: “A vontade de vencer ainda é muito grande”

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