Reciclar para melhorar

Por mais condições de trabalho e menos polêmicas, a CBA trabalha junto aos comissários para desenvolver uma nova filosofia de atuação, baseada em normas e condutas. Tudo para tornar o esporte melhor e mais transparente

Fernando Silva, de Interlagos

Eles praticamente não aparecem, mas têm o poder de julgar incidentes e irregularidades que podem, no fim das contas, decidir corridas e até campeonatos. Os comissários de prova fazem parte de toda competição profissional de automobilismo, e não é diferente nas categorias chanceladas pela CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo). A Stock Car, sendo a principal classe do esporte a motor nacional, naturalmente é onde o trabalho dos profissionais ganha mais eco. Nem sempre positivo.

Sendo assim, a entidade e a Vicar, empresa que promove e organiza a Stock Car, enxergam a necessidade de que mudanças sejam colocadas em prática o mais rápido possível. Carlos Col, presidente do Conselho de Administração da Vicar, solicitou que esse processo por parte da Confederação fosse acelerado. E tudo isso passa diretamente pela reciclagem na atuação e procedimento dos comissários, além da formação de novos profissionais.

A CBA começou a promover uma série de medidas e estudos para melhorar o trabalho feito por seus profissionais. Algumas práticas já foram iniciadas na segunda parte da temporada, como o recolhimento das imagens das câmeras onboard de todos os carros em ação para a análise de incidentes, tendo como objetivo um julgamento mais claro e preciso. Outra prática em vias de implementação é a de gravação de todas as conversas entre comissários e pilotos para que haja ciência de tudo o que foi falado, evitando assim o ‘disse-me-disse’.

Como parte desse novo processo, a entidade presidita por Waldner Bernardo, o 'Dadai', trouxe Alfredo Tambucci Jr., que desde 2012 é o diretor-esportivo do GP do Brasil de F1, dando sequência ao legado do pai. Presidente da Associação Desportiva Nacional de Oficiais e Comissários de Competição (ADNOCC), Tambucci Jr. é o responsável pela formação, desenvolvimento e treinamento dos comissários esportivos que atuam no evento. Seu nome é visto como ideal pela CBA e também pela Vicar para implantar uma nova filosofia, reciclando, oxigenando e melhorando o trabalho dos comissários da entidade.

Na quinta-feira que antecedeu a etapa final da temporada, em Interlagos, o GRANDE PRÊMIO esteve entre os veículos de imprensa convidados para fazer parte de uma dinâmica de grupo, que foi liderada por Tambucci Jr. e Felipe Giaffone, presidente da Associação Brasileira de Pilotos de Automobilismo (ABPA).

Alfredo Tambucci Jr. em dinâmica com pilotos da Stock Car
CBA/Divulgação

Em uma sala propositalmente quente e abafada, pilotos, chefes de equipe e jornalistas convidados se depararam com cinco ocorrências de categorias distintas do automobilismo brasileiro e se debruçaram sobre quais ações tomar em um curto espaço de tempo, simulando a pressão a qual um comissário é submetido durante as corridas.

Os objetivos foram trazer um pouco do universo de atuação dos comissários para ‘o outro lado’, quase sempre em rota de colisão, e também entender o que pensam pilotos, chefes e também a imprensa sobre tais incidentes.

Ao GRANDE PREMIUM, Col listou o aperfeiçoamento dos comissários da CBA como um dos focos 'para ontem'. “Acho que em qualquer área de atividade, o aperfeiçoamento, o avanço, é necessário. E, obviamente, na CBA também. Quando o Dadai se candidatou, ele me prometeu, pessoalmente, que iria atuar no aperfeiçoamento de várias áreas da CBA que são deficientes. E agora ele está cumprindo parte dessa promessa, contratou uma empresa de fora da CBA, mas muito ligada a esse trabalho de treinamento porque vem conduzindo durante muitos anos no GP Brasil de F1, então tem um know-how para fazer isso
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"Temos comissários experientes, que são ótimas pessoas e estão aqui há muito tempo, então tem uma matéria prima para ser atualizada, reciclada, como qualquer outra área de profissionais do mercado, e também treinar novos. Tem o famoso ditado: quem tem dois, tem um; quem tem um, não tem nenhum. Então, ter uma formação de novos é sempre saudável, sempre bem-vinda", ressalta Col.

No dia seguinte à dinâmica, o GP* conversou com Tambucci Jr. e também com Felipe Giaffone a respeito não apenas da dinâmica realizada em Interlagos, mas também dos pontos a melhorar no que diz respeito à atuação dos comissários e do esporte como um todo. Há um pensamento muito claro de que há muito o que evoluir na relação entre comissários e pilotos e também em decisões que muitas vezes vão para instâncias superiores (leia-se Superior Tribunal de Justiça Desportiva), fazendo com que, às vezes, o resultado de uma corrida seja decidido três meses depois.

Sangue novo
 

Alfredo Tambucci Jr. admite que um dos principais projetos no trabalho junto à CBA é o de implantar o padrão normativo que costuma adotar como diretor-esportivo no GP do Brasil. “Nós temos normas e procedimentos que aplicamos na F1. Acho que essas normas e procedimentos se encaixam aqui. Vai ser um choque de realidade, mas essas normas e procedimentos vão depois desencadear processos que vão aliviar essas tensões”.

“Basicamente, são normas e procedimentos que vão começar a estabilizar essa visão tanto dos pilotos quanto dos comissários entre si. Para mim, é o que enxergo, principalmente”, explica.

O feedback obtido na dinâmica de grupo em Interlagos vai servir como base para Tambucci Jr. trabalhar com os comissários em atividade, debater o ponto de vista dos pilotos sobre as ocorrências apresentadas e definir eventuais mudanças no conceito das punições aplicadas durante as corridas.

“A gente vai pegar todo esse material compilado e levar para os comissários em workshops que vamos fazer no ano que vem e debater isso, mostrar que os pilotos enxergam assim, a regra é essa, e vocês [comissários] enxergam assim. Comparar os resultados. E aí vamos chegar a um consenso. E esse trabalho que o Felipe está fazendo junto aos pilotos, de debater esses pontos — alguns pensam um pouco mais para cá, outros pensam um pouco mais para cá — e criar uma linha, máxima e mínima, que hoje não tem. A gente não sabe até onde o piloto pensa e até onde o comissário pensa. Então temos de estreitar isso”, explica.

 

Diminuindo os conflitos
 

A relação entre comissários de pista e pilotos não costuma ser das mais amistosas, seja qual for a categoria. O cenário não é muito diferente na Stock Car. No entanto, há um consenso de que, dos dois lados, há muito o que evoluir no trato um com o outro. Quem diz isso é Felipe Giaffone, que lembra: “Hoje não existe respeito”.

Campeão da Copa Truck e presidente da Associação dos Pilotos, Giaffone dá voz à classe de quem faz o espetáculo nas pistas. Portanto, tem grande relevância porque reflete os anseios dos competidores sobre o que é preciso mudar não apenas no que diz respeito à Stock Car, mas no trato dos comissários como um todo no esporte a motor nacional.

Felipe entende que é necessária “a aproximação entre comissários e pilotos para que, pelo menos o pensamento, seja o mesmo, ainda que a interpretação possa divergir um pouco para lá ou para cá. Mas acho que hoje, só de eles terem o respeito, que hoje não existe — dos dois lados, é uma falta de respeito enorme —, acho que precisamos dar um reset para começar o trabalho. Sempre vai ter divergência, mas é exigir o respeito dos dois”.

Na visão de Giaffone, a CBA precisa promover um rodízio entre os comissários de determinada categoria. Os profissionais que têm como atribuição punir também devem ser punidos em caso de erro ou excessos, avalia o presidente da ABPA.

“Tem de ter uma troca dos comissários, não troca de todos, quebrar um pouco o grupo dos comissários, acho que é importante para eles. A ideia é que não sejam sempre os mesmos no mesmo lugar. E, obviamente, os pilotos reclamam: só os pilotos são punidos e os comissários, não? Se o cara faltou com respeito e errou, por que não?”, indaga.

Sempre que se menciona o trabalho dos comissários da CBA para a Stock Car, vem à tona um caso que gerou grande polêmica há pouco mais de dois anos. No início de 2016, vazou uma conversa de um grupo de comissários no WhatsApp que levantou dúvidas sobre a conduta dos profissionais e a isenção sobre o julgamento dos pilotos. Como personagem principal, apareceu o nome do pentacampeão Cacá Bueno.
 

O ocorrido veio à tona quando a CBA ainda era presidida por Cleyton Pinteiro. Agora sob gestão de Waldner Bernardo, o ‘Dadai’, a entidade esclarece que nenhum dos comissários envolvidos no episódio faz mais parte do grupo.

Na etapa do Velo Città neste ano, Cacá foi punido com a exclusão da corrida por conta de uma falha na luz de freio. O piloto da Cimed alegou ter sido ameaçado por um comissário e se disse “injustiçado e perseguido”.
 

 

Giaffone toma o caso ocorrido em 2016 como exemplo para justificar sua proposta de desmembrar os grupos de comissários. “A razão de desfazer esse grupo é exatamente por isso: você trabalha sete, oito, dez anos com as mesmas pessoas, você cria intimidade. Eu vejo aquilo como uma brincadeira de WhatsApp, a gente sabe como funciona, mas se eu tivesse do lado do Cacá também ficaria puto da vida, por mais que meu ponto de vista entenda que não houve perseguição. Mas claro, se o cara não gosta de você, acaba falando mal...”

Tambucci Jr. vai além e defende a formação de um segundo grupo de comissários, que serviria como uma informal instância superior ao comissariado que toma as decisões das corridas. O objetivo é evitar com que um mesmo profissional julgue duas vezes o mesmo incidente ou ocorrência.

“Hoje a gente tem três comissários. Mas, de repente, precisaríamos de cinco comissários, dois trainees, mas que, num determinado momento, eles vão ter atuação para julgar algo que precisa ser revisto. Quando você pede para uma pessoa rever algo que ela já viu, fica esquisito ela tomar uma decisão que já tomou”, justifica.

A polêmica no Velo Città evidenciou o racha entre pilotos e comissários na Stock Car
Reprodução

Por decisões na pista e não nos tribunais
 

Um dos pontos que chamou a atenção durante a última temporada da Stock Car foi que muitas corridas tiveram resultados decididos nos tribunais, mais precisamente no STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva).

Três casos foram os mais emblemáticos neste ano: a perda — e depois a recuperação — do pódio conquistado por César Ramos e Kelvin Van der Linde na Corrida de Duplas em Interlagos; a vitória perdida por Ricardo Zonta na corrida 1 de Campo Grande por irregularidade no procedimento de pit-stop, sendo Cacá Bueno declarado vencedor três meses depois; e novamente com Zonta, na corrida 1 de Goiânia, que perdeu a vitória por conta do uso de uma peça retrabalhada, algo julgado como irregular pelo STJD. Diego Nunes foi declarado como vencedor mais de um mês depois da prova.

Há um consenso entre CBA e Vicar de que decisões tomadas por via judicial são muito ruins para pilotos, equipes, patrocinadores, público, para o esporte como um todo. Carlos Col cobra medidas que sejam interpretadas com clareza pelos competidores justamente para evitar a avalanche de recursos na Justiça Desportiva.

 

“O que acho que tem de melhorar é a ação preventiva. Isso que eu tenho pedido à CBA, que muitas dessas situações deveriam ter sido evitadas. Uma ação preventiva e não punitiva. O que eu quero dizer com isso? Vamos recordar a situação de Campo Grande, a entrada dos boxes e a dúvida: a sinalização de solo não existia. O sistema de definição se o piloto entrou ou não no box, na minha opinião, era deficiente — o piloto tem de trabalhar com os inputs visuais para que ele possa responder a esse comando e tomar a decisão”, descreve Col.

“Agora, se ele tomar a decisão errada, tudo bem, cabe a punição, e aí é uma situação indiscutível, inequívoca, que não vai dar tribunal. Mas achei que ali faltaram muitas ações preventivas: sinal funcionando adequadamente, pintura de solo adequada, definição da linha correta sobre onde entrou ou não entrou no box, isso tudo como exemplo”, defende o dirigente, que está de volta à Stock Car.

“Precisa de vistorias prévias mais rigorosas, mais intensas, como faz a Nascar, por exemplo, onde o carro não vai para a pista antes de três, quatro postos de vistoria técnica, ser liberado e considerado apto para correr. Isso tudo é muito melhor do que punir depois. Punir depois é ruim para o patrocinador, ruim para o público, é ruim para o piloto, ruim para a equipe... Então é perseguir esse objetivo. Sei que tem um caminho pela frente, mas temos de perseguir isso”, complementa.