Um triunfo para a história

Tony Kanaan conta a história da sua primeira vitória na Indy — ainda CART —, conquistada há exatos 20 anos: a surpresa com a pane seca de Max Papis na volta final, a quase ultrapassagem de Juan Pablo Montoya, a cerveja com Cristiano da Matta e a narração antológica de Téo José

Gabriel Curty, de São Paulo &
Fernando Silva, de Sumaré

Vitórias são sempre vitórias, mas a forma como Tony Kanaan entrou para a galeria dos pilotos vencedores da Indy foi emblemática e surreal. Há exatos 20 anos, em 25 de julho de 1999, no superoval de Michigan, o baiano foi surpreendido pelo destino para sair vitorioso da US 500. Uma corrida em que Tony não esperava vencer, ainda mais da forma como foi. E, por muito pouco, quase a perdeu.

A US 500 foi disputada entre 1996 e 1999 e foi a alternativa da CART às 500 Milhas de Indianápolis, que ficaram com a IRL após a cisão que dividiu a categoria no meio da década. Em resumo, a CART ficou com os melhores pilotos, mas sem a prova principal, a ‘cereja do bolo’, que foi para a liga criada por Tony George.

Em 1999, Kanaan fazia seu segundo ano pela CART depois de ter conquistado o título da Indy Lights pela equipe Tasman. Foi pelo time de Steve Horne que Tony estreou pela principal categoria de monopostos nos Estados Unidos. No ano seguinte, seguiu na Tasman, que se associou à Forsythe — algo comum no automobilismo americano. Kanaan tinha às mãos um conjunto formado pelo chassi Reynard, motor Honda e pneus Firestone. No seu carro, o numeral #44 e as cores amarela e vermelha de um patrocinador emblemático: o McDonald's.

Tony partiu em 11º lugar no grid das 500 Milhas dos Estados Unidos. Mas o brasileiro não chegou a ser um protagonista na corrida. Quem liderou o maior número de voltas foi o italiano Max Papis, que naquele ano tinha a dura missão de substituir Bobby Rahal na equipe que levava seu sobrenome. A bordo do Reynard-Ford-Firestone, Papis dominou a prova e liderou nada menos que 143 das 250 voltas. Inclusive abriu a derradeira passagem muito à frente de Kanaan, que estava em segundo, e partia com segurança para vencer pela primeira vez na categoria.

Há exatos 20 anos, Kanaan vencia pela primeira vez na Indy
David Taylor

Mas no meio da reta oposta de Michigan, a sorte sorriu para Kanaan. Papis sofreu uma pane seca, recolheu para a pista de rolamento e viu escapar, por questão de segundos, a chance da vitória. Tony aproveitou a chance e assumiu a liderança. Mas por muito pouco, o jovem de 24 anos não foi superado por Juan Pablo Montoya, que cruzou a linha de chegada apenas 0s032 atrás, uma das menores diferenças da história da Indy.

A seguir, o GRANDE PREMIUM resgata a história daquela corrida contada tanto por Kanaan — que recorda detalhes da conquista, como a surpresa por ver o carro de Papis parando e como Montoya ficou perto de lhe tirar sua primeira vitória — como também por Téo José, que ficou marcado pela narração antológica que é lembrada até os dias de hoje.


Quem fez história dentro da pista
 

Por incrível que pareça, Kanaan não teve tanto tempo para assimilar a vitória na etapa de Michigan, logo seu primeiro triunfo na categoria. A circunstância extrema fez toda a diferença para o brasileiro, que havia sido retardatário na prova e só chegou a cogitar a chance de vencer no momento em que viu Papis se arrastando na pista nas últimas curvas.

Não bastasse o fato do brasileiro estar consideravelmente atrás do líder na última volta, Tony ainda ficou boa parte da corrida sem receber sinal do rádio, recebendo informações apenas por placas que, no seu caso, nem funcionaram direito.

E, olha, a primeira das 17 vitórias do baiano na categoria teve de tudo. O "perde, sim" de Papis, a primeira vez do então jovem de 24 anos levemente embriagado na volta para Miami e até um recado ao vivo desabafando após quase repetir Long Beach e entregar o triunfo de mão beijada para Montoya.

"Lembro que tive um problema na asa traseira, parei nos boxes e perdi uma volta. Perdi também o rádio, a comunicação com a equipe, então a gente estava usando placas, era assim que eu ia para os boxes. Só que teve uma parada que eu só fui me guiando por um alarme de combustível no volante porque meu mecânico estava chacoalhando a placa para cima e para baixo e ela tinha de estar parada para que eu pudesse ler", conta Kanaan ao GRANDE PREMIUM.

Em seu segundo ano de Indy — na época, ainda CART — e correndo em uma equipe pequena, a Forsythe, o brasileiro não estava acostumado a andar na frente. Até Michigan, por exemplo, tinha apenas dois pódios em seu currículo, além do título da Indy Lights em outra realidade em 1997 com a Tasman.

A reação com tudo que aconteceu naquela última volta foi de susto puro. Susto tão grande em ver Papis parando que quase acabou fazendo a mesma coisa que o italiano. Tony tirou tanto o pé ali no reflexo que Montoya, que parecia ainda mais fora da corrida, terminou colado.
 

"Faltando dez voltas, eu vi que estava em segundo e também consegui ver na torre que o Papis era o primeiro, mas não fazia ideia de que ele iria ficar sem combustível. Na última volta, quando ele ficou sem combustível na curva 3, eu fui tirando o pé e olhando para ele 'nossa, ele está parando', só que aí eu olhei para trás e acelerei de novo porque o Montoya estava vindo muito rápido, tanto que a corrida acabou super perto, mas graças a Deus deu certo, né? Imagina perder a corrida na linha de chegada pro Montoya?".

Em um dos finais de prova mais doidos da carreira, Kanaan não teve nem margem para pensar no "e se". Foi tudo tão rápido, tão inesperado que só havia espaço para comemoração, uma inesperada comemoração. O brasileiro recorda, inclusive, que ter triunfado surpreendeu a todos também olhando para o campeonato, por estar em uma equipe com poucos recursos e sem a necessidade de entregar vitórias.

"Estava em segundo, estava bem feliz que ia dar um pódio, feliz mesmo, nunca pensei que eu ganharia aquela corrida. Não deu nem tempo de passar pela minha cabeça que eu ganharia, foi uma surpresa muito grande. Em termos de chegada, foi uma das mais apertadas. Tive depois também chegada apertada com Dan Wheldon no Texas, com o Vitor Meira em Kentucky, mas naquela época foi a mais apertada, era uma coisa que não acontecia muito na CART e teve aquela sensação de 'putz, ele vai me passar!' 'Ufa, não vai' [sobre a aproximação de Montoya no fim], mas deu certo", explica.

"Não tinha pressão nenhuma para vencer ali. Era uma equipe pequena, era só meu segundo ano, a gente estava tentando fazer com que a equipe crescesse mais, tinha acabado de fazer a parceria com a Forsythe, então não tinha pressão, foi mais uma surpresa, mesmo", garante.

Kanaan acelera para a primeira e improvável vitória na US 500
David Taylor

Se na pista não deu tempo de assimilar a vitória, fora dela a festa foi completa. E aí teve de tudo já no momento em que saiu do carro, com festa brasileira e uma espécie de desabafo pelo que tinha passado meses antes nas ruas de Long Beach.

"Depois da corrida foi muito legal. Lembro daquele pódio, minha primeira vitória e o Cristiano da Matta e o Christian Fittipaldi foram lá me cumprimentar. Na entrevista, mandei um recado para minha mãe porque eu tinha batido na corrida anterior, estava liderando Long Beach e bati na liderança, perdi do Montoya. Aí eu mandei o recado para ela na TV, falando que daquela vez não tinha batido", conta.

E pensa que parou por aí? A festa seguiu milhas e milhas distantes do oval de Michigan, com direito a uma cervejinha com o compatriota Cristiano da Matta que não caiu bem.

"Aí também lembro de outra coisa depois. Eu não bebo, nunca bebi na vida, mas voltei para Miami naquela noite com o Da Matta e tinha uma escala em Atlanta. Aí ele me fez beber uma cerveja no aeroporto de Atlanta e eu vou te falar que não me lembro de muita coisa no avião indo para Miami. Uma cerveja naqueles copos de americano e desidratado..."

Kanaan venceu pela primeira vez na Indy aos 24 anos
Arquivo Pessoal

“Não perde... perde, perde, perde, sim!!”
 

Em uma época em que a internet ainda engatinhava, o público brasileiro levou um bom tempo para ver a vitória de Tony Kanaan em Michigan. Naquele ano, o SBT exibia as corridas em VT — escolha da direção da emissora em razão da guerra de audiência aos domingos entre Gugu Liberato e Fausto Silva, este na Rede Globo —, e o compacto foi exibido apenas no fim daquela noite.

Téo José, a voz da Indy no Brasil, era quem liderava as transmissões da categoria no Brasil. E como tanta gente, foi pego de surpresa com a pane seca que tirou a vitória de Papis. O goiano já narrava o tradicional “Não Perde Mais...”. O italiano perdeu e, de quebra, ajudou a eternizar a narração da primeira vitória de Kanaan na Indy.

Ao GRANDE PREMIUM, Téo relembra os detalhes daquele domingo e como tomou a decisão de manter a narração no final, mesmo com a sugestão do editor da transmissão do SBT em gravar novamente a voz da última volta.

“Naquela época, a gente já fazia as corridas em compacto no SBT, às 23h. Então, qual era o esquema? Eu gravava as provas ao vivo, gravava a corrida inteira, só parava de narrar nas bandeiras amarelas, e depois o pessoal editava. Então narrei aquela corrida como se fosse ao vivo. E na minha cabeça, o Papis tinha uma vantagem enorme, ele dominou as últimas voltas com absoluta tranquilidade”, recorda.

“Muitas vezes, e até hoje faço isso — mas hoje, menos —, escolado por essas e outras que eu quase caí do cavalo, eu, quando chegava à última curva já falava ‘Não perde mais’, principalmente em circuito oval. Em oval, se você vem na frente com uma vantagem, o cara de trás não vai te passar nunca.  Então, ali fiz isso. Quando o Max Papis entrou na curva 3, eu já preparei o ‘Não perde mais’. Ele estava muito na frente”, conta.

“Quando comecei o ‘Não perde mais’, aí vi que ele ficou lento. Quando ele ficou lento — porque faltou combustível —, o Tony veio embalado, passou, e aí falei: ‘Perde, perde, perde... Não perde mais, Tony Kanaan’. Quando acabou a gravação, um editor virou para mim e falou assim: ‘Vamos fazer o final de novo?’. E falei: ‘Não, não vou fazer, não’. A coisa tem de ser natural, a emoção é essa. Edita da forma que está e vamo bora”, diz Téo, que se mostrou surpreso pelo impacto que sua narração teve à época.

“Na rua, não esperava uma repercussão tão grande, e depois da repercussão vejo que, mais do que nunca, a atitude de não editar, de não refazer o final, foi correta”, completa.

A narração icônica de Téo, uma das mais marcantes da história do automobilismo brasileiro, é das favoritas de Tony Kanaan, que lembrou de outro lance famoso que foi eternizado na voz de Cléber Machado: a chegada do GP da Áustria de 2002.

"Foi muito legal, ficou famosa. Fiquei sabendo dela logo depois da corrida e aí foi aquela tiração de sarro, na verdade até hoje. Acho até que o Téo ficou ainda mais conhecido por causa dela. Gosto dela, é muito legal, uma das minhas favoritas, ele não esperava aquilo. Acho que foi o nosso ‘hoje não, hoje não, hoje sim’, se compararmos a Indy com a F1", finaliza o baiano, hoje no alto dos seus 44 anos, campeão, vencedor das 500 Milhas de Indianápolis e ainda acelerando nos circuitos ovais, mistos e de rua da Indy.

Tony Kanaan é um dos grandes pilotos da história do automobilismo brasileiro
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